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    LGBTFOBIA


    'Preferiam a minha morte': a dor de LGBT's expulsos de casa, em Manaus

    Em um ano e meio, a Casa Miga, abrigo para LGBTS, abrigou 52 jovens em Manaus

    O abandono e o preconceito são realidade na vida de LGBT's | Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

    Manaus - A frase no título da matéria é só mais uma das palavras pesadas já ouvidas por LGBTQ's, em sua maioria jovens. Eles e elas que, desde cedo, sofrem preconceitos, apanham e até são expulsos de casa por conta da sexualidade ou identidade de gênero. Na maior cidade do País, São Paulo, 8,9% da população em situação de rua é LGBTQ. A pesquisa é da Secretaria de Assistência e desenvolvimento Social de São Paulo. Em Manaus, a Casa Miga, um abrigo para LGBTQ's na cidade, já recebeu 52 deles em apenas um ano e meio de inauguração.

    Ana Lilian, de 21 anos, é uma dessas jovens que foi expulsa de casa e chegou a morar na Casa Miga. "Meu maior medo sempre foi ser agredida pela minha própria família. Sou bissexual e até ano passado, minha família não sabia da minha sexualidade. Tudo começou quando alguém contou para eles", conta a jovem, com a voz embargada. 

    Ela continua. "Acho que quase todo LGBT sabe como é crescer numa família homofóbica, racista e tradicionalista. É muito complicado falar disso porque desde criança nós somos obrigados a esconder quem realmente somos, porque não sabemos como a família vai agir. A gente tenta ao máximo esconder esse nosso lado". 

    Ana Lilian
    Ana Lilian | Foto: David martins

    Quando a família de Ana descobriu sua sexualidade, a reação da mãe dela foi dizer "você  vai embora de casa". E assim Ana arrumou suas coisas e saiu pela porta. "Eu já sabia que isso aconteceria em algum momento. E eu tinha muito medo de apanhar e não queria ter essa memória de dor, então eu só saí", conta ela.

    Assim que saiu, Ana foi para a casa de amigos, mas logo em seguida soube da Casa Miga. "Cheguei lá e fui muito bem recebida por eles. Fizeram uma triagem e já fiquei por lá. Além disso, consegui ajuda financeira com alguns amigos que fizeram uma 'vakinha'. Com ela, eu me sustentei por dois meses, ainda", lembra Ana, que também conseguiu um trabalho num bar e foi como se sustentou.

    Para ela, a principal dor era a saudade da família. "Eu tentei muito não pensar na minha família, então eu me ocupava muito. Mas a noite quando eu deitava na cama, tinha vontade de falar com a minha avó, o meu avô. E eu amo muito eles, principalmente minha avó que foi quem me criou", conta.

    Ana Lilian
    Ana Lilian | Foto: David martins

    Ana ficou 10 meses fora de casa. Somente em fevereiro deste ano voltou a falar com a família. Ano novo, Natal e outras comemorações longe dos pais e avós. "Mês passado minha prima me ligou e disse que a minha mãe queria falar comigo. Me ajudar. Então eu me encontrei com ela e almoçamos juntos", lembra Ana. 

    Quando ela viu a mãe, um silêncio reinou entre as duas e os olhos delas ficaram cheios de lágrimas. "Ela perguntou se estava tudo bem ela me abraçar e eu disse que sim". Depois desse dia eu voltei pra casa. 

    Sozinha no mundo

    Quase metade dos LGBT já pensou em suicídio
    Quase metade dos LGBT já pensou em suicídio | Foto: Arquivo Agência Brasil

    A paraense Maia Bradshaw, de 26 anos, conheceu a solidão do mundo muito cedo. Ela também mora na Casa Miga. "Eu fui expulsa de casa várias vezes. Não exclusivamente por ser quem eu sou, mas porque minha mãe e eu brigávamos muito. Até antes de eu sair de vez,  havia me assumido como um homem gay. Já fora de casa, eu me assumi a mulher que sempre fui", conta Maia.

    Ela diz que quando saiu de casa a última vez, foi porque a mãe queria recomeçar a vida sem ela. "Ela estava com um novo marido e disse pra eu voltar para o Pará, mas ninguém me aceitaria lá, principalmente minha identidade de gênero. Então eu construí minha vida aqui em Manaus. Passei muita coisa na casa dos outros. Consegui um trabalho e morava alugado, mas meu contrato acabou e fiquei sem ter pra onde ir. Então cheguei até a Casa Miga". 

    Maia diz que as piores palavras que já ouviu dos familiares foram "tenho vergonha do que você se tornou" e a pergunta clássica que os pais fazem "onde foi que eu errei". O sonho dela é ter um trabalho em que ela não precise usar o próprio corpo para sobreviver. 

    O preconceito dentro de casa

    Uma pesquisa da University College Cork, na Irlanda, apontou que 40% dos homossexuais adolescentes já pensaram em suicídio. Os dados foram obtidos por meio da análise de dados com entrevistados no pais irlandês. No caso dos bissexuais, 46% deles já tiveram pensamentos suicidas. O relatório ouviu 15.624 LGBT's. 

    Eliseu Neto é psicólogo, professor universitário e consultor da Unesco. Mas o especialista é mais conhecido por ter sido responsável pela criminalização da LGBTfobia no Brasil. "Eu sempre falo que uma escola é um ambiente muito preconceituoso. Se um garoto negro sofre racismo lá, quando vai pra casa, ele fala com os pais negros e é entendido. Mas e um gay ou trans sofre preconceito na rua, quando chega em casa as vezes ainda é atacado de novo", explica o psicólogo. 

    Ele conta que teve um paciente que morava em um abrigo católico em São Paulo (SP). Os responsáveis pelo local tentavam 'curar' o rapaz que morava lá. "É muito grave quando esse ou essa LGBT está numa família preconceituosa, porque vira uma intolerância grande. Não atoa 8% da população que vive na rua em São Paulo é LGBT", conta o psicólogo.

    Eliseu diz que também não é fácil para os pais. "Os pais querem fazer o bem para os seus filhos só que muitas vezes o preconceito faz com que eles achem que o melhor é convencer o filho como se fosse uma opção sexual, uma mania ou uma fase. Os pais não têm tempo ou preparação para ser pais, né, é muito difícil ser pai. E muitas vezes tem crenças religiosas e morais que atrapalham". 

    O psicólogo explica que o trabalho dele e de outros profissionais de psicologia é ajudar os pais a entenderem que a sexualidade é imutável. "É parte do seu filho e da sua filha. A melhor maneira de combater o preconceito é ajudar seu filho ou filha a se aceitar, pra se fortalecer contra o que vai sofrer", finaliza o especialista.