Dia internacional da mulher


Conheça as histórias das 'Marias' que dominam os volantes em Manaus

Conheça as histórias de superação e independência de duas Marias que hoje trabalham como motoristas de aplicativos em Manaus

Elas contam que o lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive dirigindo | Foto: Lucas Silva

Manaus - "Maria, Maria é um dom, uma certa magia. Uma força que nos alerta. Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta”. O trecho é da canção “Maria, Maria, de Milton Nascimento. A letra traz à tona uma personagem feminina, de presença marcante. Maria é mulher, é povo, Maria é força, personalidade.

Para representar as milhares de Marias do Amazonas, neste 8 de março, o EM TEMPO conta  histórias das “Marias dos Volantes”. Elas migraram de outras profissões para serem motoristas de aplicativos e "dominam" as ruas de Manaus.

 Elas afirmam que lugar de mulher é onde ela quiser e quebram o famoso bordão “mulher no volante, perigo constante”. A frase é substituída por “mulher no volante, qualidade de atendimento garantido”. 

O bom contato com as pessoas é o diferencial da motorista que acumula cinco estrelas
O bom contato com as pessoas é o diferencial da motorista que acumula cinco estrelas | Foto: Lucas Silva

Maria Dora

Viúva há 13 anos e mãe de dois filhos, a amazonense Maria Dora Nepomuceno, de 47 anos, trabalha há três anos como motorista de aplicativo nas ruas de Manaus e é considerada cinco estrelas pela empresa.

O trabalho em 2017 veio no momento em que Maria estava desempregada. Disposta a mudar de profissão e aumentar a renda da família, ela mergulhou em um ramo totalmente desconhecido.

A motivação, segundo ela, são os dois filhos, Ícaro de 27 anos e Yuri, de 25, eles foram os maiores incentivadores da mãe.

“Meus filhos deram a ideia e a maior força. Foram comigo lá na empresa de aplicativos e me ajudaram com o aluguel do carro. Eles dois são os meus maiores incentivadores”, disse Maria.

Elas migraram de outras profissões e ganharam autonomia
Elas migraram de outras profissões e ganharam autonomia | Foto: Lucas Silva

A amazonense relata que já dirige há muito tempo e desbanca quem ache que mulher não sabe dirigir. As dificuldades no início da ação dos aplicativos de corrida em Manaus eram as localizações. O trabalho e profissionalismo da motorista foram essenciais para continuar no ramo. Dirigir com cautela e bom atendimento com os clientes são especialidades de Maria. 

Maria já trabalhou como vendedora por 30 anos, inclusive já foi entregadora técnica em uma concessionária de motos e venda de seguros. Ela fala com orgulho da trajetória que traçou até aqui. Com muito esforço, conquistou espaço na nova profissão. 

“Meus filhos falaram para mim que eu poderia tentar porque sempre gostei de dirigir e conversar com as pessoas. Os outros empregos me ensinaram a tratar bem o cliente. Então uni tudo o que eu sabia para tentar”, relembra. 

Dora participa do dia mais especial das noivas de Manaus
Dora participa do dia mais especial das noivas de Manaus | Foto: Arquivo Pessoal

Do carro aos altares

Maria tem outro diferencial, além de fazer as corridas diárias, faz um trabalho especializado com traslado de noivas no dia do casamento. Ela oferece o melhor serviço em locação de transporte para as noivas que procuram chegar em grande estilo à cerimônia de casamento.

“Eu descobri um outro mercado que supre a necessidade de muitas noivas nesse dia especial. Ela escolhe o carro, eu faço o translado e fico à disposição durante todo o evento, desde a preparação dela até o final da festa”, diz Maria. 

Dirigir vai muito além de apenas levar passageiros. Maria diz que o está realizada com a nova etapa da vida e busca ser a melhor no que faz.

"A minha intenção é fazer com que mulheres saiam do comodismo e comecem a lutar pela vida e por tudo o que elas desejam fazer. Precisamos acordar para a vida, isso só depende de nós", finaliza. 

Maria Elayne é cearense mas têm paixão pela amazônia desde quando veio morar aqui, com dois anos de idade
Maria Elayne é cearense mas têm paixão pela amazônia desde quando veio morar aqui, com dois anos de idade | Foto: Lucas Silva

De bombeira civil à motorista

A motorista de aplicativo Maria Elayne Monteiro, no auge dos seus 31 anos, também abriu o coração, contou sua história de superação e falou sobre a quebra de preconceitos quando o assunto é mulher dirigindo.

Ela conta que há dois anos estava desempregada e viu a oportunidade de trabalhar como motorista de aplicativo nas ruas de Manaus.

Casada e com dois filhos, Maria já trabalhou como colaboradora no Distrito Industrial, recepcionista e também já foi Bombeira Civil.

Maria não é daquelas que está satisfeita com aquilo que tem, ela sempre busca mais. O dinheiro das viagens com os clientes compõe a renda mensal da casa, mas também faz parte de outro sonho: pagar a faculdade de fonoaudiologia. 

A motorista conta que já foi bombeira civil antes de ser motorista
A motorista conta que já foi bombeira civil antes de ser motorista | Foto: Arquivo Pessoal

Desafios vencidos 

A cearense com coração manauense conta que os primeiros momentos como motorista de aplicativo foram desafiadores. Ela mora na cidade há 29 anos e precisou se adaptar com a nova rotina. O medo e o preconceito foram as principais pedras no caminho. 

“No início tinha medo de tudo e de todos. O maior problema era o preconceito por ser mulher e por sempre acharem que mulher dirige mau. Depois de algumas viagens fui recebendo elogios através do aplicativo e aí a confiança foi deixando o meu trabalho mais agradável”, relata. 

Entre as dificuldades ainda encontradas no dia a dia da motorista estão a violência e a falta de respeito de alguns passageiros. Maria relembra que precisou cancelar algumas corridas que colocavam em risco a segurança.

“O que tira a paz dessa profissão é a violência em geral. Já pensei em desistir porque acontece muito de passageiros que não pagam a corrida. Em alguns casos, quando pegamos trânsito e o valor altera, acabam falando palavras que me deixam sem graça ou até ferem a nossa imagem. Mas se tem uma coisa que faço é respirar, manter a calma e entrego a Deus”, relata Maria.

Outras situações deixaram a motorista constrangida, entre elas estão a quebra das normas da quantidade de passageiros no veículo.

“Alguns passageiros insistem em colocar mais de quatro pessoas no carro. A gente recusa, mas sempre há aquela frase ‘estamos pagando’, eu simplesmente cancelo porque minha segurança vem em primeiro lugar”, finalizou a motorista. 

O desafio das mulheres no volante vão desde o preconceito até casos de violência verbal
O desafio das mulheres no volante vão desde o preconceito até casos de violência verbal | Foto: Lucas Silva

Casos de preconceito no trânsito

Para casos de preconceitos contra as mulheres no trânsito, a titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), delegada Débora Mafra, chama a atenção para o desrespeito com que muitas mulheres ainda são tratadas ao volante.

Na maioria das ocasiões, as situações podem virar casos de polícia, com consequências mais sérias.

“Dos preconceitos que as mulheres sofrem no trânsito, os que podem gerar um Boletim de Ocorrência são crimes que as pessoas nem sabem. A injúria ocorre com aqueles xingamentos de que a mulher é ‘barbeira’, que ela tirou a CNH pela internet, que lugar de mulher é na cozinha”, enfatizou.

As motoristas dão um  show de profissionalismo no ramo que escolheram
As motoristas dão um show de profissionalismo no ramo que escolheram | Foto: Lucas Silva

Mulheres nos aplicativos

Com mais de 60 mil motoristas cadastrados, cerca de 35 mil trabalham diariamente. O percentual de mulheres nos aplicativos chega a ser cerca de 5%. Ao todo são 1500 mulheres em toda Manaus. O percentual é menor quando se trata de mulheres que atuam todos os dias da semana, segundo informou o representante dos motoristas de aplicativos no estado, Alexandre Matias, mediante pesquisas em cadastros e levantamentos de grupos.