Julgamento


Julgamento de dentista acusado de matar esposa deve durar três dias

A perita Lorena Baptista foi morta na frente do filho de 11 anos no ano de 2010. Familiares e amigos pedem justiça

O julgamento iniciou com atraso e deve durar até sexta-feira (7) | Foto: Leonardo Mota

Manaus – Iniciou na manhã desta quarta-feira (5) o julgamento do cirurgião dentista Milton César Freire da Silva, no Plenário Santa Cruz Machado, no Fórum Ministro Henoch Reis, localizado na avenida Paraíba, bairro São Francisco, Zona Sul. O réu é acusado de matar a ex-mulher, a perita Lorenados Santos Baptista durante uma discussão em julho de 2010. Na ocasião, o filho do casal presenciou o momento em que a mãe foi atingida com o disparo de arma de fogo.

O julgamento, previsto para as 8h30, começou com duas horas de atraso e grande fila de espera de familiares, amigos, estudantes de direito e imprensa. O júri popular conta com o Conselho de Sentença de quatros homens e três mulheres. O julgamento está previsto para durar até a sexta-feira (7). 

Família da vítima

Familiares e amigos compareceram ao fórum. Com camisas brancas e dizeres de “#justiça por Lorena", uma declaração bíblica “Julga a minha causa Senhor. Lamentações 3:59" e a foto de Lorena com a família demonstra a união nesta fase do caso que dura quase 10 anos.

Mônica Baptista, prima da vítima falou ao Portal EM TEMPO, minutos antes de iniciar o julgamento, que a família espera que, desta vez, Milton seja condenado e que o grito de justiça seja feito, mesmo depois de quase 10 anos. 

A família pede justiça pela morte da perita Lorena Baptista
A família pede justiça pela morte da perita Lorena Baptista | Foto: Leonardo Mota

“Nós estamos com esse grito engatado na garganta. O que a gente tem hoje é a fé. Não vamos ir a favor da maré dos brasileiros que não acreditam na justiça do país, nós acreditamos sim. Estamos confiantes. Minha prima Lorena me ensinou a acreditar na verdade e justiça, é por ela que estamos aqui. Nós acreditamos na justiça humana e justiça divina", relatou emocionada. 

O filho do casal, hoje com 21 anos, é testemunha chave do julgamento. A família afirmou que nesses anos após a morte de Lorena, ele foi amparado e aguarda o veredito final.

“Ele é a principal testemunha. Viu tudo o que aconteceu. Ele viu o pai apontar a arma e matá-la. A nossa família o amparou muito. Ele teve apoio religioso, psicológico, psiquiátrico, profissional e amor. Ele era uma criança e hoje já é um adulto que está cursando Direito e muito bem encaminhado, mas ainda carrega esse trauma. Hoje queremos que finalize e com o prazer de gritar justiça”, finalizou Mônica Baptista. 

Novas provas e testemunhas 

Milton já havia sido julgado em 2014, mas foi absolvido. A decisão foi assinada pela juíza Mirza Telma de Oliveira Cunha, em 2014, levando em consideração dois laudos de perícia, que apontaram o tiro como acidental.

Centenas de pessoas acompanham o primeiro dia do julgamento
Centenas de pessoas acompanham o primeiro dia do julgamento | Foto: Leonardo Mota

O caso vem a júri com novas provas. A família encontrou um diário on-line em formato de blog e um físico que teria sido escrito pela vítima. No conteúdo há relatos das agressões de Milton contra Lorena. As provas não foram usadas antes, pois precisavam da comprovação em cartório. 

Em um dos relatos, a vítima descreveu que estava digitando com um braço engessado, e que a lesão era fruto da agressão do ex-marido. “13 anos fui casada, sempre temi a Deus e hoje apanhei desse homem dentro de minha casa. Ele machucou meus braços, xingou meus filhos, fez um escândalo”.

Em um relato escrito pela vítima há demonstração de que não sente mais a consideração de Milton por ela como esposa. "Eu nem mulher sou dele. Às vezes sinto que em nossas relações são apenas de cumprir obrigações. Tenho vontade de morrer".

No julgamento serão ouvidas cinco testemunhas indicadas pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM) e cinco indicados pela defesa do réu, três assistentes, um perito e uma testemunha do juízo. A sessão é presidida pelo juiz de direito da 1.ª Vara do Tribunal do Júri, Mateus Guedes Rios. 

As camisas com a foto de Lorena Baptista com a família demonstram o apoio no julgamento
As camisas com a foto de Lorena Baptista com a família demonstram o apoio no julgamento | Foto: Leonardo Mota

Depoimento

O porteiro Sandro Araújo foi o primeiro a depor na sessão desta manhã. Ele contou que Lorena chegou por volta da meia-noite com o filho no condomínio Condomínio Villa-Lobos, no bairro Parque 10 de Novembro, onde Milton morava.

Segundo as normas do local, o visitante não poderia entrar de carro, mas a pé. Lorena pediu para entrar com o carro pois afirmou estar com roupas de dormir. Autorizada a entrada, os dois se dirigiram até o apartamento de Milton. 

Questionado sobre os barulhos que vinha do apartamento, o porteiro afirma que durante 20 minutos ouviu batidas na porta e Lorena pedindo para o filho bater e chamar pelo pai.

Quando entraram tiveram uma discussão por três minutos, onde, segundo a testemunha, Lorena falava em tom mais alto. Após a discussão, o segurança afirma que os dois falaram “Ei, ei, ei” e logo em seguida ouviu o disparo.

"No momento, a criança saiu correndo do apartamento dizendo “Minha mãe, minha mãe” e tentou fugir escalando o portão da entrada. Diante da situação, Milton saiu e pediu para contermos o filho", disse em depoimento.

O segurança afirma também que, após o disparo e a fuga do filho, viu o réu sentando, levantando e passando a mão na cabeça com ar de preocupação, na varanda da casa.

A defesa afirma a ação do réu em legítima defesa
A defesa afirma a ação do réu em legítima defesa | Foto: Leonardo Mota

Defesa do réu

A psicóloga e assistente técnica da defesa Dra. Andrea Calçapo acrescentou que a fatalidade aconteceu e que o disparo não foi intencional, pois o réu agiu em legítima defesa.

“Estamos aqui com a certeza de que houve um tiro acidental, o que eu posso dizer como psicóloga é que os autos constam toda a análise feita com relação ao desequilíbrio emocional da doutora Lorena no qual ela inseria os filhos como forma de ataque ao Milton. Isso, desde a época do casamento, se estendeu após separação", confirmou. 

A defesa afirma a versão de Lorena ter levado a arma para o local do crime, ter feito o uso de luvas cirúrgicas e usado o filho para ter acesso ao apartamento do ex-esposo.

"Em delírio, Lorena decidiu invadir o apartamento com luvas cirúrgicas e uma arma engatilhada na cintura levando o filho. Pediu para que chamasse pelo pai por 20 minutos. Ele acorda preocupado e a Lorena começa a discutir. Milton pede que ela fosse embora, até que ela saca a arma e ele se defende. É uma tragédia, é uma tristeza, mas não se pode imputar um homicídio a esse homem. Os filhos foram usados como forma de alienação parental materna. Eles cresceram e não tiveram a oportunidade de ouvir a versão do pai", finalizou.