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    CRISE NA VENEZUELA


    Para sobreviverem, venezuelanos formados vivem de bicos em Manaus

    Médicos, engenheiros, ambientalista e até jornalistas trabalham como serventes, vendedores de trufas e cuidam de crianças para garantirem o sustento e ainda enviarem o que podem aos familiares na Venezuela

    Médica venezuelana, Isolina Del Valle, de 25 anos, faz bicos em Manaus com serviços gerais
    Médica venezuelana, Isolina Del Valle, de 25 anos, faz bicos em Manaus com serviços gerais | Foto: MARCIO MELO


    Manaus - Milhares de venezuelanos, altamente qualificados, migraram para o Brasil fugindo da fome e da crise política e econômica no país de origem. Eles deixaram de lado as famílias, os amigos, os cursos, os títulos e até as experiências de trabalho conquistada durante anos para viverem de bicos em Manaus.

    A médica venezuelana, Isolina Del Valle, de 25 anos, vive em Manaus há seis meses. Para sobreviver nesse tempo, ela realiza serviços gerais. Del Valle destaca que ganha mais com a nova formação em Manaus do que como médica  na Venezuela.

    O trabalho informal, na maioria dos casos, é a opção que os estrangeiros têm ao chegarem ao país
    O trabalho informal, na maioria dos casos, é a opção que os estrangeiros têm ao chegarem ao país | Foto: Marcely Gomes


    “Como médica, eu ganhava 5 mil bolívares por mês e com a diária de serviços eu ganho R$ 100 por dia. Hoje eu ganho três vezes mais do que eu ganhava no meu país. Mas quero muito poder conseguir um emprego na minha área, quero ajudar minha família que está na Venezuela. Inclusive, eu quero trazer minha irmã para morar aqui comigo”.

    A médica mora junto com o namorado, que também é venezuelano, no bairro Redenção, localizado na zona Centro-Oeste de Manaus. Ela conta que só resta saudade do pai que é policial, da mãe que é professora e da irmã que é estudante de administração. Mesmo ganhando pouco, a médica sempre está enviando ajuda financeira para eles. Para ela é desesperador o que eles estão passando na Venezuela, principalmente quando se trata dos serviços da saúde.

    Na Venezuela, Isalina ganhava R$ 5 mil bolívares por mês e em Manaus R$ 100 a diária dos serviços
    Na Venezuela, Isalina ganhava R$ 5 mil bolívares por mês e em Manaus R$ 100 a diária dos serviços | Foto: MARCIO MELO

    “Eu torço que melhore a situação no meu país e que troquem o atual presidente, pois  acredito que sem ele no poder a economia vai melhorar. Venezuela é rica, mas está mal administrada. Um médico trabalha da forma como ele pode com os pacientes, pois não há material ou medicamentos. Existem pessoas com doenças crônicas, só que o hospital não tem recurso e as pessoas morrem. O presidente diz que está tudo bem, só que o país não tem nada. Está uma miséria. Acho que todos os profissionais de saúde querem trabalhar no seu país, mas por conta da crise os profissionais estão fugindo”, diz.

    "Eu estou aqui para trabalhar e não tenho problema em qual profissão eu tenha que me adequar para sobreviver", relatou.

    De ambientalista a babá

    Milagros Saideyini, 35, nunca imaginou que o dom de cuidar de crianças seria seu instrumento para ganhar a vida no Brasil. Formada em licenciatura em gestão ambiental pela Universidade Bolivariana da Venezuela, a ambientalista já vendeu água e café em Roraima e agora cuida de um bebê em Manaus. 

    “Eu não pretendia ficar longe da minha família. Tenho um filho de 16 anos que mora com minha mãe. A saudade bate no peito, mas todo o recurso deste trabalho é enviado para o sustento deles. Tudo lá está difícil, sem comunicação, sem energia elétrica e até sem água", conta Milagros.

    A gestora ambiental tem vários cursos técnicos e experiências no currículo. “Eu estou aqui para trabalhar e não tenho problema onde quer que seja. Minha patroa diz que me apoia nas minhas decisões, caso surja uma oportunidade na minha área”.

    "O dinheiro é enviado para a família que está na Venezuela"

    O jornalista André Agostini vive na capital amazonense vendendo trufas e banana frita no terminal de ônibus
    O jornalista André Agostini vive na capital amazonense vendendo trufas e banana frita no terminal de ônibus | Foto: Marcely Gomes

    O jornalista André Agostini, formado pela Universidade Santa Maria, na Venezuela, está desde o ano passado em Manaus em busca de novas oportunidades. Ele tem uma filha na Venezuela e vive na capital amazonense vendendo trufas e banana frita. É fácil encontrar o profissional nos terminais de ônibus. O dinheiro, segundo ele, serve para ajudar a família que mora no país vizinho.

    “Na Venezuela, eu trabalhei em Instituições governamentais e em jornais, mas por conta da repressão do Governo de Maduro, eu saí de lá. Nós tínhamos esperança que Maduro fizesse diferente da gestão passada, mas não ocorreu. Então eu resolvi sair de lá, a instabilidade política e financeira está prejudicando todo o país", relata.

    André foi acolhido por uma família no bairro Nossa Senhora de Fátima 1 quando só tinha apenas R$ 1 no bolso. Os amazonenses deram-lhe um teto, comida e o tratam como um filho.

    Em busca de assistência médica para os filhos

    Lilyana Duran é engenheira de custos, seu esposo é engenheiro de gás, ambos moram os filhos em Manaus.
    Lilyana Duran é engenheira de custos, seu esposo é engenheiro de gás, ambos moram os filhos em Manaus. | Foto: Arquivo Pessoal

    Lilyana Duran é engenheira de custos, seu esposo é engenheiro de gás, ambos vivem em Manaus desde 2016. Ela está desempregada e mora em Manaus com dois filhos pequenos. Eles estão conseguindo se manter através do emprego do marido dela, que agora trabalha como garçom. 

    "Nós viemos morar em Manaus pela crise que está acontecendo no nosso país. O emprego que nós tínhamos na Venezuela não dava para cobrir as necessidades básicas de uma família. Tínhamos dificuldade de conseguir alimentos, remédios, produtos de higiene pessoal, entre outras coisas importantes. A grande insegurança também foi o motivo da nossa saída da Venezuela", diz Lilyana.

    Capacitação

    Aula de português gratuita para imigrantes são oferecidos na Chama Church
    Aula de português gratuita para imigrantes são oferecidos na Chama Church | Foto: Divulgação/Chama Church

    Isonilda, André, Milagros  e o casal de engenheiros estão fazendo curso de Português para imigrantes na igreja Chama Church. O objetivo é aprender o idioma e conseguir uma nova colocação no mercado de trabalho, porém na área deles.

    “Eu acho muito importante a iniciativa da igreja e está sendo muito importante para nós. Um dos nossos entraves é esse, falta de domínio do idioma", diz o jornalista André Agostini.

    Os cursos ocorrem gratuitamente na sede da Chama Church, situada na avenida Bispo Pedro Massa, núcleo 5, cidade Nova 2, zona Norte de Manaus. Mais informações no número: (92) 98404-5474.

    Perfil de venezuelanos

    Venezuelanos com nível superior vivem de bicos em Manaus
    Venezuelanos com nível superior vivem de bicos em Manaus | Foto: Marcely Gomes

    O perfil do fluxo migratório de venezuelanos que deixam seu país é amplamente variado, como demonstra um estudo da Polícia Federal baseado em uma amostra de três mil refugiados venezuelanos no Brasil, feito em 2017.

    Do total de 17,8 mil venezuelanos que migraram para o Brasil no ano passado, 1,9 mil (6,2%) são engenheiros e 862 (4,8%) são médicos. A mesma quantidade (4,8%) se declarou economista. Também há grande número de professores e funcionários da Aeronáutica venezuelana.

    OEA prevê 5 milhões de imigrantes venezuelanos em 2019

    A Organização dos Estados Americanos (OEA) prevê mais de 5 milhões de imigrantes da Venezuela em 2019, um fluxo migratório equiparado aos provocados por guerras como a da Síria e do Afeganistão, segundo relatório divulgado na última sexta-feira (8).

    Vinte anos após a chegada ao poder de Hugo Chávez, falecido em 2013, a Venezuela está mergulhada em uma crise econômica sem precedentes. A presidência de Nicolás Maduro é questionada pelo líder opositor Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino e reconhecido por mais de 50 países.

    Os imigrantes da Venezuela estão majoritariamente na Colômbia (1,2 milhão), Peru (700.000), Chile (265.800), Equador (250.000), Argentina (130.000) e Brasil (100.000).

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