Fonte: OpenWeather

    Insegurança


    A rota do medo: assaltos em ônibus de Manaus assustam usuários

    Usuários do transporte coletivo relataram o medo de não chegar a casa. Uma das linhas mais assaltadas é a 560

    Segundo pesquisa, a linha 560 é mais assaltada atualmente
    Segundo pesquisa, a linha 560 é mais assaltada atualmente | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - Entrar no ônibus e não saber se a viagem será tranquila é uma das preocupações de quem usa o transporte coletivo na cidade de Manaus. Assaltos constantes, caracterizados com violência, armas e humilhação dos passageiros fazem parte da rota do medo. Uma das mais temidas é a linha 560.

    De janeiro a outubro de 2019, segundo dados do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram), foram registrados 1.321 assaltos em ônibus do transporte coletivo.

    De acordo com enquete realizada pela reportagem do EM TEMPO, a linha mais citada pelos passageiros sobre assaltos em Manaus é a linha 560, seguida da 550 e 448. Todos os ônibus citados são ônibus articulados, tem capacidade para, em média, 120 passageiros, mas sabemos que a realidade da cidade é bem maior. Foram ouvidos 50 usuários do transporte coletivo.

    Os assaltantes aproveitam para roubar em ônibus com um número médio de pessoas.
    Os assaltantes aproveitam para roubar em ônibus com um número médio de pessoas. | Foto: Leonardo Mota

    Um dos motoristas da linha 560 relatou que, em três anos de profissão, foi assaltado 47 vezes. O último assalto sofrido pelo profissional do transporte coletivo aconteceu na quarta-feira (27). Os passageiros, motorista e cobrador foram rendidos por dois homens. Um estava portando uma arma e o outro uma faca. “Nós não temos como nos resguardar, só ficamos esperando a próxima vez que vamos ser assaltados.”, disse o motorista que preferiu não ser identificado.

    Na pele

    Não é difícil encontrar relatos de quem já passou na pele os minutos de terror dentro dos ônibus. As características são as mesmas, mais de dois assaltantes armados com facões, arma de fogo e de “caras” limpas.

    Todos agem com violência, abordam o motorista, geralmente com uma arma apontada com ameaças. Outros comparsas passam de assento em assento em busca de bolsas, carteiras, celulares, relógios e joias. Pedem silêncio e, qualquer movimento brusco, pode resultar em tiroteio e morte. Eles exigem ainda que todos baixem as cabeças e, caso algum passageiro descumpra a ordem, eles agem com violência, ameaçando a todos de morte.

    Os trabalhadores do transporte coletivo temem pela vida
    Os trabalhadores do transporte coletivo temem pela vida | Foto: Leonardo Mota

    Durante os assaltos, os criminosos obrigam o motorista a mudar de rota e os ônibus são levados para locais estratégicos para facilitar a fuga dos assaltantes. Os criminosos geralmente fogem em locais de mata ou de pouca movimentação, com a possibilidade ainda de outros comparsas estarem na espera para ajudar na fuga.

    A cobradora que não quis ser identificada teme pela própria vida, pois, diariamente, sabe do risco que corre diante da violência nos ônibus. “Eu tenho medo, mas preciso trabalhar. Todos os dias, contamos com a proteção divina porque nem sempre contamos com os homens da segurança” disse.

    A estudante Gabrielly Vaz, 20, conta que já foi vítima de seis assaltos e todos dentro de ônibus na cidade. Gabrielly já viveu momentos de terror com a ação de assaltantes. “Eu já perdi uns três celulares, eu nunca sei quando vou estar segura dentro dos ônibus. Os ônibus em que fui assaltada foram da linha 307, 315, 560. Hoje, eu tenho medo, mas não posso deixar de andar de ônibus. Nós precisamos de mais segurança.”

    A dona de casa Dirleia Corrêa, conta que foi assaltada duas vezes; destaca que a maioria das ações dos assaltantes acontece na Avenida Torquato Tapajós. “Onde mais acontece assaltos é na Torquato. Todas as vezes acontece isso. Eles fingem ser passageiros e anunciam o assalto nessa avenida, e a gente não vê policiamento. Depois de levarem nossas coisas,deixam o ônibus em uma área perigosa e de mata, com certeza os comparsas estão lá”.

    Os trabalhadores do transporte coletivo temem pela vida
    Os trabalhadores do transporte coletivo temem pela vida | Foto: Leonardo Mota

    Casos em Manaus

    Em junho de 2018, um caso chocou a população amazonense e revoltou os trabalhadores do transporte coletivo. O motorista identificado como Francisco Araújo da Silva, de 51 anos, foi baleado durante assalto na linha 450, na Avenida Max Teixeira, zona Norte de Manaus.

    Há informações de que um passageiro teria atirado em um dos bandidos. Nesse momento, um comparsa reagiu e atirou no motorista e fugiu para uma área de mata, nas proximidades de onde ocorreu o crime. Após ficarem sabendo da morte do motorista, em luto, alguns rodoviários de Manaus começaram a recolher a frota. Os ônibus recolhidos na noite do ocorrido são, na sua maioria, da empresa São Pedro. Cerca de 150 carros retornaram à garagem.

    Em outubro desde ano, mãe e filho foram baleados durante assalto na linha 560 em plena manhã, durante a viagem. Cinco assaltantes entraram armados, renderem passageiros, cobradora e motorista e ainda balearam de raspão uma mulher acompanhada de uma criança que ficou ferida com os estilhaços de vidro. No mesmo mês, durante a noite do dia 29, três ônibus, em diferentes zonas de Manaus, foram assaltados. Entre a lista estava a temida linha 560.

    Em novembro, um motorista da empresa Global Green foi esfaqueado durante um assalto na linha 059. O motorista não reagiu ao assalto, porém foi ferido com golpes de faca nos braços e costas.

    Embora a equipe policial faça ronda ostensiva diariamente nos terminais, os passageiros se sentem inseguros dentro dos ônibus
    Embora a equipe policial faça ronda ostensiva diariamente nos terminais, os passageiros se sentem inseguros dentro dos ônibus | Foto: Leonardo Mota

    Ações

    O Sinetram e a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) informaram que têm atuado visando coibir os assaltos em ônibus do transporte coletivo. A orientação é que, nesses casos, haja o registro do Boletim de Ocorrência, e as empresas forneçam as imagens das câmeras de segurança dos veículos, para que a polícia possa identificar e prender os criminosos.

    “Ressaltamos, ainda, que a implantação de tecnologias como dos cartões Passafácil, que substitui o pagamento em dinheiro ao cobrador, contribuem para reduzir esse tipo de crime. Neste ano, a Polícia Militar aumentou as abordagens da operação Catraca e já fiscalizou 20,4 mil ônibus coletivos. De janeiro a outubro, foram realizados 64 flagrantes, além de 14 Termos Circunstanciados de Ocorrências (TCOs). Além disso, foram apreendidas 264 armas de fogo.”, informou a assessoria.

    Dados

    Embora o número alarmante e preocupante, o Sinetram informou a redução de 34% com relação ao mesmo período do ano passado, com 2.000 ocorrências. A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas contabiliza a redução de 37% conforme informações do Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp). No ano de 2018, foram 2.109. Até o mês de outubro deste ano foram contabilizados 1.326.