Fonte: OpenWeather

    Assaltos


    Violência: os traumas das vítimas de assaltos em Manaus

    Ataques de assaltantes em casa, nas paradas, nas ruas e em ônibus se tornaram rotina. Seguir em frente depois de ser vítima é uma luta diária

    Roubo é um evento traumatizante que pode trazer danos ao emocional de uma pessoa | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - Foram semanas até a esteticista Cristina Côrrea, 39, se recuperar do trauma do assalto que sofreu. Ela voltava para casa em um sábado chuvoso quando foi abordada por um homem com uma arma de fogo. A ação aconteceu a poucos metros da casa onde ela vive, no bairro Nova Cidade, Zona Norte de Manaus.

    “Ele estava debaixo de uma cobertura, se protegendo da chuva. Era jovem, bem vestido. Passou por mim, disse ‘bom dia’ muito educado e, no meio do caminho, se virou e puxou a arma. Falou ‘Não corre, não grita, senão eu atiro’. Foi um dos momentos mais horríveis da minha vida”, relata Cristina.

    O assaltante chegou a encostar o cano da arma no rosto da esteticista. “Fiquei nervosa, desesperada, me tremendo toda. Não tinha ninguém para me ajudar. Só quem passa por isso sabe o desespero que é ter sua vida ameaçada, saber que você pode morrer a qualquer momento”, diz ela. Em poucos minutos, o criminoso levou o celular e uma quantia em dinheiro de Cristina, e deixou com ela o trauma da violência que durou dias. 

    Sequelas emocionais

    Vítimas de assalto podem apresentar sintomas de transtorno de estresse pós-traumático
    Vítimas de assalto podem apresentar sintomas de transtorno de estresse pós-traumático | Foto: Leonardo Mota

    A psicóloga Shyrllene Soares, explica que pessoas que vivem um episódio violento como um roubo podem ficar com fortes traumas emocionais.

    “Um roubo é traumatizante porque você não está esperando. Esse inesperado te coloca em risco e você não sabe o que pode acontecer. Pensamentos rápidos e catastróficos passam pela sua cabeça: ele vai me matar, vou levar um tiro, uma facada, serei agredido. São emoções negativas e intensas que acontecem em questão de segundos”, diz Shyrllene.

    Em alguns casos, a vítima pode desenvolver o chamado transtorno do estresse pós-traumático, um distúrbio de ansiedade que é desencadeado por um acontecimento assustador. Alto nível de ansiedade, irritabilidade, medo, insegurança, sensação de perigo constante, hipervigilância e isolamento são alguns dos sintomas desse quadro, de acordo com a psicóloga.

    “A pessoa que viveu uma experiência negativa vai ficar em estado de alerta e com sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. Isso é muito prejudicial porque ela não consegue se conectar ou concentrar em outras coisas. Ela vive em estado de pânico e esse pânico interfere no trabalho e nas relações familiares. A pessoa fica num estado emocional muito alterado”, completa Shyrllene.

    No caso de Cristina, o choque do assalto só foi passar semanas após o ocorrido. “Foi uma sensação ruim demais. Fiquei triste e trêmula por dias. Tinha dores de cabeça ao lembrar. Eu ia trabalhar e meus clientes notavam como eu estava abatida, perguntavam o que tinha acontecido. Foi o apoio das pessoas ao meu redor que me ajudou. Elas conversaram comigo, me ouviram, me consolaram. Só então comecei a me acalmar e superar”, relembra a esteticista. 

    Alguns casos de trauma pós-assalto, no entanto, exigem intervenção médica. Caso a vítima de roubo perceba que está vivendo um quadro intenso de ansiedade por conta da violência sofrida, ela deve procurar ajuda profissional. “É preciso trabalhar essa problemática que o trauma trouxe. Dependendo do caso, pode ser necessária a entrada de uma medicação para diminuir a ansiedade. O estresse pós-traumático não é algo simples nem deve ser desconsiderado. Se a pessoa estiver sofrendo, ela deve buscar ajuda para poder resgatar a qualidade de vida”, orienta a psicóloga Shyrllene.

    Prevenção 

    Não usar joias, nem carregar altas quantias de dinheiro, andar em grupo e ficar atento são recomendações básicas de segurança
    Não usar joias, nem carregar altas quantias de dinheiro, andar em grupo e ficar atento são recomendações básicas de segurança | Foto: Leonardo Mota

    Em Manaus, mais de 21,4 mil transeuntes foram vítimas de roubo entre janeiro e agosto de 2019. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), que também registrou 663 roubos a residências durante o mesmo período. Só no primeiro semestre do ano, houve mais de 1,1 mil casos de roubos a estabelecimentos comerciais na capital.

    Para o especialista em segurança Walter Cruz, são os cuidados básicos que podem evitar com que alguém passe por um episódio de roubo ou furto.

    “Para se resguardar, é importante que a pessoa evite andar na rua com joias e objetos de valor, assim como grandes volumes de dinheiro. Dê preferência ao uso de cartões. É complicado para quem estuda, trabalha e depende de transporte público, mas evitar circular em determinados horários também é essencial”, recomenda Walter.

    Outra orientação importante é andar em grupo e ter sempre o contato de pessoas que possam auxiliá-lo em caso de necessidade, seja um parente, amigo ou mesmo um policial. Criar redes de apoio e vigilância, como grupos de WhatsApp da vizinhança, também são uma estratégia de defesa, de acordo com Walter.

    “A tecnologia deve estar voltada para a prevenção”, afirma o especialista ao citar botões de pânico presentes em smartphones. Um exemplo é o aplicativo ‘Aviso Polícia’, da Polícia Militar, onde o cidadão aciona um botão e emite um chamado direto para o Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). “Em casa, deve-se investir em segurança eletrônica, se possível. Criar bloqueadores nas janelas e portas da residência”, acrescenta Walter. 

    Caso a pessoa esteja vivendo ou presenciando um roubo, é de suma importância nunca reagir. “Em momento algum a vítima deve reagir, falar ou agredir física ou verbalmente o assaltante. Não dê condições para que ele aumente a violência contra você”, explica Walter.

    O especialista ressalta que se notar qualquer movimentação estranha, dê um jeito de comunicar rapidamente à polícia. “Após um roubo, é comum as pessoas ficarem traumatizadas e mudarem a sua rotina. Eu indico a mudança de hábitos, assim como a pessoa ficar mais atenta a seu redor. A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, mas é sempre possível".