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    Sobreviventes


    Escalpelamento: tragédia que envolve traumas e preconceitos

    Acidente é comum entre mulheres ribeirinhas que têm os cabelos arrancados por motores de barcos

    Suellen Soares, 28, sofreu o acidente no começo da adolescência. Hoje, busca viver a vida o máximo possível | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Quem ouve o riso de Kêmilly Neves, 13, nem imagina que a adolescente passou por um trágico acidente há mais de um ano. Kêmilly viajava com familiares em um barco próximo ao município de Boa Vista dos Ramos (município no interior do Amazonas, distante 271 km de Manaus) quando escorregou e teve o cabelo sugado pelo motor da embarcação. Ela perdeu parte do couro cabeludo, da orelha e o olho direito ficou sem movimento. Desde então, a jovem já passou por dez cirurgias reparadoras.

    O acidente que Kemilly sofreu chama-se escalpelamento e é comum nos rios amazônicos, principalmente no estado do Pará. Os acidentes ocorrem em barcos com motores de popa, as “rabetas”, quando os cabelos compridos de mulheres ou meninas se prendem ao eixo exposto dos motores. O couro cabeludo é arrancado de forma total ou parcial e outras partes do corpo são atingidas, como orelhas, sobrancelhas, rosto e pescoço. As consequências são graves deformações ou até a morte.

    De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde (Susam), em 2018 foram registrados três casos de escalpelamento no Amazonas, incluindo o de Kêmilly. Todas as vítimas são do sexo feminino e residentes do interior. As vítimas foram encaminhadas para tratamento médico e psicológico em Manaus.

    Mesmo após o acidente, Kêmilly mantém a alegria e o otimismo. A jovem adora desenhar e planejar estudar Artes.
    Mesmo após o acidente, Kêmilly mantém a alegria e o otimismo. A jovem adora desenhar e planejar estudar Artes. | Foto: Reprodução/Facebook

    “Tem pessoas que não gostam de ficar perto de mim, porque têm medo de pegar uma doença. Elas não sabem que sofri um acidente”, diz Kêmilly. O preconceito, no entanto, nunca tirou a alegria e o otimismo da adolescente.

    "A Kemilly é muito comunicativa, amorosa e carinhosa com os irmãos", diz a mãe, Íris Neves. A disposição da jovem surpreendeu até os médicos na época em que ela foi internada. "Ela procura falar com todas as pessoas que nos estenderam a mão no momento em que ela mas precisou", completa.

    O tratamento médico e psicológico de Kêmilly é contínuo: a cada seis meses, ela e a família saem de Parintins, onde vivem, para Manaus onde ela passa por novos procedimentos. A rotina é desafiadora e exige a ajuda especial de professores e familiares. Mas Kêmilly se mantém esperançosa. “Meus amigos me aceitam normalmente e meus professores me ajudam bastante. Gosto muito de desenhar, e ganhei uma bolsa para estudar desenho. O que eu quero é me concentrar nos meus estudos e no meu futuro", deseja. 

    Kemilly faz tratamento semestral em Manaus
    Kemilly faz tratamento semestral em Manaus | Foto: Reprodução/Facebook

    Superação

    Suellen Soares Batista, 28, tem uma história bem parecida com a de Kêmilly. Ela também tinha 12 anos e viajava em um barco com familiares para o município de Parintins quando sofreu o acidente que mudou sua vida para sempre.

    "Foi em 18 de agosto de 2004", lembra com exatidão. "Eu tinha um cabelo muito longo. Fui escovar os dentes e escorreguei perto da máquina. Perdi totalmente o couro cabeludo, um lado da orelha direita, um pedaço do nariz e fiquei com escoriações no corpo. Foram dias de muita angústia e tristeza", relata.

     

    Suellen perdeu o couro cabeludo e parte da orelha no acidente.
    Suellen perdeu o couro cabeludo e parte da orelha no acidente. | Foto: Lucas Silva

    Desde o acidente, há 15 anos, Suellen já passou por 32 cirurgias reparadoras. Ela continua a realizar tratamentos em São Paulo. "É por etapas, um processo delicado porque mexe com tecidos, pele e cartilagem. Leva tempo até o corpo se adaptar. Depois de um procedimento, é preciso esperar para ver o que vai acontecer. Uma vez por ano eu vou a São Paulo em busca de melhorar as sequelas que o acidente me deixou".

    Atualmente, Suellen faz faculdade de enfermagem, mas logo após o acidente, chegou a pensar que não sairia mais de casa. "Fiquei muito abalada, mas minha família sempre me deu bastante apoio. Não ia adiantar eu ficar triste. Dali para frente eu tinha que ficar firme e enfrentar a realidade. Sabia que ia passar por constrangimentos, iam me olhar de forma diferente por causa das cicatrizes", conta. 

    O preconceito é uma realidade enfrentada pela universitária, mas depois de tudo o que Suellen passou, os olhares estranhos são a última preocupação dela. "Isso não me afeta, hoje não me preocupo mais com isso. As pessoas podem pensar o que quiser. Só quem passou pelo que eu passei pode entender", afirma. 

     

    Suellen não se deixa abalar pelo preconceito
    Suellen não se deixa abalar pelo preconceito | Foto: Lucas Silva

    A estudante teve que amadurecer rápido para lidar com a situação, mas com o apoio dos familiares, pode seguir em frente.  "Sem eles, eu estaria em um estado de depressão. É muito difícil para uma criança enfrentar isso", declara.

    Suellen soube do caso de Kêmilly por uma reportagem no ano passado. Ela entrou em contato com a jovem para oferecer apoio e amizade.  "Eu me comovi porque passei pela mesma situação. Tudo o que ela e a mãe dela vivem, minha família e eu também vivemos.  Sei o tamanho do sofrimento, as dores emocionais por ser julgada e te olharem de outra forma. Ela é uma menina muito guerreira", afirma.

    Desamparo

    Apesar das histórias de superação de Kêmilly e Suellen, a vida para quem sofreu um escalpelamento é difícil. O tratamento médico é contínuo e os cuidados com a saúde devem ser redobrados. Medicamentos, curativos, procedimentos cirúrgicos e viagens para fazer tratamentos fazem parte da vida dessas mulheres.

    Além disso, as vítimas têm que lidar com o preconceito em relação à aparência e a condição especial de saúde, o que dificulta a inserção delas na escola e no mercado de trabalho.

    "Para quem sofre esse acidente é muito difícil trabalhar. O tecido na cabeça fica fino. Não pode ficar em ambientes com muito calor, por exemplo. Fora os tratamentos. Por mais que haja amparo social, sempre precisamos de recursos", desabafa. Suellen depende de benefícios como o Tratamento Fora de Domicílio (TFD) e de Prestação Continuada (BPC). Já Kêmilly espera a concessão do BPC desde fevereiro desse ano. 

    "Nossas famílias são humildes. A minha trabalha com agricultura. Precisamos de um amparo, e o governo deveria olhar para nós com carinho", pede Suellen.

    No Senado, tramita o projeto de lei 355/2018, de autoria do senador João Capiberibe, que sugere que o  Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) pague às vítimas de escalpelamento uma pensão de R$ 954 mensais, de forma vitalícia e intransferível.

    Legislação

    Para reduzir o número de acidentes do tipo, o dia 28 de agosto foi instituído como o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento. Em adição, a lei 11.970/2009 exige a “proteção do motor, eixo e quaisquer outras partes móveis das embarcações que possam gerar riscos à integridade física dos passageiros e da tripulação”. 

    De acordo com a Marinha do Brasil, desde 2009, estima-se que mais de 8 mil embarcações tenham instalado a proteção. Além disso, as embarcações maiores, que possuem motores de centro, também são fiscalizadas e os eixos de seus motores são protegidos, já que a maioria delas delas realiza o transporte de carga e passageiros.

    O Comando do 9º Distrito Naval, operante nos estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia, também realiza inspeções e palestras junto à população sobre a necessidade da proteção nos eixos dos motores para evitar acidentes.