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    Saúde Mental


    Saiba como identificar se você sofre de ansiedade

    Especialistas falam sobre a doença e dão dicas para lidar com uma crise

    Brasil é o país mais ansioso do mundo. | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - De acordo com os últimos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo. Cerca de 18,6 milhões de brasileiros convivem com o transtorno de ansiedade. Um número que equivale a 9,3% da população. Mas afinal, como saber se você sofre com este mal?

    O psicólogo Rockson Pessoa explica que a ansiedade é um componente natural do organismo, é uma preparação para alguma coisa. No entanto, existem transtornos e quadros de ansiedade, que é quando esse componente biológico se agrava. O principal sinal e sintoma é um medo excessivo do futuro. 

    “A gente chama de transtorno de ansiedade ou quadro de ansiedade quando aquela coisa que é saudável, a preocupação que nos faz buscar os sonhos de vida, acaba afetando nosso desempenho familiar e relacional. Esse medo do futuro que acaba prejudicando a vida de uma pessoa”, explica. 

    “A ansiedade traz uma série de prejuízos para uma pessoa. Como a pessoa passar a ter uma preocupação exacerbada, ela deixa de fazer atividades, compromissos. Muitas das vezes cancelando os mesmos, devido a grande preocupação envolvida. A ansiedade atrapalha todos os contextos em que a pessoa está inserida”, complementa a psicóloga Tallyne Campos.

    Agenda de projetos cheia pode acabar sendo uma gatilho para a ansiedade
    Agenda de projetos cheia pode acabar sendo uma gatilho para a ansiedade | Foto: Pixabay

    Como lidar com uma crise de ansiedade?

    “Na crise de ansiedade é sempre importante ficar com alguém para acompanhar e conversar. Ajuda muito estar com outra pessoa”, conta o psicólogo Pedro Campina. 

    Em caso de crise, a população pode recorrer a umas das unidades do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou buscar por um terapeuta cognitivo comportamental. 

    A psicóloga Tallyne Campos dá uma dica. “Peça para que a pessoa sente ou deite na cama e respire lentamente. Com uma técnica específica: inspira contando até quatro, segura contando até dois, solta pela boca contando até seis". Esta técnica ajuda muito a pessoa a se acalmar. No entanto, é preciso fazê-la nos dias calmos e tranquilos, pois isso auxilia no período de crise. 

    Sinais e sintomas da ansiedade

    Os principais sintomas de ansiedade são insônia, alteração alimentar, prejuízo ocupacional, muito sofrimento e angústia. Alguns casos também geram impulsividade, mas não é uma regra. 

    Rockson informa que os sintomas mais comuns são alterações de sono, alterações alimentares e o baixo desempenho. “Há um prejuízo no funcionamento do sujeito, ele vive preocupado.  Como ele anda muito ansioso, com muito medo do futuro, acaba que ele não consegue cumprir com as pessoas que precisam dele. Esse medo prejudica o presente que eles têm com a família, com as pessoas que eles amam e assim por diante”, diz. 

    Cerca de 18,6 milhões de brasileiros convivem com o transtorno de ansiedade
    Cerca de 18,6 milhões de brasileiros convivem com o transtorno de ansiedade | Foto: Leonardo Mota

    Procure ajuda profissional

    Ao perceber estes sintomas, procure um profissional. O psicólogo vai realizar a aplicação de instrumentos que conseguem “medir” essa ansiedade por meio do índice de preocupação, de insônia e também analisando comportamento, observando alguns sinais físicos como rigidez no pescoço e rigidez muscular. 

    O psiquiatra vai atuar quando este quadro de ansiedade for muito grave, quando o paciente tem uma insônia grave, por exemplo, sofre muito com os sintomas ou fica muito angustiado. Quando há o aumento do sofrimento e isso oferece risco para o sujeito, os medicamentos entram para ajudar a relaxar e dormir, são uma forma de controlar esses fenômenos. 

    Rockson conta que para pessoas que estão iniciando o quadro de ansiedade, a terapia pode funcionar melhor. A terapia é um local que vai tentar ajudá-lo a compreender porque ele tem essa preocupação com o futuro. Será um espaço onde a pessoa vai readequar sua percepção em relação ao mundo, para aprender ou reaprender a ter a preocupação saudável.

    “Eu tenho que me preocupar com a minha família ou amigos, mas sem exceder aquilo que é saudável. É uma educação perceptual de ver a vida como ela é”, explica o especialista. 

    Ansiedade em pessoas mais jovens

    Hoje os quadros de humor e ansiedade são muito prevalentes em jovens. Rockson explica que as pessoas perderam o tato com o mundo de maneira geral. “A gente precisa entender melhor o que está acontecendo. A gente não pode afirmar com certeza, mas existem muitas variáveis para explicar o homem cada vez mais descontente com o mundo”, afirma. 

    De acordo com a percepção do psicólogo, os jovens estão cada vez mais ansiosos por conta da agenda de projetos de vida. “Essa geração não está sendo formalizada para o mundo que não é mais tão certo quanto era no passado. Nesse mundo, que é muito dinâmico, a gente tem visto uma transição do homem antigo, aquele homem que tinha uma meta de vida, para uma nova geração que está sendo obrigada a ser mais resiliente. Então, a gente percebe que essa adaptação não está sendo saudável, muitos jovens estão com quadros de ansiedade e depressão”, conta. 

    Pedro Campina é diretor geral do projeto Círculo Psicologias (@cpsicologias), que oferece diversos cursos, inclusive gratuitos, sobre o tema.
    Pedro Campina é diretor geral do projeto Círculo Psicologias (@cpsicologias), que oferece diversos cursos, inclusive gratuitos, sobre o tema. | Foto: Arquivo Pessoal

    “As pessoas ainda têm preconceito e desconhecimento total do que são os transtornos mentais, com isso acabam prolongando a ida aos profissionais de saúde mental (psicólogo e psiquiatra) e isso propicia um adoecimento maior, com dificuldades maiores de melhora. Ansiedade e depressão são doenças que trazem uma série de prejuízos e, para isso, precisamos de conhecimento para ajudar essas pessoas. Por isso, é fundamental falarmos de saúde mental”, complementa a psicóloga Tallyne Campos.

    A jornalista Carol Givone, 25, não foi oficialmente diagnosticada com ansiedade, mas sente sinais físicos do transtorno. Descamação do couro cabeludo, sudorese e tremedeira são algumas das coisas que ela costuma sentir quando tem eventos muito importantes prestes a acontecer.  

    “Quando eu tenho uma coisa importante para fazer eu sofro uns três dias antes, pensando em possibilidades. Tento imaginar todas as situações para não ser pega de surpresa”, relata. Nesse período ela também não come direito e tem dificuldade para dormir. 

    As crises iniciaram quando ela começou a trabalhar. Aos 18 anos entrou no mundo corporativo, na área de vendas. “Foi difícil ter maturidade com 18 anos para lidar com clientes. Ainda muito jovem já era responsável pela minha casa, eu trabalhava para pagar aluguel, isso foi influenciando e me deixando cada vez mais assim”, conta.

    Para lidar com a ansiedade, ela criou seus próprios métodos. Ela pratica atividades físicas, corre e ouve uma playlist de relaxamento antes de dormir. Estas coisas a ajudam a se manter mais calma e relaxada. 

    Hoan Andrade usa o artesanato como forma de terapia ocupacional
    Hoan Andrade usa o artesanato como forma de terapia ocupacional | Foto: Arquivo Pessoal

    Ferramentas para lidar com a ansiedade

    A dica que o psicólogo Rockson Pessoa dá é inserir no dia a dia práticas que sejam boas para saúde mental. “A meditação tem sido uma boa ferramenta. Também é importante rezar ou orar, para quem acredita em Deus. Tem que reeducar o cérebro a relaxar”, diz.

    Outra coisa que ele ressalta é gestão do tempo. “Tem que ter um dia para descansar, para não ficar pensando em metas. Esse mundo artificial de agendas rigorosas não funciona porque nós não somos máquinas, somos seres humanos”, afirma. Para ele, o principal ponto é educação em saúde mental. Compreender que estamos sujeitos a variáveis e separar um dia para o descanso. 

    O funcionário público Hoan Carlos Andrade, 38, descobriu um grande talento ao investir em artesanato como forma de terapia ocupacional. Ele nunca fez curso, o que sabe é fruto da lembrança das atividades que fazia quando era criança, quando fazia seus próprios brinquedos. 

    Ele faz miniaturas de ônibus antigos da cidade de Manaus, das décadas de 80, 90 e 2000. Cada peça leva em média de duas a três semanas para ficar pronta. Ele usa materiais recicláveis como caixas de sapato, latas de cerveja e refrigerantes, garrafas pets, espetinhos de churrasco, capas de cd, cotonetes, entre outros materiais. 

    Há dois anos ele usa a atividade como forma de terapia ocupacional. Diagnosticado com transtorno de pânico, chegou a tomar remédios por quatro anos. Sua evolução foi muito boa, desde janeiro não toma medicação. “Ajudou bastante, não tenho frequentado psicólogo e nem tomado mais medicação”, diz.