Fonte: OpenWeather

    Interior do AM


    Esquecidos: moradores do Cacau Pirêra sofrem com pobreza no interior

    Falta de segurança, saneamento básico, infraestrutura, saúde e educação para crianças são alguns dos problemas encontrados na região

    Cacau Pirêra sofre consequências do descaso público
    Cacau Pirêra sofre consequências do descaso público | Foto: Leonardo Mota

    Cacau Pirêra (AM) – Falta de energia elétrica, segurança, investimentos na saúde e infraestrutura urbana são alguns dos problemas aliados à destinação de verbas inadequadas e consequências de escândalos políticos enfrentados pelos moradores do distrito de Cacau Pirêra, localizado à 18 quilômetros de Manaus e 23 quilômetros de Iranduba, município responsável pela sua administração pública e política.

    De acordo com a última pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Cacau Pirêra possui uma população aproximada de 11.019 habitantes. Atualmente sem dados oficiais, estima-se que esse número tenha dobrado, principalmente após a construção da ponte Phelippe Daou, popularmente conhecida como Ponte Rio Negro, que Iranduba à Manaus em menos de uma hora.

    Ao atravessar a ponte, a realidade dos problemas do Cacau Pirêra já pode ser percebida na falta de sinalização viárias e indicação ao distrito na rodovia AM-070, estrada que inicia os municípios de Iranduba e Manacapuru. A falta de asfaltamento na rua principal do distrito, a estrada Manoel Urbano e suas ruas adjacentes, mesmo com buracos apresentam melhores condições em relação a ruas de demais bairros mais afastados. 

    Cacau Pirêra virou uma vila sem qualquer infraestrutura para os moradores
    Cacau Pirêra virou uma vila sem qualquer infraestrutura para os moradores | Foto: Leonardo Mota

    O Portal EM TEMPO traçou um raio-x de Cacau Pirêra que está próximo a Manaus e esquecida pelo poder público municipal e estadual.

    Falta de asfaltamento e limpeza pública

    É possível sentir o odor nas ruas da cidade
    É possível sentir o odor nas ruas da cidade | Foto: Leonardo Mota

    As ruas dos bairros mais distantes como Nova Veneza e Cidade Nova sofrem com a falta de serviços básicos de drenagem superficial, confecção de sarjetas, meio-fio e ausência de asfaltamento são as  principais reclamações e dificuldades dos moradores, relatadas pelos moradores ao EM TEMPO. "Nós, moradores, precisamos de tudo aqui no Cacau Pirêra, desde asfaltamento nas ruas até a água para nosso dia a dia", destaca a aposentada Elza Souza. 

    O comerciante Moisés Viana, que mora há 30 anos no bairro de Cacau Pirêra, comenta que os problemas permanecem desde a sua chegada ao município e o principal problema é a infraestrutura. "Entra prefeito e sai prefeito e não existem muitas mudanças desde que cheguei para morar aqui. A minha rua é uma das melhores aqui no Cacau, existem muitos buracos, mas em comparação às ruas em bairros mais asfaltados ela está ótima", comenta o comerciante. 

    O comerciante Moisés Viana é morador do Cacau Pirêra há 30 anos e destaca a infraestrutura como principal problema
    O comerciante Moisés Viana é morador do Cacau Pirêra há 30 anos e destaca a infraestrutura como principal problema | Foto: Leonardo Mota

    "Estamos abandonados, um descaso com a sociedade"

    Moisés destaca também que a limpeza pública em seu bairro é precária e teve que iniciar por conta própria a construção de uma caixa de gordura na sua casa para não depositar resíduos na rua. "O recolhimento do lixo é realizado somente três vezes na semana. E assim, nós moradores, vamos dando nosso jeito por conta própria, fazemos interligações para vivermos bem", completa o morador. 

    Bairro Nova Veneza apresenta esgotos a céu aberto
    Bairro Nova Veneza apresenta esgotos a céu aberto | Foto: Leonardo Mota

    Ainda de acordo com os moradores do bairro, o serviço realizado pela Prefeitura ao colocar o barro nas ruas foi um serviço que gerou prejuízos à estrutura das residências. O porteiro Eduardo Souza, destaca que realizou reformas em sua casa para não ter prejuízos. "Construímos a nossa casa e quando a prefeitura passou para colocar o barro na rua, tivemos que levantar mais um piso para não danificar nossos móveis, pois quando chovia, o barro mais a água alagavam minha casa", destaca o morador. 

    Moradores do bairro Nova Veneza sofrem com a falta de infraestrutura
    Moradores do bairro Nova Veneza sofrem com a falta de infraestrutura | Foto: Leonardo Mota

    O feirante Antônio Pereira, de 62 anos, morador do bairro Cacau Pirêra destaca que as ruas do distrito estão todas esquecidas pelo poder público na infraestrutura, na falta de policiamento e na limpeza pública. "Não temos policiamento nas ruas. Os assaltos são diários e nada é feito. Fora que não tem asfalto nas ruas também. Estamos abandonados, um descaso com a sociedade", destaca o feirante.

    Morador diz que as ruas estão abandonados pelo poder público
    Morador diz que as ruas estão abandonados pelo poder público | Foto: Leonardo Mota

    Saúde

    O hospital Hilda Freire fica localizado no município de Iranduba, à 20 km do distrito de Cacau Pirêra. E tem à disposição dos moradores o auxílio de três Unidades Básicas de Saúde (UBS), que atendem por zonas de moradias em suas proximidades, por meio de cadastramentos realizados por agentes comunitários que realizam visitas mensalmente nos bairros.


    A UBS Valdenice Trindade de Souza atende moradores do bairro Nova Veneza e proximidades
    A UBS Valdenice Trindade de Souza atende moradores do bairro Nova Veneza e proximidades | Foto: Leonardo Mota

    As UBS que atendem ao Distrito de Cacau Pirêra funcionam em horário comercial, de segunda a sexta-feira de 7h às 11h e de 13h às 17h e prestam serviços de unidades básicas com médico e um enfermeiro, além dos programas federais integrados como o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf), que realiza atendimentos com psicólogo, nutricionista, educador físico, fonoaudiólogo e assistente social durante seis horas uma vez por semana, além de realização de exames como pré-natal e preventivo, visitas domiciliares e exames para vacinas e acompanhamento para hipertensos e diabéticos.  

    Para os moradores, a falta de medicamentos e a demora de atendimento nas unidades de saúde são os principais pontos negativos no atendimento à população. "O médico da minha filha pediu a realização de exames urgente e a marcação de consulta para levar os resultados, mas só tem vaga para daqui a dois meses. Mesmo em situações urgentes, temos que esperar", destaca uma moradora do bairro Nova Veneza, de 46 anos que prefere não se identificar. 

    UBS Vitória Maria Paz de Souza enfrenta condições precárias nas instalações
    UBS Vitória Maria Paz de Souza enfrenta condições precárias nas instalações | Foto: Leonardo Mota

    A Unidade Básica de Saúde Vitória Maria da Paz de Souza é a principal UBS no Cacau Pirêra. A UBS funciona em horário comercial para atendimento à população e 24 horas em serviço de emergências com uma equipe composta por um enfermeiro, um  técnico e um motorista da ambulância. A mudança ocorre devido a UBS ser a única com unidade móvel que atende o Cacau Pirêra. "Aqui conseguimos implantar uma unidade móvel que funciona para acidentes e todas as demandas que tivermos e que não tem como encaminharmos para o hospital em Iranduba", destaca a responsável. 

    Apesar de a UBS apresentar sala de fisioterapia, vacina e odontologia e estruturas para armazenamento de vacinas e equipes para acidentes graves, a estrutura da UBS apresenta problemas na estruturação de seu prédio que funciona há mais 23 anos. 

    Segundo uma moradora, que prefere não se identificar, o atendimento dos profissionais nas unidades básicas e os agentes comunitários de saúde são positivos para a população, mas a demora para a realização de exames e a falta de medicamentos são os principais pontos negativos das UBS.

    | Foto: Leonardo Mota

    De acordo com enfermeiro técnico da UBS Valdenice Trindade de Souza, Soloni Serafim, as UBS conseguem utilizar todos os medicamentos enviados pelos programas do governo federal no mês, porém os medicamentos são enviados proporcionalmente a quantidade habitantes na cidade, o que está sendo a principal dificuldade de controle para os servidores da saúde pública. "Alguns usuários da UBS não são residentes do Cacau Pirêra, mas sim agentes em trânsito, que não contabilizam recursos para recebermos equipamentos correspondentes a demanda que recebemos baseado em um quantitativo habitacional fora da realidade", destaca o responsável técnico. 

    Segurança pública

    Posto de Atendimento Integrado funciona de segunda a sexta-feira em horário comercial
    Posto de Atendimento Integrado funciona de segunda a sexta-feira em horário comercial | Foto: Leonardo Mota

    O distrito de Cacau Pirêra apresenta um Posto Policial Integrado, dividido entre polícia militar e polícia civil, funciona em horário comercial de 8h às 11h e de 13h às 17h de segunda à sexta-feira e apenas realiza serviços básicos a população, rondas nos bairros e prisões em flagrantes, durante o horário de funcionamento.

    De acordo com moradores dos bairros Nova Veneza, Cidade Nova e Cacau Pirêra, a ronda policial é realizada somente uma vez ao dia, em menos de cinco dias na semana.

    Educação

    A falta de infraestrutura no Cacau Pirêra também reflete na quantidade de escolas que prestam serviço de ensino no distrito. O município possui apenas uma escola de Ensino Infantil, a Unidade Municipal de Educação professora Maria do Socorro Macedo. Segundo a gestora da escola, Gisele Silva, a escola possui cerca de 500 alunos matriculados na faixa etária de 3 a 5 anos e aproximadamente 15 alunos que necessitam de auxilio especial. 

    Segundo a gestora da Unidade Municipal de Educação, Maria do Socorro Macedo, possui 500 alunos matriculados
    Segundo a gestora da Unidade Municipal de Educação, Maria do Socorro Macedo, possui 500 alunos matriculados | Foto: Leonardo Mota

    "A principal preocupação da escola é a inclusão social. Tenho alunos hiperativos, autistas e surdos. Nas turmas que tenho esses alunos, tem uma professora de apoio. Mas, especificamente no caso do aluno surdo, não existe professor com formação adequada que possa auxilia-lo no aprendizado do conteúdo escolar", destaca Gisele.

    A infraestrutura interna da escola atende todas as principais necessidades dos alunos: energia elétrica, água, merenda escolar e condução escolar para alunos que moram na Zona Rural do distrito atendem a demanda solicitada. Porém, a escola não conta com infraestrutura para atividades complementares e recreativas.

    A realidade para os estudantes do ensino médico é mais delicada na Escola Estadual Irmã Bruna, segundo a estudante, de 16 anos que prefere não se identificar, ela

    concluiu o ano letivo com muitas dificuldades."Às vezes não temos aulas devido a falta de professores. A infraestrutura da escola está ruim e às vezes não temos água para beber", destaca a estudante.

    De acordo com informações divulgadas oficialmente pelo Prefeitura de Iranduba, em fevereiro de 2019, o município ia reformar metade das escolas da rede pública municipal, pois pelo menos 95% delas estariam em péssimo estado de conservação. A Secretaria Municipal de Educação de Iranduba (Semei) iria reduzir os gastos como forma de viabilizar os investimentos necessários à restauração das unidades de ensino.

    Uma semana sem energia elétrica

    Após sete dias sem energia elétrica, devido uma falha no cabo subaquático, moradores do Cacau Pirêra sofrem com a falta de água, aulas canceladas e prejuízos de danos morais como perdas de alimentos e eletrodomésticos. Durante a semana sem energia elétrica, moradores fecharam a estrada que dá acesso ao município de Iranduba e realizaram diversos protestos em frente à Prefeitura de Iranduba e nos postos de atendimento da concessionária Amazonas Energia. 

    A Amazonas Energia informou que o problema de energia elétrica nos municípios de Iranduba e Manacapuru ocorreu devido após o rompimento de cabos subaquáticos isolados no leito do

    Rio Negro, responsáveis pela alimentação das linhas de 69 mil Volts. 

    Desvios de dinheiro e a falta de investimento

    Os vereadores de Iranduba Jakson Pinheiro (PMN) e Kelison Diev (PMDB) tiveram prisão preventiva decretada na operação Avaritia
    Os vereadores de Iranduba Jakson Pinheiro (PMN) e Kelison Diev (PMDB) tiveram prisão preventiva decretada na operação Avaritia | Foto: Reprodução

    Enquanto a população do município de Cacau Pirêra enfrenta dificuldades, moradores de Iranduba tem sido palco de escândalos políticos e alvo de operações realizadas pela Polícia Federal no Amazonas (PF-AM) e do Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM).

    Na última quinta-feira (8), os vereadores do município, Jakson Pinheiro (PMN) e Kelison Diev (PMDB) tiveram prisão preventiva decretada na

    operação Avaritia,deflagrada pelo MP-AM. Os vereadores são suspeitos de participarem de uma organização criminosa que praticava cobrança de propina para aprovação de projetos de Lei na Câmara Municipal de Iranduba.

    No histórico de escândalos políticos envolvendo duas operações realizadas constaram irregularidades em licitações e desvio de verbas públicas. A primeira operação Cauxi, realizada em 2015 pelo MP-AM, que teve o ex-prefeito Xinaik Silva Medeiros, preso pela Polícia Civil devido esquema de desvio de dinheiro e fraude em licitações da Prefeitura em um montante de R$ 56 milhões de desvios de recursos municipais e estaduais. A operação envolveu também a irmã do ex-prefeito e ex-secretária do Fundo Municipal de Saúde, Nádia Medeiros; o ex-secretário de Finanças David Queiroz e o ex-secretário de Infraestrutura André Maciel. Em 2017, Xinaix Medeiros teve as contas reprovadas pelo Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM) e foi condenado a devolver R$ 19 milhões aos cofres públicos referentes aos gastos não comprovados. 

    Também em 2015, a operação Dízimo, deflagrada pela PF-AM prendeu sete suspeitos por desvios dos contratos federais do município, entre eles vereadores, secretários, funcionários públicos e empresários, além do então secretário de Finanças da cidade, David Queiroz e o ex-presidente da CGL, Edu Côrrea, também presos na operação Cauxi. A operação teve foco a fraude em licitações e contratos federais do transporte escolar, nas UBS, na perfuração de poços artesianos e suspeitas de desvios de ajudas humanitárias enviadas pela União às famílias atingidas pela cheia dos rios. Os prejuízos tiveram um montante de R$ 52 milhões bloqueados pela Justiça Federal. 

    O esquema alvo das operações funcionava com o pagamento de um dizimo proporcional, em até 30%, ao valor do contrato que seriam aprovados. As operações também chegaram a apurar um grupo de 11 dos 13 vereadores de Iranduba beneficiados pelo pagamento de propina de R$ 10 mil a cada parlamentar para servir como recompensa em troca de silêncio pelo esquema de desvios de verbas públicas e fraudes em licitações. 

    As irregularidades na gestão pública e infrações permaneceram na gestão posterior. O então prefeito Francisco Gomes, conhecido como Chico Doido, foi denunciado a Câmara de Iranduba por irregularidades por desvios de R$ 4 milhões Instituto de Previdência de Iranduba (Inprev), e também superfaturamento e irregularidades no contrato de empresas para o transporte escolar que estavam sendo realizados sem processo licitatório. As irregularidades foram denunciadas à Câmara Municipal de Iranduba entre 2017 e 2018. Chico Doido foi absolvido nas denúncias pela Câmera de vereadores de Iranduba e continuou com o mandato de prefeito no município.