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    Refugiados


    Venezuelanos empreendem para recomeçar a vida em Manaus

    Inclusão no mercado de trabalho ainda é desafio que os venezuelanos precisam enfrentar para recomeçar a vida em Manaus

    Irmãos vendem doces em ônibus para ter dinheiro para sustentar a família | Foto: Lucas Silva

    Irmãos vendem doces em ônibus para ter dinheiro para sustentar a família
    Irmãos vendem doces em ônibus para ter dinheiro para sustentar a família | Foto: Lucas Silva

    Manaus - O Brasil possui atualmente o maior número de refugiados venezuelanos reconhecidos na América Latina. Até o momento, mais de 37 mil venezuelanas e venezuelanos foram reconhecidos no país. Os dados são da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O Norte do Brasil tem sido a maior porta de entrada.

    Mauyoli Yaguare, 31, lembra exatamente o dia em que ela e o marido chegaram ao Brasil: 20 de junho de  2018. Ela relata que os primeiros três meses, em Boa Vista (RR), foram bem difíceis. “Morávamos na rua, em praças. Trouxemos material para vender e arrumar dinheiro para alugar uma casa, mas só conseguimos para comer”. 

    A ONU estima que mais de 4,7 milhões de venezuelanos já deixaram seu país, assim como Mauyoli e o marido, Juan Morillo. Este é um dos maiores movimentos populacionais da história recente da América Latina.  Segundo dados da Polícia Federal de setembro de 2019, 224 mil venezuelanos estariam no Brasil. Estima-se que mais de 20 mil estejam no Amazonas.

    “A ONU ajudou a gente e conseguimos vir a Manaus, aqui tudo mudou para melhor, graça Deus”, compartilha Mauyoli. Assim como ela, muitos venezuelanos vêm a Manaus em busca de oportunidades para reconstruir sua vida. Um dos grandes obstáculos que encontram é a inserção no mercado de trabalho. O empreendedorismo acaba sendo uma das melhores alternativas que encontram. 

    Juan Morillo e Mauyoli Yaguare
    Juan Morillo e Mauyoli Yaguare | Foto: Arquivo Pessoal

    Ela relata que conheceu na capital do Amazonas pessoas que a ajudaram muito, doando materiais para fazer artesanato. Foi assim que conseguiu abrir seu empreendimento aqui no Brasil, uma lojinha virtual onde vende amigurumis - uma técnica japonesa para criar pequenos bonecos feitos de crochê ou tricô. 

    A loja no Instagram é atualmente a única fonte de renda que a família de Mauyoli tem. “Sempre tem altos e baixos”, pontua a empreendedora. Seu objetivo é juntar dinheiro para trazer seus pais e os filhos, Mauro e Esteban, que ficaram na Venezuela. “Só desejo que chegue esse momento”, conta. 

    Os irmãos Luis, José e Josué Vargas também se encontram na mesma situação. Luis, 30, é o mais velho e foi o primeiro a vir para Manaus. "Na Venezuela está difícil, com o salário mínimo de um mês de trabalho minha mãe consegue comprar apenas um pacote de arroz", conta.

    No seu país, Luis era técnico hidráulico e proprietário de uma borracharia e com a venda de trufas, mangarataia e pirulitos, ele consegue pagar aluguel, luz e água. Quando seus irmãos chegaram, ele logo comprou uma caixa de isopor e uma caixinha de som para cada um.  

     Luis, José e Josué Vargas
    Luis, José e Josué Vargas | Foto: Lucas Silva

    Além de vender doces, os irmãos também cantam grandes sucessos do momento em português e espanhol. Toda a família tem envolvimento com a música. "Cheguei com minha esposa e meu filho há um ano e meio e foi muito complicado, foram sete dias viajando de ônibus", compartilha Luis

    Luis pediu abrigo a uma senhora informando que não tinha dinheiro para pagar aluguel. Ela lhe deu um voto de confiança e permitiu que ele ficasse lá até conseguir o valor do aluguel. Embora seja difícil a vida nos coletivos, ele afirma que dá para viver bem. "Isso aqui é o paraíso", diz. 

    Mercado de trabalho 

    Para que estes refugiados possam reconstruir suas vidas, é preciso que tenham meios de sustento. Pensando nisso, foi criada a organização não governamental (ONG) Hermanitos Manaus. 

    Atuando na capital amazonense desde fevereiro de 2019, a Hermanitos já ajudou venezuelanos a se encaixarem em torno de 150 vagas de trabalho. Patricia Pilatti, uma das fundadoras da ONG explica que para cada vaga de emprego, uma média de quatro pessoas é beneficiada, uma vez que estas pessoas precisam ajudar a sustentar suas famílias. 

     Patricia Pilatti, uma das fundadoras da Hermanitos
    Patricia Pilatti, uma das fundadoras da Hermanitos | Foto: Leonardo Mota

    “A gente atua voltado para o mercado de trabalho. Entendemos que a dignidade deles é garantida se eles tiverem um trabalho. Fazemos intermediação entre currículo e vagas de trabalho, por meio do site da ONG. Também atuamos com empreendedorismo, buscamos verificar os perfis empreendedores e tentamos desenvolvê-los”, explica. 

    Os venezuelanos que têm interesse em empreender podem apresentar o projeto para a equipe da Hermanitos. Lá, eles mostram sua ideia e a ONG vê de que forma podem ajudar a alavancar o negócio. 

    Além de dar suporte para a divulgação do empreendimento, eles podem beneficiar a pessoas com o que chamam de “capital semente”, um financiamento para que a pessoa compre o material inicial do seu negócio. 

    Até o momento, eles já ajudaram empreendimentos de diversos segmentos, como roupinhas de bebê, produção de folha de papel por meio do caule de bananeira, artesanato e culinária.

    A Hermanitos recebe doações de roupas, materiais para casa, fraldas, alimentos, itens de higiene pessoal e até móveis. Interessados em doar, podem comparecer à sede da ONG, situada na rua Manoel Leão, nº 1 - bairro Parque 10 de Novembro, Zona Centro-Sul de Manaus. 

    Os currículos podem ser cadastrados por meio do site www.hermanitos.com.br. Empresas também podem anunciar vagas de emprego por lá. 

    Contexto

    No dia 10 de fevereiro a Cáritas Arquidiocesana de Manaus retomou os atendimentos ao público venezuelano em Manaus. O agente Cáritas, Afonso Brito conta que mais de 150 pessoas compareceram para triagem. 

    Ano passado, ele afirmou que a instituição atendia uma média de 100 venezuelanos por dia. Ele diz que ainda não há como mensurar como serão os atendimentos em 2020. O local tem capacidade para atender até 40 pessoas, mas como a procura é muito grande, fazem o que podem para que todos sejam atendidos.

    Cáritas faz uma triagem com cada pessoa que os procura, assim as pessoas são encaminhadas de acordo com suas necessidades: documentação, moradia, saúde e etc. 

    O fluxo de venezuelanos e venezuelanas é o maior êxodo da história recente da América Latina e a ONU estima que mais de 4,7 milhões de pessoas já deixaram seu país de origem. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar fronteira com o Brasil todos os dias, principalmente para o estado de Roraima.