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    Caso Lorena Baptista


    Perita anotou agressões de ex-marido em blog antes de morrer

    O Portal Em Tempo teve acesso exclusivo a trechos dos relatos, feitos pela própria perita, morta em 2009. Documento foi autenticado em cartório. Julgamento começa na próxima quarta-feira (5)

    Vanda Baptista, mãe de Lorena, segura foto da filha | Foto: Lucas Silva

    Manaus  - Na madrugada do dia 5 de julho de 2010, um disparo de arma de fogo em um apartamento no Parque 10, Zona Sul de Manaus, resultou na morte da perita Lorena dos Santos Baptista. O gatilho foi apertado durante uma discussão entre a vítima e o ex-marido, Milton César Freire da Silva, que diz ter sido um acidente. O filho do casal, com 11 anos na época, assistiu à morte da mãe. O caso vai a julgamento na próxima quarta-feira (5), dessa vez com novas provas: um diário pessoal e um blog na internet onde a vítima registrou as agressões sofridas por parte do então marido.

    “Encontramos as folhas com relato de agressão durante uma mudança das coisas da Lorena pra cá pra nossa casa, ainda em 2012. A novidade do caso é que encontramos agora um texto que ela publicou em um blog na internet, onde relata a violência que sofria”, conta o irmão da vítima, Ênio Baptista. 

    Blog

    Um texto no blog católico Canção Nova foi encontrado por familiares “há algum tempo”, embora não recordem o ano exato. “Tínhamos esse texto impresso, porque encontramos uma vez pesquisando palavras-chaves no Google. Porém, não colocamos no processo, porque precisávamos autenticar a existência dele no cartório, e na hora de achar na internet anos depois, ele já aparecia como indisponível. Só conseguimos encontrar de novo quando utilizamos um site de busca online chamado Wayback, e agora anexamos a prova no processo”, explica Ênio.

    Ênio Baptista, irmão de Lorena
    Ênio Baptista, irmão de Lorena | Foto: Lucas Silva

    O Em Tempo teve acesso exclusivo ao texto, que segundo a família, é de autoria de Lorena e direcionado a um padre que publicava reflexões no mesmo blog. Pela data da publicação, setembro de 2009, Lorena compartilhou suas aflições nove meses antes de morrer.

    “[…] as coisas pioraram muito entre eu e meu marido […] hoje ele me agrediu fisicamente. Invadiu a casa, eu pedi que ele fosse [embora], mas ele disse que não sairia. Queria uns papéis e livros, e eu disse que pegasse e saísse. Ele quis pegar os documentos do Imposto de Renda que ele havia dito não estarem aqui, e sim com o contador, mas era mentira, eu sabia. Ele apenas queria que eu pensasse isso para que ele pudesse pega-los escondido e assim mentir para não pagar a pensão dos filhos. Ele é autônomo e a declaração do imposto é que demonstra seus rendimentos”, diz um trecho da publicação.

    A existência do texto foi atestada em cartório pela família através de Ata Notarial, quando o tabelião verifica, com seus próprios sentidos, se o documento impresso é o mesmo que o original. Nesse caso, o postado na internet. O selo de verificação acompanha a cópia disponibilizada pela família ao Em Tempo.

    Em outro momento da carta, a vítima escreveu que naquele momento estava digitando com um braço engessado, por conta da agressão. “13 anos fui casada, sempre temi a Deus e hoje apanhei desse homem dentro de minha casa. Ele machucou meus braços, xingou meus filhos, fez um escândalo”.

    Confira o texto na imagem abaixo: 

    Texto que Lorena escreveu no blog Canção Nova, em 2009
    Texto que Lorena escreveu no blog Canção Nova, em 2009 | Foto: Divulgação

    Diário

    Outra prova, o diário, já está nos autos do processo. Nele, Lorena escreveu “[…] lembro-me daquela sexta-feira anterior ao meu chá de baby. Ele (Milton César) me deu uma gravata no pescoço e me empurrou contra o sofá […]”.

    Além do relato de agressão, a vítima aproveita para expressar todas as suas decepções com o marido. “Sei também que eu não tenho nenhum valor diante dele, e provavelmente a Gabriela (filha do casal) também não”, escreveu. 

    O diário é contestado pela defesa de Milton César. “Uma folha remete ao dia 06/12/97, outra 15/04/98 e a última de 04/09/98, o que denota serem páginas selecionadas a dedo”, escreveu a defesa do acusado, no processo. No documento disponibilizado pela família à reportagem do Em Tempo, não há datas. 

    Em resposta, a família de Lorena levou o conteúdo original à Justiça e disponibilizou para os advogados do acusado terem acesso. “Fui levar pessoalmente na Justiça pra eles verem que o documento é real”, conta Ênio Baptista. 

    “A defesa requereu a íntegra de todo o suposto diário e foi surpreendida com a resposta de que apenas essas oito páginas compõem o diário completo. Milton César não reconhece os fatos relatados por Lorena Baptista, supondo que se trata de um quadro real de depressão a que Lorena sempre esteve acometida”, comentaram os advogados de Milton, por meio de assessoria.

    O processo que dura 10 anos

    O processo, que agora parece estar perto do fim, iniciou ainda em agosto de 2010, através de denúncia oferecida pelo Ministério Público do Estado do Amazonas. Após as audiências e apresentação de provas pelas duas partes, Milton foi absolvido da acusação de homicídio. A decisão foi assinada pela juíza Mirza Telma de Oliveira Cunha, em 2014, levando em consideração dois laudos de perícia, que apontaram o tiro como acidental.

    Em 21 de fevereiro do mesmo ano, o promotor de justiça do Ministério Público do Estado do Amazonas, Fábio Monteiro, apresentou recurso de apelação contra a decisão da magistrada. O recurso apontou possíveis contradições na decisão da juíza, além de ressaltar “desconsideração das demais provas”. A primeira, o depoimento do filho da vítima, Pedro, que confirmou à polícia ter visto o acusado apontar a arma para a cabeça da mãe, e a segunda, o laudo pericial da Polícia Judiciária, que concluiu a morte como homicídio. 

    Em agosto de 2015, os desembargadores da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) reformaram a sentença da primeira juíza e determinaram que Milton fosse levado a júri popular. 

    A defesa do acusado entrou com recurso no Supremo Tribunal de Justiça (STJ), em 2017, para que Milton não fosse à juri popular, mas os ministros da Quinta Turma do STJ negaram o provimento, por unanimidade.

    Em mais um recurso, já em 2018, a defesa de Milton recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), que da mesma forma negou o pedido e manteve a decisão do tribunal anterior. 

    O próximo passo da ação é o julgamento por juri popular que ocorre na próxima quarta-feira (5). Para o dia, os advogados de defesa de Milton se mostram confiantes na inocência do acusado.

    “Que fique demonstrada, novamente, a inocência do Milton César, tal como ocorreu em 2014, na sentença absolutória que foi proferida pela primeira Vara do Tribunal do Júri, onde foi declarado que não houve homicídio, mas sim um disparo acidental quando Milton César tentava desarmar sua ex-mulher, Lorena Baptista.

    O advogado de acusação, Diego Gonçalves, diz confiar na justiça do Tribunal do Juri. "Acreditamos que o processo vá durar uns dois dias, por sua complexidade, já que serão ouvidas testemunhas e apresentadas outras provas”, afirma. 

     A dor de uma família

    A reportagem do Em Tempo visitou a casa dos Baptista, família da perita morta em 2009. Na ampla sala de estar da residência, estava a mãe da vítima, Vanda Baptista; os irmãos Ênio Baptista e Larissa Baptista; e o filho de Lorena, Pedro Baptista, além de outros familiares. 

    Família Baptista diz que sente a dor da perda todos os dias
    Família Baptista diz que sente a dor da perda todos os dias | Foto: Lucas Silva

    Em frente a uma foto de Lorena com a família, deixada na mesa central do sofá, os parentes da perita morta resgataram momentos de dor que marcaram a todos. 

    “Desde o início, o casamento da Lorena foi muito tumultuado. Discutiam muito. Mas a gente nunca imaginou que ela sofria agressões físicas, como descobrimos depois. Ela sempre foi muito de família e tentava nos polpar das dores”, lembra Larissa Baptista, psicóloga e irmã de Lorena.

    Ela recorda ainda que após a morte da irmã, empregados que trabalharam na casa da família disseram que presenciaram algumas brigas do casal. 

    A mãe, Vanda Baptista, emocionada, comenta a demora do processo, que completa dez anos em 2020. “É esse tempo todo em luto. São dez anos que não dormimos e não temos paz. Eu acordo e penso na Lorena, vou dormir e penso na Lorena”, diz a mãe da vítima. E completa. “Parece que mataram uma barata. Aconteceu e tudo aparentemente voltou ao normal pros outros, menos pra gente, a família dela”. 

    Vanda Baptista segura foto da filha
    Vanda Baptista segura foto da filha | Foto: Lucas Silva

    Pedro Baptista, filho de Lorena, conta quão difícil foi viver sem a mãe. “Formaturas, festas de aniversário, Natal. A gente nunca sabe como agir, fica aquele vazio enorme”, diz ele, hoje com 21 anos. 

    Confira o trecho do diário de Lorena dos Santos Baptista: