Suicídio


Suicídio de idosos: drama invisível cresce no Amazonas

Separações, isolamento social, distanciamento de familiares, perda de produtividade, depressão e doenças são fatores que influenciam

Um fator frequente nos casos de suicídio em idosos é a inadequação a novos locais de moradia
Um fator frequente nos casos de suicídio em idosos é a inadequação a novos locais de moradia | Foto: Lucas Silva

Manaus - Você já ouviu falar de idosos que tiram a própria vida? O fenômeno pode surpreender à primeira vista, mas existe. Segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), só em 2019, foram 13 casos confirmados no Estado, contra dez, em 2018. O órgão não disponibilizou dados por localização, gênero ou classe social. Para a psicóloga Denise Machado, a falta de informações é comum no tema. Em um artigo, ela e o psicólogo Anderson Aires relatam as dificuldades para buscar números nacionais e da Região Norte, sobre suicídios de idosos. 

Segundo o Ministério da Saúde, 62,8 mil pessoas morreram vítimas de lesão autoprovocada, de 2011 a 2016, no Brasil. No caso dos idosos (acima de 70 anos), foram 8,9 a cada 100 mil habitantes, no mesmo período. A taxa é a maior, se considerada apenas a idade das vítimas.

Em artigo publicado em 2017 na revista Saúde Pública, os pesquisadores André Luis e Maximiliano Loiola analisaram relatos de casos de suicídio em Manaus. Um deles foi o de um homem de 68 anos, que ganhou a vida como feirante e “tinha certa mágoa dos filhos, pois nenhum quis dar seguimento no negócio”, diz o relato da família, que consta no texto. 

O idoso também sofreu muito quando perdeu a mãe no mesmo período em que descobriu ter enfisema pulmonar, uma doença incurável. “A família tentou levá-lo para atendimento em serviço de saúde mental, mas ele não aceitou. O suicídio aconteceu em um domingo de manhã”, concluiu a pesquisa. 

Fator social

Um dos principais motivos para que o pensamento suicida ocorra é a perda de laços afetivos
Um dos principais motivos para que o pensamento suicida ocorra é a perda de laços afetivos | Foto: Lucas Silva

Segundo especialistas, a morte por lesão autoprovocada não se resume a uma causa. É mais comum que seja o resultado de um conjunto de fatores. A médica psiquiatra Alessandra Pereira é quem explica. Para ela, os pensamentos de morte em idosos são mais frequentes do que se imagina.

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Um dos principais motivos para que o pensamento suicida ocorra é a perda de laços afetivos ao longo da vida e de pessoas do seu meio de relacionamento habitual durante a vida, gerando sentimento de incompreensão e desamparo. "

Alessandra Pereira, Psiquiatra

Além disso, Alessandra destaca os casos que envolvem vícios na terceira idade. “Alguns idosos vivem na realidade do uso abusivo de álcool e outras drogas, tendo efeitos nocivos para o cérebro que já se encontra em processo de declínio cognitivo e piorando o rebaixamento de humor, reforçando muito os sentimentos negativos e sintomas depressivos”, diz ela. 

Mas, segundo a psiquiatra, um fator frequente nos casos de suicídio em idosos é a inadequação a novos locais de moradia. Quando a pessoa da terceira idade mora na casa de parentes, mas é tratada como uma ‘criança’, alguém que perde voz e parece ser um hóspede na casa.

Condição de saúde

Doenças crônicas incapacitantes e dolorosas também geram muitos pensamentos mórbidos e repercutem em sentimentos de solidão
Doenças crônicas incapacitantes e dolorosas também geram muitos pensamentos mórbidos e repercutem em sentimentos de solidão | Foto: Lucas Silva

Outro ponto destacado pela psiquiatra é o suicídio ser causado por complicações da pessoa idosa com a própria saúde.

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As doenças crônicas incapacitantes e dolorosas também geram muitos pensamentos mórbidos e repercutem em sentimentos de solidão, pois o isolamento social incapacitante leva ao sofrimento emocional. "

Alessandra Pereira, Psiquiatra

Para ela, nessas situações vividas por alguns idosos, a desesperança e a falta de sentido para a vida são fantasmas que assombram a mente o todo tempo. “Faz com que pensem na morte como uma solução para o alívio da dor psíquica que passam no processo de envelhecimento, embora tirar a própria vida nunca seja a solução”, ressalta ela.

Perfil das vítimas

Alessandra revela que idosos com depressão, ansiedade ou ambos estão diariamente no escritório dela
Alessandra revela que idosos com depressão, ansiedade ou ambos estão diariamente no escritório dela | Foto: Arquivo Em Tempo

Os psicólogos Anderson Aires e Denise Machado, que estudam o tema, descrevem o perfil dos idosos que tiram a própria vida, baseado em aspectos sociodemográficos. Confira abaixo as principais características.

| Foto: Infográfico/Em Tempo

Quem também vê de perto idosos suscetíveis ao suicídio é a psiquiatra entrevistada pela reportagem do Em Tempo. Alessandra revela que idosos com depressão, ansiedade ou ambos estão diariamente no escritório dela. 

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Com frequência são aqueles idosos que se sentem inúteis, sem valor, desamparados e com perda total de esperança no futuro. Além disso, os que perdem o controle nas decisões do lar, que ficam desempregados, entre outros fatores. "

Alessandra Pereira, Psiquiatra

A dor do abandono

É claro que, para qualquer pessoa, ser tratada como fardo ou como quem não merece atenção é uma sensação ruim. Não fugiriam à regra os idosos, que às vezes tem a experiência diária de serem silenciados, só por conta da idade.

Raimunda da Silva, 88, sabe bem como é a sensação de invalidez que associam aos idosos. Ela mora na Casa de Repouso São Vicente de Paulo desde 2014, e embora nunca tenha tentado tirar a própria vida, lembra entre lágrimas tudo o que sofreu por ser idosa.

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Fui solteira até os 45 anos. Achava que nunca ia casar. Nessa época, conheci o meu marido, João. Foi tudo rápido. Começamos a namorar e casamos em uns dois meses. Ele me tratava super bem e eu o chamava de ‘meu preto’. Ficamos casados 29 anos. "

Raimunda da Silva, 88, Aposentada

Raimunda da Silva, 88, sabe bem como é a sensação de invalidez
Raimunda da Silva, 88, sabe bem como é a sensação de invalidez | Foto: Lucas Silva

 

Ela diz que o marido nunca quis ter filhos, que preferia envelhecer com a aposentadoria e viajar para muitos lugares com ela.

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Conhecemos muitos lugares depois que nos aposentamos. Viajamos muito. E se eu não podia ir, ele mesmo escolhia também não ir. "

Raimunda da Silva, 88, Aposentada

Ao continuar a narrativa, Raimunda fica com os olhos cheios de lágrimas.

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Tudo mudou quando meu preto faleceu, em 2002. A partir dali eu cometi o maior erro da minha vida. Na época, um médico disse que eu não podia morar sozinha porque já estava com 70 anos e eu nunca tive filhos ou outros familiares aqui. Então, fui morar com um casal de conhecidos que tinha um filho pequeno. O problema foi que eles começaram a me sugar. Eu tinha que pagar tudo deles com o dinheiro da minha aposentadoria. Aluguel, rancho, as coisas do bebê. Era tudo. E eles me tratavam tão mal. "

Raimunda da Silva, 88, Aposentada

Ela diz que não demorou muito até que ligasse para uma prima pedindo abrigo.

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Minha prima me deixou morar com ela. Eu achei que finalmente teria paz, mas foi completamente diferente. Eu também não era respeitada na casa dela. Passava fome. Digo para você que ela me dava uma colher de feijão e uma de arroz para comer. Uma vez eu cheguei a desmaiar de fome. Sofria muito. Era chamada de louca. "

Raimunda da Silva, 88, Aposentada

O que salvou ela, segundo conta, foi uma moça cujo pai trabalhou com o falecido marido de Raimunda. “Ela me viu naquela situação uma vez e disse que poderia me indicar para a Casa de Apoio São Vicente de Paulo. Ela fez questão de me buscar na minha prima e de me levar para fazer todos os exames que precisava para entrar na casa de repouso. Cuidou mesmo de mim”, lembra. 

 “Quando eu cheguei aqui na casa de repouso, fui muito bem recebida pelas assistentes sociais. Elas me disseram que agora eu poderia me considerar filha de São Vicente, e que eu finalmente tinha uma família. A minha vontade foi de ajoelhar e chorar, porque pela primeira vez eu senti amor e carinho, depois de tanto tempo”, finaliza Raimunda.

 A diretora da Casa de Repouso São Vicente de Paulo, Flora Paes, conta que muitos idosos vão para o abrigo com histórico de maus-tratos. “Não podemos tratar idosos como se fossem crianças. Eles já passaram dessa fase há muito tempo. Hoje, são pessoas vividas com suas experiências. Idoso tem que ser tratado com amor, carinho, dedicação e respeito”, comenta ela.

Flora diz que é importante saber que pessoas na terceira idade ainda têm o que viver. Podem viajar, dançar e até namorar. Que não podem aceitar a nova fase como um fim para a vida, mas sim como uma nova forma de viver.

Prevenção

É preciso ter e dar atenção aos idosos
É preciso ter e dar atenção aos idosos | Foto: Lucas Silva

O suicídio é um problema de saúde pública, como já declarou a Organização Mundial da Saúde (OMS). Há medidas de prevenção para todas as idades, como observar se a pessoa se despede como se fosse partir ou ainda dizer frases que remetam ao suicídio. No entanto, no caso dos idosos, esses sinais podem ficar disfarçados na idade, por isso é preciso ter mais atenção.

“A melhor forma de prevenção do suicídio entre idosos é tratar doenças psíquicas, como depressão e ansiedade, que geralmente estão presentes em um quadro leve e vão se agravando sem que a família ou amigos percebam” diz a psiquiatra Alessandra Pereira.

Ela destaca que o idoso não é mais tão ativo e os sintomas depressivos, tais como falta de energia e perda do interesse nas atividades ficam disfarçados em “cansaço da idade” e “chatice de velho”.

Além disso, ocupar o tempo é fundamental, segundo a profissional. Atividades físicas, sociais, hobbies e cursos ativam a mente e melhoram a socialização da pessoa idosa. “Mais importante que isso é ter projeto de vida, mesmo que pareça pequeno, como fazer uma viagem com as amigas da época da escola ou organizar a festinha de aniversário de um neto”, ressalta. 

Annette Beautrais, uma suicidologista da Nova Zelândia, ressalta a importância do suporte social para que idosos não deem fim às próprias vidas, ainda que não apresentem transtornos mentais. Ela é citada no artigo ‘Suicídio entre idosos na cidade de Manaus — uma revisão bibliográfica’, escrito por Anderson Aires e Denise Machado.

No mesmo texto, pesquisadores destacam ainda alguns sinais que merecem atenção, por apontarem risco de suicídio. Confira abaixo: 

| Foto: Infográfico/Em Tempo

Edição: Rebeca Mota