Fonte: OpenWeather

    Especial Municípios


    História de Silves: cidade risonha do AM completa 355 anos

    Situada às margens do rio Urubu, o município é conhecido como a "cidade risonha". Carrega em sua cultura a aura ancestral de antigos povos indígenas

    A orla da cidade vista de cima da ilhota
    A orla da cidade vista de cima da ilhota | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    Amazonas - "Ilha de Saracá" para os mais antigos, ou "Cidade Risonha" como é conhecido o município de Silves, no Amazonas, é marcado na essência cultural, pela forte ancestralidade indígena e históricas batalhas travadas com os portugueses. Atualmente é uma pacata cidade ribeirinha na Amazônia. A cidade, a 333 km de Manaus, com quase 10 mil habitantes, completa nesta terça (23), 355 anos de  lendas, conquistas e ainda obstáculos a serem superados.

    Integrante da região metropolitana da capital, o acesso à principal cidade se dá pela rodovia AM-010. Após o percurso, os visitantes viajam de balsa até uma ilhota, onde está localizada a sede municipal da cidade.

    Na pequena localidade, destaca-se a prefeitura e a praça da Matriz. O local abriga o patrimônio histórico mais antigo do município, a igreja de Nossa Senhora da Conceição, e a conhecida orla silvense, ponto de encontro da cidade, um pitoresco recanto familiar, às margens do rio Urubu. 

    Para quem visita a sede municipal, o acesso se dá por balsas, lanchas e rabetas
    Para quem visita a sede municipal, o acesso se dá por balsas, lanchas e rabetas | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    Quem mora na cidade ilhada sobrevive com uma economia simples, com destaque para a agricultura familiar, em que se cultiva principalmente mandioca e tucumã. O comércio é efetivo em três ruas principais e muitas pessoas trabalham no serviço público. Nostalgicamente, todo filho adulto de Silves diz carregar lembranças de encontros e desencontros com pessoas de décadas atrás. Muitas delas com seus descendentes ainda permanentes na pequena e bucólica cidade do Amazonas. 

    Família para sempre

    “Quando chegava cinco da tarde, eu sempre estava na rua com os meus oito amigos da rua do Castelão. A gente se encontrava na mesma hora marcada e ficávamos até tarde, quando chegava a hora de voltar para casa. A cidade era tão calma que nossos pais ficavam sossegados. Se eu pudesse resumir minha infância, em uma palavra, seria maravilhosa”. São palavras da pedagoga Ruth de Souza Porfírio, de 33 anos, que viveu sua infância e juventude na cidade, morando na mesma rua, Avenida Castelo Branco.

    Quem mora na cidade ilhada sobrevive com uma economia simples e limitada
    Quem mora na cidade ilhada sobrevive com uma economia simples e limitada | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    Com o passar dos anos, os amigos partiram e foram construir a vida em outros lugares. Atualmente, residindo em Manaus,  Ruth , vez ou outra, se encontra com os amigos para renovar os laços de infância. 

    Ontem e hoje

    Ruth traz lembranças de quando morou na ilha. “Era mais feliz de se viver antes do que hoje, as relações eram mais profundas, havia uma pequena taxa de criminalidade na cidade".

    A pedagoga explica que os costumes tradicionais de família vigoravam em quase todo o lugar. "O rapaz, quando queria namorar as meninas, só beijava de selinho e ainda escondido, na quadra da escola. Ninguém era ousado para desobedecer. Quase não víamos ladrão ou drogas nas ruas", recorda.

    Quem chega às margens da cidade se depara com a praia grande e o jardim frontal, feito com hibiscos, papoulas e flores da região
    Quem chega às margens da cidade se depara com a praia grande e o jardim frontal, feito com hibiscos, papoulas e flores da região | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    Após 20 anos de moradia, a pedagoga conclui dizendo que não se enxerga mais habitando a cidade. “Após meus avós morrerem e meus pais se mudarem para a fazenda, decidi vir morar em Manaus. A urbanização mudou as coisas na cidade. Hoje, a taxa de crimes lá é alta demais para uma cidade pequena. Cresci na cidade em um tempo bom, mas não volta mais”.

    Cartão-postal

    Quem chega às margens da cidade se depara com a praia grande e o jardim frontal, feito com hibiscos, papoulas e flores da região. O local também abriga as casas mais antigas de Silves, ao lado de bares e restaurantes da pracinha.

    O obelisco da praça da Matriz é um dos principais pontos que chamam a atenção, por sua arquitetura centenária. Cores vibrantes compõe o cenário que formam, com a capela de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município, o cartão postal da cidade.

    Educação 

    Mais adentro da cidade, a única escola de Ensino Médio de Silves, é o colégio Humberto de Alencar Castelo Branco. O professor Rodolfo Guedes Libório, de 58 anos, trabalha na mesma escola em que estudou e fala sobre a evolução da localidade.

     O obelisco da praça da Matriz é um dos principais pontos a chamar a atenção com sua arquitetura centenária e cores vibrantes compondo a capela de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município.
    O obelisco da praça da Matriz é um dos principais pontos a chamar a atenção com sua arquitetura centenária e cores vibrantes compondo a capela de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município. | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    “Nos anos 1960, Silves era muito pobre, a ponto de não ter nem o luxo do querosene queimado, para iluminar a cidade. A nossa escola era da primeira série (do Ensino Fundamental) até a quarta. Depois que chegou da quinta até a oitava série e por último o Ensino Médio”, explica.

    Educação

    Naquele tempo, a maioria dos alunos moravam nas três ruas principais, sendo as Avenidas Coronel Garcia, Castelo Branco e Senador Álvaro Maia, conhecidas popularmente entre a molecada como as ruas de cima, do meio e de baixo. Os pais e os professores eram quem encabeçava a formação de valores e costumes nas crianças, Guedes explica, e que todos viviam em uma só linha de raciocínio.

    Município de Silves - Infográfico


    “Antes de sair da escola, os meninos tomavam a bênção dos mais velhos. Os pais atuavam em conjunto com os professores para manter a ordem. Todo mundo se cumprimentava na rua. Em casa, havia a hora de acordar, de ajudar nas tarefas de casa e de rezar antes de dormir. Até os festivais culturais da época eles faziam por conta própria”, destaca.


    O obelisco do Cristo Redentor
    O obelisco do Cristo Redentor | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    Apesar do crescimento da cidade não ser significativo nos últimos 50 anos, moradores relatam que questões sociais como saúde, educação, cidadania eram mais valorizados que atualmente. “Tive experiências que as crianças de hoje nem sonham em ter. Saí mais preparado de casa para enfrentar o mundo, por causa de tudo o que aprendi. Se você prepara bem o seu povo para o futuro, não vai ter prejuízos grandes para a sociedade. Infelizmente, isto está se perdendo aqui por falta de incentivo”, lamenta o professor.

    Cultura regional

    O bairro do Panorama, na parte mais alta da ilha, é um dos mais populares. Do local é avistada praticamente toda a cidade em uma paisagem natural e singular.

    No bairro do Mucajatuba há uma das maiores concentrações de plantação de mucajá, fruta típica do distrito. O biribá, o ingá, o cupuaçu, a pupunha e o cacau são outros exemplos de frutas encontrados na localidade.

    As festas que marcam a cidade acontecem em período sazonais do ano, sendo sete festividades oficiais do município.

    A festa de aniversário de Silves, ocorrida em 23 de janeiro, lembra sempre os marcos históricos do povo que descende, parte dos europeus, e parte das três grandes tribos indígenas que habitavam a região, a caboquinas, a bararurus e a guanavenas.

    As festividades de fim de ano iniciam no dia 31 de dezembro no clube oficial da cidade e terminam no dia 1º na praia
    As festividades de fim de ano iniciam no dia 31 de dezembro no clube oficial da cidade e terminam no dia 1º na praia | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    O Festival Folclórico, planejado sempre para a primeira quinzena de julho, junta as crendices indígenas e mescla com os costumes do homem branco. Os bois Estrelinha e o Caprichozinho são os bois-bumbá oficiais da cidade, que sempre levam a folia de todas as noites de festa, além das danças internacionais ensaiadas pela população.

    Procissões católicas também incluem o aspecto religioso das festividades regionais como a Festa do Divino e a de São Pedro, em que se separa 11 dias para rezar em gratidão e petições aos santos.

    A Festa do Saracá, principal evento de Silves, é conhecido como o festival de verão, onde há competições, concursos de misses, comidas típicas e muita diversão.

    Linha do tempo

    Originalmente encontrada pelos portugueses, na ordem das Mercês, com o intuito de conseguir mão de obra escrava, a “Ilha de Saracá”, nome batizado pelos indígenas em homenagem à formiga local, iniciou sua história deixando em média 700 nativos mortos e 400 escravizados após três anos de guerra sangrenta.

    O historiador silvense Vicente Neves, de 47 anos, sempre morou no município e retrata as principais narrativas. Em 1612, ele conta, os europeus chegaram ao rio Urubu, confluente do rio Amazonas, que banha a cidade. Os europeus construíram a primeira habitação não indígena no local, estabelecendo as fundações da primeira sede oficial do município.

    Confira o vídeo mostrando os principais pontos da sede do município:

    Leia também: Amazonas ainda tem 300 mil desempregados, diz secretário do trabalho

    “Como a capitania de São José, Manaus estava com um futuro promissor nas mãos. Era preciso mais braços para fazer o trabalho pesado, não suficiente apenas para os índios já colonizados até então. O frei Raimundo, da comarca das Mercês, vem com a missão de converter mais nativos para o império colono descobrindo, em 1653 a Ilha de Saracá, após uma expedição rio abaixo de onde estavam alocados”, frisa.

    Vislumbrada a Nova Silves, a cidade foi colonizada se tornando uma das fontes principais de recursos para a exploração portuguesa. A banha e os ovos de tartaruga e de peixe-boi, por exemplo, serviram como exportação de séculos para o usufruto das cidades europeias.

    Em 1850, Silves comemora os 100 anos de vilarejo pela missão Saracá, onde a primeira igreja é fundada na cidade. A chegada da família espanhola Garcia também marca a linha de abastecimento entre Manaus e Belém, naquela época, o porto mais perto entre as duas cidades.  Em1858 a vila é elevada à categoria de município.

    Casas de madeira reunidas atrás do obelisco do Cristo
    Casas de madeira reunidas atrás do obelisco do Cristo | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    “Muito dos antigos costumes ainda são guardados pela população como o uso da argila para a fabricação de vasilhas e artesanatos e a forte atividade agropecuária. Daí, o ecoturismo também floresceu arrecadando benefícios ecológicos e sustentáveis para a população e o meio ambiente”, explica Neves.

    Grande parte do que já se foi achado de relíquias históricas da cidade está no Museu Emílio Guedes, no Pará.

    Geografia

    Devido a falta de recurso para novas e mais completas pesquisas, o município conta com a iniciativa dos próprios moradores para perpetuar a história do distrito. Outro aspecto da cidade é a sua formação geográfica compondo o clima equatorial trazendo temperaturas quentes e dias úmidos.

    O distrito do município é formado por oito regiões sendo Silves, Anibá, Boa Esperança, Lago Canaçari, Costa de Cucuiari, Costa de Murumurutuba, Lago Canaçari e Rebujão.

    A geógrafa Maria Aparecida Viana Andradem, de 54 anos, explica que o período mais quente oficial é o mês de outubro, mas que, no dia a dia, não tem período certo para sentir o forte calor. “Em dezembro e parte de janeiro que é mais frio, por conta do inverno amazônico, mas o ano inteiro é mais quente que frio. Às vezes, fica até mais quente depois que chove”, frisa.

    O anfiteatro da cidade onde são realizadas as festividades
    O anfiteatro da cidade onde são realizadas as festividades | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves

    Ela diz que, por ser uma cidade pequena, o plantio é variado na tentativa de promover a circulação econômica regional, porém faltam mais investimentos por parte do poder público, além de mais auxílios à classe rural, o que torna o município com alto índice de pobreza.

     “Além de não ter uma infraestrutura de mercado para abrigar a agricultura, as oportunidades são poucas. Mesmo com o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam), capacitando os ribeirinhos, não há mercado de trabalho”, revela.

    Viana termina ressaltando que uma das vocações da cidade seria o turismo ecológico, aproveitando as belezas da região e o ambiente amazônico. “Nós aproveitamos até onde é possível. Sinto-me honrada de ainda ser professora, pois posso formar o futuro da minha cidade, ensinando muito sobre essa região. Acredito que estamos no começo de uma nova era", finaliza. 

    Leia mais

    Detran-AM inicia fiscalização do carnaval com reforço da Lei Seca

    'Se não pagar, nem o papa vai impedir greve', diz líder de rodoviários 

    Megaesquema de segurança é preparado para o julgamento de Lula

    • A orla da cidade vista de cima da ilhota | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • Quem chega às margens da cidade se depara com a praia grande e o jardim frontal, feito com hibiscos, papoulas e flores da região | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • Quem mora na cidade ilhada sobrevive com uma economia simples e limitada | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • O obelisco do Cristo Redentor | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • O obelisco da praça da Matriz é um dos principais pontos a chamar a atenção com sua arquitetura centenária e cores vibrantes compondo a capela de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município. | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • As festividades de fim de ano iniciam no dia 31 de dezembro no clube oficial da cidade e terminam no dia 1º na praia | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • Para quem visita a sede municipal, o acesso se dá por balsas, lanchas e rabetas | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • O anfiteatro da cidade onde são realizadas as festividades | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves
    • Casas de madeira reunidas atrás do obelisco do Cristo | Foto: Divulgação/Assessoria Prefeitura de Silves