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    SUICÍDIO INDÍGENA


    O drama de jovens indígenas que se suicidam no AM; número é recorde

    Especialistas apontam que uma das causas para as mortes é o sentimento de "viver entre dois mundos"

    Em 2018, foram registrados 36 casos de suicídios de indígenas só no Amazonas
    Em 2018, foram registrados 36 casos de suicídios de indígenas só no Amazonas | Foto: Marcello Casal Jr

     

    Manaus - “E os campos talados; e os arcos quebrados; e os piagas coitados; já sem maracás”. O trecho do poema Juca Pirama, de Gonçalves Dias, descreve o drama de um indígena que observa um povo ter sua cultura dilacerada. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), foram registrados 36 casos de suicídios, em 2018, no Amazonas. A maior parte das vítimas tem entre 10 a 29 anos, e é do sexo masculino. O número é o segundo maior do Brasil e a estatística crescente tem preocupado especialistas. 

    Considerado tabu por muito tempo, o suicídio é uma questão de saúde pública. Uma pessoa morre a cada 40 segundos por ‘lesão autoprovocada’, no mundo. O dado é da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, são registrados 5,7 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes. Com os povos indígenas, esse número triplica: são 15,2 mortes a cada 100 mil pessoas, informa o Ministério da Saúde. 

    | Foto: Em Tempo

    O antropólogo Clayton Rodrigues, que estuda povos indígenas e processos de territorialidade, explica que uma das causas para as mortes pode ser em decorrência do sentimento de não pertencimento vivido por parte dos indígenas, ou mesmo de exclusão por parte da sociedade dita ‘não indígena’.

    “O impacto da questão cultural é recorrente nos jovens, pois eles são os pontos centrais dessa ideia de estarem entre dois mundos e não fazerem parte 100% nem de um, nem de outro. O aumento dos suicídios também está associado em como as políticas não chegam nesses lugares. Os indígenas hoje não tem nenhum tipo de amparo de verdade para sua seguridade física”, explica. 

    Dos 475 suicídios indígenas registrados pelo Serviço de Inspeção Municipal (SIM), de 2009 a 2014, 289 eram jovens na faixa de 15 a 29 anos de idade. isto é, 60,9% do total de suicídios indígenas, mais que o dobro do que seria esperado. O dado consta no Mapa da Violência - 2014

    Em entrevista à Revista Trip, do Uol, a antropóloga Lucia Helena Rangel explica que o fenômeno epidêmico tem poder de se alastrar. “Em lugares que não haviam casos, logo começaram a surgir mortes autoinfligidas. Alguns exemplos são no Alto Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira, e Alto Solimões, com os povos Tikuna e Yanomami”. Os casos de suicídios no Amazonas (36) só são mais baixos do que no Mato Grosso do Sul, com 44 mortes em 2018.

    | Foto: Em Tempo

    Sina indígena

    Sina é uma fatalidade a que alguém está sujeito. Essa palavra de quatro letras parece carregar um peso enorme quando se trata dos povos que já viviam no Brasil quando os colonizadores chegaram em 1500. isso, porque, o sofrimento da época parece ter se alastrado pelos séculos para causar dor ainda hoje. 

    Da colonização até o ano 2000, a população indígena do país caiu de cerca de 5 milhões para pouco mais de 800 mil. Os números constam nos livros do alemão Hans Staden e do francês Jean de Lery, que conviveram com os povos nativos por volta de 1550, segundo demonstrou o site Uol. 

    A estudante e indígena Samela Sateré-Mawé, 23, explica que todo esse processo colonizador foi “marcado pelo estupro”, além do assassinato de muitos indígenas que lutavam contra a escravidão por parte dos colonizadores. Para ela, toda essa violência é um dos fatores responsáveis pelo preconceito que se perpetua até hoje contra os povos nativos.

    A jovem, que também é ativista pelos direitos dos indígenas, diz que não passou pela experiência de tentativas de suicídio, mas que pensa quão difícil deve ser para os jovens indígenas que se sentem perdidos entre dois mundos. 

    “Na minha adolescência foi bem difícil. Os jovens podem ser muito cruéis. Eu era chamada de índia burra e preguiçosa, porque as pessoas têm essa visão dos nativos. Diziam que eu não era indígena porque meus olhos não são tão puxados e tenho a pele e cabelo um pouco mais claros, mas isso é resultado da miscigenação”, lembra a descendente dos Sateré-Mawé. A jovem nasceu em Manaus e chegou a morar em uma comunidade indígena por um tempo. 

    Samela Saterê, ativista indígena. Foto: Lucas Silva
    Samela Saterê, ativista indígena. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

    Hoje, Samela reside no bairro Compensa, Zona Oeste da Capital. Além disso, estuda biologia na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que desde 2004 dedica 5% das vagas disponíveis no vestibular para indígenas. Mesmo com a maior abertura para esses povos, a jovem relata ter sofrido preconceito na academia. 

    “Quando eu entrei na faculdade, uma pessoa foi muito preconceituosa comigo. Eu sempre fui mais quieta, porque algumas piadas ou conversas dos jovens eu não entendia, e me excluíam por isso. E essa pessoa disse que eu seria uma das primeiras a desistir do curso, porque índio é preguiçoso e burro. Aquilo me marcou muito”, lembra, com dor, a estudante Samela Sateré-Mawé. 

    A jovem diz que indígenas podem se sentir perdidos, porque são julgados o tempo inteiro. “As pessoas tem uma visão de indígena como era antes da colonização, e acham que a gente tem que ficar na floresta, ou então vir pra cidade, mas só se abandonar os costumes”, desabafa Samela. 

    Samela Saterê, ativista indígena. Foto: Lucas Silva
    Samela Saterê, ativista indígena. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

    A dor explicada

    Para a psicóloga Alessandra Pereira, há pelo menos três fatores que podem causar o fenômeno do suicídio indígena. O primeiro, já comentado pelo antropólogo Clayton Rodrigues, é o choque cultural e a perda de identidade. “Os indígenas perdem o vinculo com a tradições e ao mesmo tempo se frustram na tentativa de se enquadrar na sociedade moderna. Esse processo é muito intenso, principalmente na adolescência”, explica Alessandra. 

    Outra causa, segundo a profissional, é o consumo elevado de substâncias, como o álcool. “Sabe- se que historicamente os indígenas produzem e tomam o “caxiri”, bebida com teor alcoólico relativamente baixo. Porém, quando indígenas passaram a ter contato com bebidas industrializadas, surgiu um novo fator de risco para o aumento do comportamento suicida, somado a outras causas”. 

    Por último, a psicóloga explica que o baixo nível socioeconômico é outra condição negativa que leva indígenas ao suicídio. Segundo a profissional, esses povos estão num contexto maior de precariedade. 

    “Nos interiores do Amazonas, especialmente os três municípios com maior frequência de suicídio indígena, que são Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira e São Sebastião do Uatumã, há inclusive pólo universitário, mas não absorve toda demanda e tampouco há emprego e renda para todos os que buscam a carreira acadêmica ou emprego formal no contexto ocidentalizado”, finaliza Alessandra. 

    Como indígenas veem o suicídio

    Em livro intitulado ‘Suicídio — diálogos interdisciplinares’, os organizadores Denise Machado e Joaquim Hudson reuniram vários estudos sobre mortes por lesões autoprovocadas, dentre elas as ocorridas com indígenas. Em determinado momento da obra, os próprios nativos expressam as opiniões acerca das mortes. O título foi publicado em 2018 pela Editora da Universidade Federal do Amazonas.

    “Suicídio pra nós é uma morte que não tem nenhuma explicação até agora. Vemos vários parentes morrerem assim”, diz uma liderança indígena da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. A entrevista consta na página 107 do livro. 

    Ainda na obra, outra liderança indígena associa o suicídio à doença. “Vai acontecendo de tempo em tempo, como a gripe ou sarampo. Some e depois volta”, diz o relato, na página 106. Alguns indígenas atribuem ainda as mortes à fraqueza e à inveja de outros grupos, segundo consta no livro. 

    A indígena entrevistada pela reportagem, Samela Sateré-Mawé diz que, hoje, já no final da graduação em biologia, os colegas a aceitam. “Eles passaram a me respeitar, a aceitar meus costumes e minha cultura. Mas até chegar nisso, foi muito difícil. Eu imagino os jovens indígenas que ainda passam por preconceito. É muito ruim”, finaliza.