Homicídio


Julgamento de dentista acusado de matar ex-mulher encerra neste sábado

Lorena dos Santos Baptista morreu em uma discussão com o marido em 5 de julho de 2010. Ela era perita e carregava consigo a arma com que foi atingida na cabeça. Defesa do acusado alega disparo acidental

Caso Lorena Baptista completa nove anos e sete meses em fevereiro | Foto: Lucas Silva

Manaus - Encerra neste sábado (8), o caso do dentista Milton César Freire da Silva, acusado de matar a ex-mulher Lorena dos Santos Baptista. Para o último dia está agendado o depoimento do réu, as alegações finais de acusação e defesa e, o resultado do júri dado pelo Conselho de Sentença. O julgamento no Tribunal do Júri teve início ainda na quarta-feira (5) e estava previsto para encerrar na sexta (7), no entanto, o julgamento ganhou mais um dia. A extensão se deu por conta da complexa discussão sobre alienação parental promovida pela psicóloga Andréa Calçada (contratada pela defesa do acusado) e também a fala dos peritos na tarde de sexta. 

Por meio de nota, a equipe de advogados de defesa de Milton reforçou a teoria da alienação parental, uma das principais cartas quando se é defendida a inocência do réu. "Em sua explanação técnica, a psicóloga Andréa Calçada, especialista em falsas memórias, explicou que alienação parental pode acontecer em diversas intensidades e, que se trata da transformação da percepção da criança sobre o outro genitor, que pode ser feito por meio de um dos genitores, dos avós, da família, daquele que tiver a responsabilidade da criança, principalmente", diz a nota divulgada pela assessoria dos advogados de Milton. 

Em outro momento do texto, a assessoria destaca que "a alienação parental também se baseia em laudos emitidos por psicólogos da Vara de Família do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e, validados pelo Ministério Público do Estado do Amazonas no processo de guarda das crianças após a morte de Lorena". 

Ainda nesta sexta-feira (7), as duas filhas de Lorena, Gabriela e Juliana aproveitaram para divulgar um texto que está nos autos do processo, escrito pela psicóloga Raquel Castro, da Universidade do estado de São Paulo. Nele, a profissional aponta erros técnicos nos métodos utilizados pela psicóloga e especialista em falsas memórias, Andréa Calçada.

Stories do Instagram de Juliana Baptista, filha da perita Lorena Baptista
Stories do Instagram de Juliana Baptista, filha da perita Lorena Baptista | Foto: Reprodução/Instagram

"Verificamos que alguns equívocos comprometeram o resultado do parecer. São eles: não descrever a metodologia utilizada na análise documental; atuar de maneira seletiva, excluindo documentos inteiros e partes de outros; não apresentar comprovações documentais sobre falsas memórias atribuídas a Pedro dos Santos Baptista (filho da vítima)", escreveu Raquel, no processo. 

Diego Gonçalves, advogado de acusação, disse ser inadmissível o parecer da psicóloga Andréa Calçada. "Ela não fez uma sessão com o objeto de estudo, que é o Pedro. Ainda assim ficou fazendo alegações e praticamente só falou dele", afirma. 

Contradição

A defesa de Milton apontou para possíveis contradições nos depoimentos de Pedro, filho de Lorena e principal testemunha da morte da mãe. Na quinta-feira (6), ele foi ouvido por quase duas horas no julgamento e ao ser questionado se viu o momento em que o pai supostamente teria atirado em sua mãe, Pedro disse ter apenas ouvido o disparo da arma. Em depoimento inicial, ainda à época da morte da mãe, ele chegou a dizer à polícia que viu o pai apontar a arma para a cabeça de Lorena. 

"Nem uma a menos"

Durante todos os dias de julgamento, mulheres se uniram na frente do Fórum Ministro Henoch Reis, onde ocorre o Tribunal do júri e levaram faixas de combate à violência contra a mulher. Uma das manifestantes presentes foi a socióloga Valéria Marques. "O caso Lorena está inserido na questão da violência doméstica, e quando ocorre essas relações de poder entre homem e mulher, é preciso entender que o sexo feminino sempre está em desvantagem na força física", explica a especialista, que também estuda políticas públicas para as mulheres na Universidade Federal do Amazonas. 

Mulheres se reuniram contra os casos de violência contra a mulher
Mulheres se reuniram contra os casos de violência contra a mulher | Foto: Leonardo Mota

"O Milton diz que lutou para tirar a arma da mão de Lorena. E mesmo que fosse isso e não um tiro proposital, quando ele tomou controle da situação, deveria ter saído dela, não atirado. Principalmente porque estavam brigando na frente do filho", defende a profissional.