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    PANDEMIA


    Manaus vai dobrar mortes por Covid-19 na próxima semana, mostra estudo

    A capital do Amazonas é citada em estudo de cientistas das Universidades de Brasília e de São Paulo e recebe previsão para mortos e infectados para os próximos seis dias.

    O número de enterros  diários triplicaram e em alguns dias, chegaram a quadruplicar
    O número de enterros diários triplicaram e em alguns dias, chegaram a quadruplicar | Foto: Ricardo Oliveira

    Manaus - Até o dia 6 de maio, Manaus terá cerca de 544 mortes por coronavírus e outros 4.489 infectados. É o que aponta um estudo de autoria de cientistas e pesquisadores da Universidade de Brasília (UNB) e Universidade de São Paulo (USP). A capital do Amazonas já é uma das cidades mais atingidas pelo novo coronavírus, com um total de 3.273 casos e 312 mortes pela doença, até esta quinta-feira (30), segundo o Governo do Estado.

    Para o Brasil, o estudo vai um pouco mais longe e aponta que até 8 de maio, haverá 139.556 infectados por coronavírus. Óbitos, serão 10.711, o dobro de mortes na China em todo o período da pandemia. Até esta quinta-feira (29), o Brasil estava com 85.380 casos de Covid-19, com um total de 5.901 óbitos pela doença, segundo dados do Ministério da Saúde.

    O Ministério da Saúde e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) já informaram, mais de uma vez, que os números reais são maiores, dada a falta de testes, o que gera a subnotificação (pessoas fora da estatística).

    Previsão anterior

    O novo estudo foi publicado no Portal Covid-19 Brasil, que reúne informações sobre a doença, assim como estatísticas e previsões embasadas nos números. Os mesmos cientistas já haviam demonstrado que, até 11 de abril, havia 39.329 casos de Covid-19 no Amazonas, diferente dos 1.050 apontados pelo Governo, na data, como noticiou o EM TEMPO.

    Como o estudo foi feito

    A nova pesquisa, em formato de previsão, aponta a quantidade de mortes por Covid-19 até o dia 6 de maio através de modelo matemático exponencial. Na prática, os pesquisadores observaram que como os novos casos de coronavírus crescem todos os dias, se eles olhassem para o que faz esse dado aumentar, poderiam prever novos infectados.

    E o que faz o número de casos de Covid-19 aumentar, segundo os cientistas, é a falta de distanciamento social, de cuidados com a higiene e a probabilidade do Brasil ainda não ter alcançado o pico da doença.

    "Se sabemos o fator de crescimento dos casos de um dia para o outro, podemos utilizar esse fator para construir predições a cerca do tempo futuro, considerando a não interferência de fatores externos", ressalta o texto que explica o estudo.

    A necrópole Manaus, onde mortos já são empilhados

    No meio da floresta amazônica, a cidade que era conhecida por seu passado majestoso na Era da Borracha ou mesmo pelo grande Teatro Amazonas, tem agora na sua história uma mancha da qual não vai poder se orgulhar. O grande número de mortos e infectados pelo novo coronavírus.

    Manaus foi chamada de 'Necrópole' pelo Jornal do Commercio em 1919, quando viveu a pandemia de Influenza. O termo é a junção das palavras 'metrópole' e 'necrotério'. Mais de cem anos depois, a Covid-19 faz a cidade bater recordes de mortes diárias e retomar mais uma vez o apelido mórbido.

    Na última segunda-feira (27), por falta de espaço, corpos foram enterrados em sistema de empilhamento no Cemitério Nossa Senhora de Aparecida, no bairro Tarumã (Zona Oeste de Manaus). A notícia correu jornais de circulação nacional, como Folha de São Paulo e O Globo.

    Prefeitura teme falta de espaço nos cemitérios públicos
    Prefeitura teme falta de espaço nos cemitérios públicos | Foto: Lucas Silva

    Pela má repercussão, no dia seguinte, a Prefeitura decidiu suspender os enterros de caixões empilhados. No entanto, ainda há o medo de que falte espaço e até mesmo os próprios caixões para as próximas vítimas.

    Só na quarta-feira (29), Manaus havia enterrado 123 pessoas em cemitérios públicos, segundo a Prefeitura. O dado é da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), que gerencia os espaços.

    Em duas semanas, o número de sepultamentos nos cemitérios públicos da capital do Amazonas triplicou, conforme os dados divulgados pela Prefeitura de Manaus. O comparativo considera, por exemplo, os 39 enterros realizados no dia 9 de abril, enquanto que, no último sábado (25), foram 102 registros, um aumento de quase 300% em 16 dias. Nesse período, são mais de 1,5 mil registros.

     De 9 a 25 de abril, o número de sepultamentos em Manaus triplicou. Enquanto na primeira data, foram registrados 39 enterros, na última, o número explodiu para 102. Com um aumento de quase 300% em duas semanas, a Prefeitura firmou parceria com um crematório para ser uma opção para as famílias das vítimas que falecerem agora em diante.

    Enterros que aconteciam apenas durante o dia, agora já se estendem para a noite
    Enterros que aconteciam apenas durante o dia, agora já se estendem para a noite | Foto: Lucas Silva

    A Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif) avalia que Manaus pode passar a ter que enterrar corpos em sacos plásticos, caso haja colapso no sistema funerário da cidade. Uma matéria do EM TEMPO aprofundou a fala da associação com outras fontes do setor fúnebre.

    Para esta reportagem, a Prefeitura foi questionada se possui uma previsão de mortes por Covid-19 para os próximos dias; quais serão as alternativas caso os caixões comecem a faltar; e se haverá possibilidade de enterros em sacos plásticos. No entanto, não houve retorno até o fechamento desta matéria.

    A exceção em uma realidade dolorosa

    Muitas pessoas já vivem a realidade de precisar enterrar familiares em valas comuns, em Manaus. O cemitério Nossa Senhora de Aparecida, no Tarumã, já funciona até mesmo a noite, devido o alto número de mortes. Mas, na contramão da grande realidade dolorosa de enterros pouco humanizados, há ainda relatos que hoje já são exceção.

    O estudante Jhonatas Souza, de 22 anos, acompanhou de perto a luta pela vida do tio dele, um idoso de 71 anos. O senhor de idade deu entrada em um Serviço de Pronto Atendimento (SPA) na Zona Sul de Manaus, com sintomas de Covid-19, no  dia 21 de abril. No entanto, morreu sem poder realizar o teste, porque a unidade de saúde disse que estava em falta.

    "Foi horrível. Meu tio faleceu as 2h da manhã de quarta-feira e só pôde ser enterrado às 15h da tarde. Quando minha família foi ao hospital buscar o corpo, não conseguiu mais vê-lo. Ele foi de lá para a funerária. Questionamos se o corpo era realmente do meu tio, mas só tivemos a confirmação do hospital, sem poder ver em nenhum momento", comenta o jovem.

    Mesmo de madrugada, ele conta que a funerária estava lotada e que havia muita gente na procura do serviço para enterrar um parente. 

    Prefeitura tem enterrado caixões em valas comuns, para preservar identidade das vítimas
    Prefeitura tem enterrado caixões em valas comuns, para preservar identidade das vítimas | Foto: Lucas Silva

    "Informaram para a minha família que meu tio só iria ser enterrado pq já tínhamos pagado o plano funerário da empresa, anos atrás, senão teríamos que agendar o enterro", diz Jhonatas.

    Até na hora de enterrar o corpo, eles tiveram ainda dificuldades. Só puderam participar da cerimônia  cinco familiares, e à distância. O caixão continuou fechado o tempo todo.

    "Tivemos um pouco mais de "facilidade" na hora de enterrar meu tio, porque usamos uma cova da família no cemitério São João Batista. Mas queriam que ele fosse enterrado nas covas coletivas abertas pela Prefeitura no cemitério Nossa Senhora Aparecida, no Tarumã", comenta o estudante.