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    Outubro Rosa


    Vídeo: com falta no interior, pacientes tratam câncer na capital

    "Tenha a certeza de que se pudesse não me afastar da minha cidade, eu jamais viria, mas infelizmente a gente tem que vir", diz Jan-Neves, de Coari

    Lar das Marias acolhe mulheres que não têm onde ficar em Manaus durante o tratamento contra o câncer. | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - A falta de assistência em saúde no interior do Amazonas ainda traz muito pacientes para a capital. Mulheres com câncer buscam abrigos e casas de acolhimento com o objetivo de dar continuidade ao tratamento. O Lar das Marias é um destes locais onde as interioranas encontram suporte para poder tratar-se em Manaus. 

    A casa que acolhe mulheres em tratamento de todos os tipos de câncer, tem hoje 23 mulheres hospedadas. Algumas de interiores como Tapauá, Manacapuru, São Gabriel da Cachoeira e Coari. Outras de outros estados, como Rondônia e Roraima, além de venezuelanas e indígenas. 

    Conceição Félix, psicóloga do Lar das Marias.
    Conceição Félix, psicóloga do Lar das Marias. | Foto: Leonardo Mota

    "A rede de saúde nos municípios é totalmente precária. A maioria das mulheres que chegam aqui estão com o grau muito avançado do câncer, isso faz com que elas tenham a possibilidade de cura muito mais distante", explica Conceição Félix, 38, que trabalha há quatro anos como psicóloga no Lar das Marias. 

    Mesmo colecionando histórias de vitória e superação, a psicóloga explica que se o sistema funcionasse de forma agradável e efetiva dentro dos municípios, oferecendo rastreamento preventivo e educação sexual, estas mulheres não teriam que passar por um câncer num grau tão avançado. 

    "Algumas vezes essas mulheres são provedoras,  deixam os filhos, as roças delas se perdem, tudo isso é motivo de muita preocupação para ela", explica Conceição. 

    Mãe e filha 

    Jan-Neves Ribeiro, 47, moradora no município de Coari, distante 362 quilômetros de Manaus, frequenta desde 2017 o Lar das Marias. Ela e a mãe, que tem 65 anos, precisam vir com frequência para a capital fazer tratamento para o carcinoma de células escamosas da pele, câncer causado por um crescimento descontrolado de células escamosas anormais. Ela e a mãe têm o mesmo tipo de câncer. 

    Receber o diagnóstico não foi fácil. "Eu fique sem chão, em momento algum aceitava a doença. Foi tão difícil que eu chego a lembrar e não acreditar que eu passei por isso", conta Jan-Neves. 

    Jan-Neves conhece bem a dor das mulheres que lutam contra o câncer.
    Jan-Neves conhece bem a dor das mulheres que lutam contra o câncer. | Foto: Leonardo Mota

    Somente no período de dezembro de 2013 a março de 2014, foram 32 bolsas de transfusão de sangue. "Eu passei momentos muito difíceis, em que muitas vezes eu prefiro apagar, porque é uma luta muito grande", relata. 

    Jan-Neves é "pai e mãe" de suas duas filhas de 12 e 19 anos. Ela é quem sustenta a casa, que comporta ainda sua mãe e quatro sobrinhos de 10, 13, 16 e 26. Eles foram a grande motivação para ela se manter firme e persistir até hoje. Sua vivência com o câncer é desde 1992, quando foi diagnosticada. 

    Os efeitos colaterais são a pior parte da luta. "Nosso psicológico não fica mais a mesma coisa, eu convivo com dores. A gente vai tendo alguns problemas com o passar dos dias, o corpo e a mente já não são a mesma coisa, eu esqueço das coisas, fiquei sem sono, sem paciência.... A gente vai se desgastando muito", diz. 

    Jan conta que quebrou financeiramente. Ela trabalhava em uma empresa aérea de Coari e há 14 anos atua como guarda municipal. Por causa da doença precisou abrir mão de um dos empregos e hoje conta com a renda de um salário mínimo. 

    "Eu entro em acordo com meu chefe, ele sabe do que aconteceu. Quando eu volto para a cidade, levo só os exames e mostro para ele anexar na minha pasta, faz tipo um relatório", compartilha. Quando está em Coari, recompensa o tempo perdido trabalhando aos sábados e domingos e cobrindo ausências de outras pessoas. 

    Como se não bastasse a luta contra a doença, esta mulher também precisa enfrentar barreiras burocráticas que só impedem o avanço de seu tratamento e de sua mãe. Como ela mesma diz, "Coari não tem estrutura".  Muitas vezes ela precisou  passar por situações que considerou humilhantes.

    "Você chega com o médico, conta o que está acontecendo e ele fica querendo encaminhamento, pede tanta coisa que não tem lógica. Você tem um cartão da Fundação CECON , tem um laudo médico que atesta que você faz aquele acompanhamento, e aí eu não sei que documento é esse que eles querem, que comprove mais do que o que já está ali", desabafa. 

    No dia da entrevista, Jan e sua mãe passaram por uma situação bem complicada. Foram na representação do município de Coari em Manaus e receberam a notícia de que sua mãe não teria direito à passagem de volta para a cidade. Como o médico da mãe de Jan está viajando, ela não pode ser atendida. Mesmo com atestado, a representação negou o benefício.

    Jan ficou revoltada com a situação e afirmou que se pudesse, jamais viria para Manaus, porque é muito doído deixar suas filhas na casa dos outros e passar por situações que nunca imaginou. "Se pudesse não me afastar da minha cidade, eu jamais viria, mas infelizmente a gente tem que vir". 

    O que lhe dá forças é a minha família . "Eles precisam de mim, minha mãe, minhas filhas, meus sobrinhos. Isso é o que me dá forças, é o que me faz continuar", contou. 

    "Fazer o que eu gosto é o que me dá forças" 

    A agricultora Rosilene da Costa, 38, de Lábrea , município situado a 851 quilômetros de Manaus, também precisou se deslocar por conta da falta de suporte . "A estrutura é ruim, não tem tratamento lá na minha cidade, a gente não faz tratamento de câncer. Na questão de saúde é tudo muito difícil", explica. 

    Ela conta que quando tem médico, faltam os aparelhos para realizar os exames, então as pessoas precisam sempre se deslocar para a capital. A mulher que é mãe de sete filhos, deixou seus pequenos aos cuidados da irmã para poder se tratar do câncer no colo do útero. Em Manaus, sua maior companhia é a filha mais velha. 

    "Quando eu recebi o diagnóstico fiquei muito abalada, fiquei pensativa, aí tive que passar a fazer mais as coisas que eu gostava, para eu ficar mais alegre e poder superar", disse. 

    Rosilene se apega às coisas que gosta de fazer para ficar mais feliz durante o tratamento.
    Rosilene se apega às coisas que gosta de fazer para ficar mais feliz durante o tratamento. | Foto: Leonardo Mota

    Seus primeiros sintomas foram hemorragias muito fortes, sua menstruação descontrolou, passou a vir de duas a três vezes no mês. "Pediram para eu fazer transvaginal. Eu fazia vários exames e não descobria o que era. Até que eu fiz um preventivo, descobri o câncer e fui encaminhada para vir para Manaus", relata. 

    Ela diz que foi muito difícil sair de casa e vir para Manaus. "Meus filhos todos são pequenos. Está sendo muito difícil porque eu tenho que deixar eles. Tem dias que eles vão para escola, tem dias que não, fica ruim para minha irmã deixar e buscar na escola, é muito complicado", relata a mãe.

    Mesmo com a dor do abandono, Rosilene usa o amor aos filhos para se manter firme. "O que me incentiva a fazer o tratamento são os meus filhos", compartilha.  Além  disso, ela também busca ocupar seu tempo fazendo coisas que a façam se sentir melhor, como comprar roupas e cuidar da vaidade. 

    No Lar das Marias ela encontrou uma verdadeira família. "Eu sinto que aqui é como se fosse a minha segunda casa. Se eu não tivesse filhos em casa eu não teria pressa para sair daqui, essas pessoas são como a minha família, eu amo a cidade de Manaus", conta.

    "Eu entrava no banheiro e chorava muito"

    A dona Maria Francisca Santos, 61, estava fazendo tratamento contra uma diarreia. O que parecia algo simples de se resolver, acabou pirando quando ela passou a ter cólicas e descobriu um tumor no ânus. 

    Francisca, que é moradora do município de Autazes, 99 quilômetros de Manaus, precisou vir para a capital amazonense a fim de obter um diagnóstico correto. "Lá (em Autazes) está devagar, não tem como fazer tratamento, tem que vir para cá", diz. Foi constatado que ela estava com câncer.

    Dona Francisca veio de Autazes realizar seu tratamento contra o câncer em Manaus.
    Dona Francisca veio de Autazes realizar seu tratamento contra o câncer em Manaus. | Foto: Leonardo Mota

    "No iniciou, eu fiquei um pouco nervosa. Eu entrava no banheiro e chorava muito. Vim embora para cá (Lar das Marias), aí melhorou mais um pouco, a gente conversa e esfria mais a cabeça", conta. 

    O que pesa mesmo, assim como para as outras mulheres, é a distância dos filhos. Duas das filhas de dona Francisca moram no Maranhão. Seu outro filho mora no município de Nova Olinda. Infelizmente eles não puderam deixar seus afazeres para acompanhá-la nesta jornada. Ela precisou pagar uma moça conhecida para estar com ela durante este processo. 

    Lar das Marias

    O Lar das Marias oferece para as pacientes e suas acompanhantes todo o suporte que precisam para manter a qualidade de vida durante o tratamento contra o câncer. São seis refeições diárias, além de serviços psicossociais, nutricionista, entre outros. 

    Lar das Marias tem tradição em acolher.
    Lar das Marias tem tradição em acolher. | Foto: Leonardo Mota

    Para que elas se distraiam um pouco, a casa sempre organiza idas a balneários, teatros e outras atividades, para que elas se sintam mais felizes. "Nosso objetivo é dar mais esperança para ela e temos conseguido com sucesso", diz a psicóloga Conceição Félix. 

    Câncer de mama no Amazonas

    A campanha Outubro Rosa visa sensibilizar as pessoas sobre a prevenção ao câncer de mama, que é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do de pele não melanoma. Existem vários tipos de câncer de mama. Alguns evoluem de forma rápida, outros, não. A maioria dos casos tem bom prognóstico.

    Câncer de mama ainda é o que mais comum entre mulheres.
    Câncer de mama ainda é o que mais comum entre mulheres. | Foto: Leonardo Mota

    Segundo projeção mais recente do  Instituto Nacional do Câncer (Inca), cerca de 420 novos casos de câncer de mama devem ser registrados no Amazonas, anualmente. Destes, são esperados 370 somente para a capital, Manaus, e 50 para o interior. 

    Para o Brasil, estimam-se 59, 7 mil casos novos de câncer de mama feminina para 2019, com um risco estimado de 56,33 casos a cada 100 mil mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, esse tipo de câncer é o primeiro mais frequente nas mulheres das Regiões Sul (73,07/100 mil), Sudeste (69,50/100 mil), Centro-Oeste (51,96/100 mil) e Nordeste (40,36/100 mil). Na Região Norte, é o segundo tumor mais incidente (19,21/100 mil). 

    Mortes por câncer de mama no Amazonas 

    Os dados mais recentes registrados pelo DATASUS, do Ministério da Saúde, divulgados em 2017, indicam que no Brasil ocorreram 16.724 mortes por câncer de mama feminino no Brasil em 2017, destas, 161 foram no Estado do Amazonas, sendo 139 mortes registradas na cidade de Manaus e 22 no interior. 

    Sistema público de saúde 

    Marília Muniz Cavalcante de Oliveira, que atua na Coordenação Estadual da Atenção Oncológica, explica que o tratamento secundário e terciário do câncer de mama é realizado na capital, pois, os Serviços de Diagnóstico de Mama (SDMs) do interior do Estado, ainda, estão em fase de habilitação no Ministério da Saúde.  

    Em 2018 foi aprovado um total de 31.945 Mamografias de Rastreamento (30.224 em Manaus e o restante no interior) e 952 Mamografias Diagnósticas (787 em Manaus e o restante no interior), somando 32.917 mamografias no ano. Houve uma diferença para menos de 8.513 mamografias em relação ao ano anterior, quando foram aprovadas 40.019 Mamografias de Rastreamento (38.741 em Manaus  e o restante no interior) e 1.411 Mamografias Diagnósticas (1.282 em Manaus  e o restante no interior), somando 41.430 no ano de 2017. 

    No ano de 2012, o Governo do Amazonas adquiriu mamógrafos para implantar em Unidades de Saúde do interior. Segundo a Secretaria Executiva Adjunta de Atenção Especializada ao Interior (SEA/Interior), 36 mamógrafos foram implantados e estão funcionando.

    Em 2018, a SEA Interior registrou 11.299 mamografias realizadas no interior do Estado. Importante lembrar que esses exames são laudados pelo Hospital Universitária Francisca Mendes por meio de empresa terceirizada. As imagens são enviadas através de CDs pelas Secretarias Municipais de Saúde e os laudos são devolvidos às mesmas para que as mulheres sejam orientadas de acordo com cada resultado.

    As mulheres que necessitam de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) são encaminhadas pelas Secretarias Municipais de Saúde do Interior para Manaus (capital) e suas consultas e exames, na maioria, são agendados através do Sistema de Regulação (SISREG). Diante da requisição, elas comparecem aos locais dos exames (clínicas conveniadas ao SUS) na data agendada e depois retornam com os especialistas para definir o tipo de tratamento (secundário e/ou terciário) e onde tratar (Unidade Secundária e/ou Terciária). Quando o resultado é positivo para câncer elas são encaminhadas para a Fundação CECON que é o hospital terciário referência para toda Amazônia Ocidental.

    Assista à reportagem da TV Em Tempo:

    Assista a reportagem | Autor: Patrícia de Paula / TV Em Tempo