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    Venda informal


    Hospital 28 de Agosto terá muro para impedir venda irregular de comida

    Susam quer inibir a feira improvisada no estacionamento. População que frequenta a unidade de saúde é a favor da prática comercial no local

    A feira improvisada conta com todo tipo de venda | Foto: MARCIO MELO

    Manaus - Salgados de trigo e macaxeira, tapiocas, x-caboquinho, pão com tucumã, banana cozida, açaí e até churrasco são fáceis de encontrar em uma feira improvisada no estacionamento de um dos principais hospitais de Manaus, o HPS 28 de Agosto, na Zona Centro-Sul. No local também funciona o Instituto da Mulher Dona Lindu. A maioria que ali busca pela alimentação "boa e barata" aprova a iniciativa, já a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) construirá um muro para inibir a prática comercial irregular.

    A maioria dos vendedores está há mais de 5 anos no local. Os profissionais autônomos contam que o "movimento" de clientes é bom, composto geralmente por acompanhantes de pacientes internados no hospital ou que buscam os setores de urgência e emergência da unidade. Na banca de churrasco, que é comandada pela família da vendedora Rosana Vieira, de 32 anos, o churrasco simples custa R$ 4, o completo R$ 8, e com refrigerante, sobe para R$ 10.

    O preço compensa, se comparado a outras banquinhas de churrasco espalhadas pela capital. Em alguns lugares, o churrasco simples custa R$ 5, e o churrasco completo acompanhado de arroz, macarrão, maionese e farofa, R$12.

    O preço dos churrascos compensa, se comparado a outras banquinhas espalhadas pela capital
    O preço dos churrascos compensa, se comparado a outras banquinhas espalhadas pela capital | Foto: MARCIO MELO


    Ajuda compartilhada

    Rosana conta que ela e a mãe vendem churrasco desde 2014 no 28 de Agosto, no canto da mureta externa do estacionamento, que dá para a avenida Mário Ypiranga.

    "A gente tá sempre aqui nesse cantinho, nunca fizemos mal para ninguém. Tem gente que reclama, mas a gente já tentou sair daqui e ir para o outro lado do estacionamento, porque tem um espaço que a gente pode ficar. Uma vez a gente foi na Sempab para conseguir os boxes do outro lado, mas ninguém quer ir e prefere ficar aqui", conta.

    A vendedora conta que o cuidado da banca é compartilhado: ela, o sobrinho, o esposo e a mãe trabalham  no local. A mãe prepara entre 100 e 150 churrascos diariamente, e na banca, todos se ajudam, porque, segundo eles, é daí que sai o sustento da família.

    "Churrasquinho aqui tem hora. A gente chega aqui 14h e sai entre 21h e 22h, e fica se revezando na hora de vir. A gente depende daqui, é daqui que sai o nosso sustento. Eu, por exemplo, estou desempregada há cinco anos, e estamos desde lá fazendo isso. Toda a família depende disso, então todo mundo tem que se ajudar", completa.

    Os consumidores aprovam a venda de alimentos no estacionamento das duas unidades de saúde
    Os consumidores aprovam a venda de alimentos no estacionamento das duas unidades de saúde | Foto: MARCIO MELO


    Sobrevivência

    A falta de dinheiro e de uma saída para garantir o ganha-pão da família também foi o que motivou Ângelo Márcio, de 41 anos, e sua esposa Maria Freitas, de 37 anos, a montarem uma banquinha de café-da-manhã e lanches no estacionamento do hospital. Márcio, como gosta de ser chamado, conta que foi um dos primeiros a chegar ao estacionamento, ainda em 2011, e está lá desde então.

    "Eu trabalhava como motorista de caminhão de sorvete, e trabalhei com isso por três anos. Quando o combustível foi subindo, não deu mais pra trabalhar com isso, então a gente resolveu vir pra cá", conta Márcio. Eles vem diariamente ao estacionamento do hospital entre 14h30 e 15h, e chegam a ficar até 22h vendendo.

    O porta-malas do carro dos dois comporta o fogão, e a proteção do compartimento serve de prateleira para os vasilhames com presunto, ovos e os demais temperos para a alimentação. 

    Três bancas de churrasco estão instaladas no local
    Três bancas de churrasco estão instaladas no local | Foto: MARCIO MELO


    Márcio e a esposa, que gosta de ser chamada de Leda, dizem que o movimento nessa época do mês é fraco, uma vez que a chuva acaba atrapalhando as vendas.

    "Fica um pouco fraco, mas há dias que é muito melhor. O movimento varia muito, então não tem um turno específico que a gente fature melhor. Dá para gente sobreviver e manter a família. Temos dois filhos e, graças a Deus, o pão nunca faltou", conta.

    Alternativa boa

    A presença dos ambulantes abre um leque de possibilidades para os acompanhantes e até mesmo funcionários do hospital. A vendedora Emília Oliveira, de 32 anos, conta que, por muitas vezes, médicos, enfermeiras e técnicas de enfermagem vêm às bancas para comer.

    "Não só eles, mas também pacientes e acompanhantes que vêm para consulta aqui no Instituto da Mulher e não possuem dinheiro pra comer. Às vezes, a paciente está internada, mas nem no hospital tem copo ou comida para o acompanhante. Então eles preferem descer para comer", afirma.

    Os acompanhantes e até pacientes preferem consumir os alimentos vendidos no estacionamento do que a dos hospitais
    Os acompanhantes e até pacientes preferem consumir os alimentos vendidos no estacionamento do que a dos hospitais | Foto: MARCIO MELO


    A dona de casa Ana Maria Alfaia, de 50 anos, é outra pessoa que prefere comer nas bancas do que comer dentro do hospital. Segundo ela, que está com um filho internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do 28 de Agosto, a comida oferecida aos acompanhantes é de péssima qualidade.

    "Eles fazem uma canja com gosto de nada, que é de péssima qualidade. É tão ruim que não dá nem para comer, e por isso eu venho comer aqui fora. A comida é mil vezes melhor e sustenta", salienta.

    O ajudante de pedreiro Bruno de Souza, de 30 anos, é outro que apoia os vendedores ambulantes. Ele vem de Itacoatiara, e está acompanhando a esposa e o enteado, que está internado na unidade de saúde.

    "Não me incomoda de forma nenhuma. Eu mesmo compro diversas vezes com eles e sei que estão apenas tentando tirar o seu sustento disso", completa.

    Do café ao almoço, os consumidores contam com uma gama de opções
    Do café ao almoço, os consumidores contam com uma gama de opções | Foto: MARCIO MELO


    Prática proibida e fiscalização

    Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comércio Informal (Semacc) informou que os ambulantes que atuam no entorno do hospital são irregulares e não possuem cadastro no órgão. A Semacc ainda informa que apresentou um projeto à direção do Hospital, que realocaria os ambulantes e desafogaria o estacionamento.

    "Ressaltamos que, mesmo com a realização de ações de fiscalização no local, infelizmente, eles acabam retornando".

    Também em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que as fiscalizações via Semacc acontecem com frequência a pedido da direção do Hospital, e foi além.

    "Para garantir a segurança dos usuários e coibir a comercialização de produtos no local, um muro está sendo construído no estacionamento do hospital e pronto-socorro".

    Edição: Bruna Souza

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