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    OCUPAÇÃO DE CALÇADAS


    Ferro-velho à céu aberto: oficinas deixam sucatas nas ruas e calçadas

    Algumas melhores equipadas possuem galpões para guardar os carros que esperam conserto. Outros trabalhadores só tem a rua e a calçada para colocar esses veículos

    Latas-velhas criam o que lembra um cenário pós-apocalíptico nas calçadas
    Latas-velhas criam o que lembra um cenário pós-apocalíptico nas calçadas | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Ao circular por Manaus, é possível observar algumas oficinas de carros que, por inúmeros motivos, deixam veículos à espera de conserto nas calçadas e ruas. Mas há também aquelas carcaças de carros mais próximas do que conhecemos como ‘ferro-velho’. Inutilizáveis e enferrujadas, essas sucatas criam, o que parece ser um cenário pós-apocalíptico na cidade. Dentre os problemas estão a poluição do ambiente, ocupação irregular das calçadas e ruas, e possibilidade de proliferação de insetos transmissores de doenças, como o Aedes Aegypti. 

    Manaus, com seus pouco mais de 2 milhões de habitantes, é a sétima capital mais populosa do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como isso se reflete na mobilidade urbana? Serão um milhão de carros na cidade, até junho de 2020. A informação é do Departamento de Trânsito de Manaus (Detran-AM). 

    Quando esses veículos quebram, vão, claro, para oficinas. Algumas melhores equipadas possuem galpões para guardar os carros que esperam conserto. Outras só tem a rua e a calçada para colocar esses automóveis. 

    É o caso de uma oficina localizada na avenida Marquês de Silveira, próxima à esquina com a rua Codajás, no bairro Cachoeirinha. A via é passagem de linhas de ônibus, lotações e até caminhões. Em ida ao local, a reportagem conversou com os vizinhos da oficina, que preferiram não se identificar. 

    “Essa oficina já existe há mais de nove anos aí. Eles deixam os carros velhos na rua e na calçada. Outros vizinhos já reclamaram, e até uma vez chamaram a polícia, mas não mudou nada”, comenta uma moradora. 

    O esposo dela, que também não quis se identificar, disse que a situação já causou “pequenos” acidentes de trânsito. “As vezes estacionam os carros aí na rua, até os que estão aguardando conserto mesmo, e os ônibus passam e arrancam os retrovisores”, diz. 

    Na frente da oficina, mais de dez carros estacionados aguardam conserto. Outros, já visivelmente inutilizáveis e enferrujados, ajudam a criar o cenário pós-apocalíptico na rua. É o caso de uma Kombi azul, deixada na avenida Marquês da Silveira.

    Kombi azul velha ocupa espaço na avenida Marquês da Silveira, na Cachoeirinha
    Kombi azul velha ocupa espaço na avenida Marquês da Silveira, na Cachoeirinha | Foto: Lucas Silva

    Na mesma via, pedaços de carros se amontoam. Natureza e vida urbana se unem através dos cerca de sete para-choques de veículos que se escondem ao lado de pequenas árvore, na calçada. Os restos de veículos acumulam água da chuva e se mostram como o habitat perfeito de transmissores de doenças, como o mosquito Aedes Aegypti, que carrega o vírus da dengue e chikungunya.

    Uma moradora que reside próximo à mesma oficina diz que não se incomoda com os veículos velhos estacionados na via. “A gente já ta acostumado. Meu marido até coloca cones de sinalização na frente de casa pra que não estacionem nenhum carro”, comenta a mulher. 

    Carro dos anos 80 

    Em outra parte de Manaus, a rua Tito Bittencourt, no bairro São Francisco, abriga uma oficina que possui, o que parece ser uma relíquia. A possível carcaça de um Ford Del Rey se destaca entre outras latarias em frente à oficina, por já ter sido um carro de luxo entre os anos 80 e 90.

    Terreno baldio com três carros, um deles, o que parece ser um Ford  Del Rey, carro dos anos 80
    Terreno baldio com três carros, um deles, o que parece ser um Ford Del Rey, carro dos anos 80 | Foto: Lucas Silva

    O veículo do passado fica em um terreno baldio localizado em frente a essa oficina, e é vizinho de mais dois carros, um deles, aparentemente também antigo. Apesar de não ocuparem a rua e a calçada, os automóveis ainda podem ser o ambiente ideal para mosquitos transmissores de doenças, além de gerar lixo em terreno aberto. 

    Mais de 411 denúncias em 2019

    As calçadas, passeios e logradouros públicos, de acordo com o Plano Diretor de Manaus (mecanismo legal que orienta a ocupação do solo urbano), devem ser mantidos em bom estado pelo proprietário do lote, de forma a permitir, com acessibilidade, o trânsito de pedestres e cadeirantes. A informação é do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb). 

    “Em 2019, só relacionadas a obstrução de calçadas, foram recebidas, até outubro, 411 denúncias e aplicados 36 autos de infração. A obstrução dos logradouros públicos é alvo constante de ações dos fiscais do Implurb, de segunda a sexta-feira, e nos plantões”, informa o órgão.

    O Implurb é o responsável pela fiscalização
    O Implurb é o responsável pela fiscalização | Foto: Lucas Silva

    O Implurb destacou ainda que usar calçadas como avanços de comércio, caso que se aplica a oficina mecânica, não é ilegal e proibido, segundo o Plano Diretor da cidade. A informação consta no art. 37, da Lei 005/2014. Porém, carros estacionados de forma irregular em passeios são de competência do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), e passíveis de multa. 

    O IMMU, por sua vez, se manifestou sobre o tema e informou que os veículos abandonados nas vias são removidos pelo próprio órgão, após agentes de trânsito comprovarem que os supostos proprietários não tomaram providencias para retirar as sucatas das ruas. Os veículos abandonados ou sucatas são levados para o parqueamento da Prefeitura e são leiloados a cada 6 meses, caso não sejam retirados pelos donos.

    “O IMMU remove veículos estacionados irregularmente nas vias e sobre a calçada. Mas, proprietários de oficinas mecânicas que utilizam as vias públicas para executar serviços devem ser denunciados ao Implurb”, salienta o órgão.

    Segundo o instituto, as solicitações para remoção de sucata em via pública ocorrem, em média, ao menos duas vezes na semana. Caso queira denunciar, as solicitações devem ser feitas pelo telefone 0800 092 1188, do Plantão do Trânsito/IMMU.