Fonte: OpenWeather

    Feminicídio


    Crimes de feminicídio têm aumento de 300% em Manaus

    Apesar da tipificação só ter sido criada em 2015, há mais de 100 anos mulheres são mortas todos os dias em Manaus

    De 2018 a 2019, o crime de feminicídio aumentou em 300% na capital
    De 2018 a 2019, o crime de feminicídio aumentou em 300% na capital | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - “Feminicídio é o crime caracterizado pela violência doméstica e familiar contra a mulher e também em decorrência da condição de ser mulher”, explica a delegada titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher em Manaus, Débora Mafra.

    De 2018 a 2019, o crime de feminicídio aumentou em 300% na capital, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), ou seja, o número de mortes saltou de três em 2018 para 13 no ano passado. 

    Mas a violência contra a mulher não é novidade. Em 1901, na então colônia Campos Sales, Zona Oeste de Manaus, vivia Etelvina de Alencar que foi assassinada pelo próprio marido aos 17 anos de idade.

    O historiador Júlio Uchoa (da Associação Amazonense de Imprensa), conta que a jovem trabalhava com a família em uma plantação agrícola. Etelvina conheceu José, que se apaixonou por ela e tornou-se seu esposo. “Houve quem afirmasse que Etelvina possuía três namorados: Antônio, Estevam e Henrique. Tudo isso ouvira José que deu crédito às intrigas.  Então, jurou vingança, não só contra a então ex-esposa, mas, igualmente, aos três rapazes que imaginava serem causadores de sua infelicidade. Tudo planejou, fria e demoradamente”, escreveu o historiador, em sua coluna Homens, Coisas e Fatos, divulgado no Jornal do Commercio, de 15 janeiro de 1956.

     Em março de 1901, José foi até o vilarejo e matou os três homens que suspeitava que dormiam com sua  Etelvina. Após o triplo homicídio, foi atrás dela. “Desconfiada das intenções de José, Etelvina tentou fugir, no que é obstada por ele, que conseguiu alcançá-la […] a desventurada Etelvina é arrastada para a densa floresta que se estendia às proximidades da casa.[…] somente a 8 de março, é encontrado o local em que se consumara o derradeiro ato do imenso drama, misto de amor e ódio. […]O rifle, entre os dois esqueletos, explicava a cena final: José matara a infeliz Etelvina, suicidando-se, a seguir”, escreveu o historiador. 

     

    Nome da jovem deu nome ao bairro localizado na Zona Norte. Ela é considerada santa por um grupo de pessoas que se tornaram seus  fiéis
    Nome da jovem deu nome ao bairro localizado na Zona Norte. Ela é considerada santa por um grupo de pessoas que se tornaram seus fiéis | Foto: Arquivo AET

    119 anos depois 

    Já se passaram 119 anos e o feminicídio não deu trégua. No dia 21 de janeiro de 2020, o corpo de Miryam Moraes da Cruz, 21 anos, foi encontrado em um trecho do Igarapé do Mindu, no bairro Tancredo Neves, Zona Leste de Manaus. Morta com nove facadas, a jovem estava grávida de três meses e o principal suspeito do crime é o namorado dela e pai da criança, Roberto Brito. Segundo familiares, ele queria que ela abortasse o bebê. O caso foi considerado o primeiro feminicídio de 2020, em Manaus, de acordo com a SSP/AM.

    Caso Miryam Moraes
    Caso Miryam Moraes | Foto: Arquivo Em Tempo

    Entre os anos que morreram Etelvina e Miryam, muitas mulheres tiveram o sangue derramado por namorados, esposos, irmãos, pais, padrastos, tios e outros homens da família. Nos últimos quatro anos, em Manaus, foram 35 mulheres assassinadas, apenas por serem mulheres, ou seja, vítimas de feminicídio. Além disso, outras 243 foram mortas em crimes classificados como homicídio doloso (intenção de matar).

    “Os índices são altos. Não mudou nada. Aliás, a cada ano aumenta. Tudo o que vemos é a mulher sofrer violência desde quando nasce até quando ela morre”, comenta a socióloga Valéria Marques.

    A especialista explica que a sociedade enxerga a violência contra a mulher “ainda com um olhar muito patriarcalista”. Ela diz que veem o homem como o dono da casa, que manda em tudo, inclusive na mulher, pois quer saber onde ela vai e o que vai fazer. Valéria é pesquisadora da violência contra a mulher na capital amazonense e expõe dados alarmantes. Segundo a pesquisa feita por ela, os bairros com maior registro de violência contra a mulher são Jorge Teixeira (Zona Leste), Cidade de Deus e Cidade Nova (ambos na Zona Norte). 

    Socióloga Valéria Marques também é ativista pelos direitos das mulheres
    Socióloga Valéria Marques também é ativista pelos direitos das mulheres | Foto: Reprodução/Facebook

    “Não bastassem as agressões, quando as mulheres vão na delegacia para fazer denúncia, têm um atendimento desumanizado. O escrivão resume tudo a um papel e fica por isso mesmo. A justiça é lenta, como o caso de Lorena Baptista, que já dura 10 anos. E isso porque a família dela tem uma melhor situação financeira. Agora imagine as vítimas que não têm condições de pagar bom advogado, nem tem conhecimento dos direitos. É uma situação muito difícil”, ressalta a socióloga.

     Ciclo da Violência

    Conceito divide a violência em três partes: tensão, agressão e reconciliação
    Conceito divide a violência em três partes: tensão, agressão e reconciliação | Foto: Leonardo Mota

    Valéria explica, ainda, que é preciso ficar atenta ao chamado ‘ciclo da violência’. O conceito é explicado no livro ‘Quando eu disse basta’, das jornalistas Lia dos Santos e Valdeniza Vasques, que reúne relatos de violência contra a mulher.

    Na obra, as autoras contam que o conceito de ciclo da violência foi observado pela psicóloga norte-americana Lenore Walker, em 1979. “O ciclo descreve padrões de comportamento abusivo dentro de uma relação que são sistematicamente repetidos”. 

    O conceito divide a violência em três partes: tensão, agressão e reconciliação. O que acontece é que uma mulher passa pelas três fases repetidas vezes, até que em determinado momento, quando volta para fase 2, da agressão, acaba sendo morta. 

     

    Ciclo da violência dividido em três fases
    Ciclo da violência dividido em três fases | Foto: Alexandre Sanches

    “O marido ou namorado bate na mulher, depois faz as pazes com ela. Daí transam, depois brigam, pedem desculpas de novo, até que, pela última vez, brigam e o homem a mata”, explica a socióloga Valéria Marques. 

     A delegada Débora Mafra explica que o perigo está na terceira fase, a reconciliação. “Agressões sempre começam com o relacionamento abusivo. O casal começa bem e ele é o homem dos sonhos. Depois se relaciona com vozes de comando com a mulher. Diz que ela não pode mais trabalhar, visitar a mãe ou vestir tal roupa. Depois ele age contra a integridade física da vítima. Ele bate, empurra, entre outras agressões. A mulher se separa, às vezes, mas depois o homem pede perdão e diz que mudou. É aí que mora o perigo, porque não demora até que ele repita tudo e enfim cometa o feminicídio”, afirma a delegada.

     

    Delegada Débora Mafra
    Delegada Débora Mafra | Foto: Arquivo Em Tempo

    Uma saída

    A profissional explica que, apesar do crescimento do crime, em Manaus há uma rede especializada em combater o feminicídio. “Quando a mulher denuncia o companheiro, ela já tem um atendimento psicossocial. Além disso, pode ter acesso ao abrigo, se precisar, inclusive com os filhos ou mesmo ter oportunidades de emprego, para que deixe de depender financeiramente do agressor, se for o caso”, diz Débora.

     Por fim, ela ressalta que a polícia está preparada para atender as ocorrências com a ronda Maria da Penha, em que a viatura vai até onde a mulher estiver quantas vezes ela pedir, até que se sinta segura. Além disso, a vítima tem disponível o botão do pânico em seu aparelho celular, para acionar o ramal de emergência da polícia, específico para esse fim.

    “A punição para quem comete feminicídio é de 12 a 30 anos de prisão. E acredito que vão aumentar essas punições, porque estamos tentando combater. Não adianta a mulher perdoar essas agressões. Aliás, isso faz parte do ciclo da violência, como já sabemos. A vítima tem que deixar o agressor mesmo. Vale mais a pena e é muito melhor do que colocar a vida em perigo e até ser morta, com certeza”, finaliza a delegada. 

     *Colaborou Suyanne Lima.