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    Depoimento


    ‘Realidade em hospitais é dura’, diz médico sobre Covid-19 no Amazonas

    O médico que trabalha com pacientes em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) conta como é o desafio diário de salvar vidas em meio à pandemia mundial do coronavírus

    Médico conta como tem sido a guerra contra a doença
    Médico conta como tem sido a guerra contra a doença | Foto: Michell Mello/Secom

     

    Manaus – “Nunca tínhamos passado por algo parecido. É o maior desafio da carreira”. A declaração é do médico cardiologista Felipe Vitorio sobre o que está vivenciando nos hospitais de Manaus por conta da pandemia do novo coronavírus.

    O sistema de saúde no Amazonas está em colapso, são 2.479 casos confirmados do novo coronavírus no estado e 206 mortes, conforme o último boletim do governo. Vários pacientes lutam por um respirador. A taxa de ocupação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em todo o estado é 96% a 97%, a capital Manaus já atingiu 100%.

    | Foto: Arquivo pessoal

    O médico é formado pela  Universidade Federal do Rio de Janeiro e mora em Manaus há dois anos. Logo quando chegou à capital amazonense passou no concurso para ser cardiologista do HUGV e trabalha lá desde novembro de 2018.

    Ele trabalha no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), Hospital Militar de Manaus (HMAM), no Adventista, além de realizar procedimentos cardiológicos intervencionistas nos hospitais Check Up e Rio Negro. O médico conta como tem sido as últimas semanas de contato com pacientes graves do novo Coronavírus. 

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    Formado há mais de 10 anos, Felipe Vitório relembra do grande surto da doença H1N1 e relata que o Coronavírus é totalmente diferente daquilo que a medicina já viu.

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    Neste período todo, desde quando me formei, nunca vi nada igual ao cenário atual. O sistema está, praticamente todo, parando para atender apenas uma doença. Os hospitais tendo que parar as atividades de ambulatórios, consultas e exames ou reduzir para manter o que é essencial, mas voltando toda a sua capacidade para manter só o que é essencial. É uma coisa que nunca tínhamos visto. Posso dizer que esse é o momento mais crítico que já vivemos até agora "

    Dr. Felipe Vitorio, Médico cardiologista - CRM AM 6843

    Diretamente na UTI

    Dr. Felipe trabalha diretamente com os pacientes mais graves que estão internados nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Ele relata o perfil desses pacientes e ressalta que as equipes médicas superam desafios diários para salvar vidas. 

    O médico conta como tem sido a rotina de trabalho intensivo na UTI
    O médico conta como tem sido a rotina de trabalho intensivo na UTI | Foto: Arquivo pessoal

    “Nossa preocupação está nos perfis dos pacientes. Existem pessoas que não desenvolvem quadros graves, existem aqueles que estão com o vírus, mas se permanecerem em casa vão melhorar e outros mais graves que precisam receber o tratamento em UTI. Eu tenho contato com esses mais graves, são pacientes extremamente difíceis de tratar. Praticamente todos usam a ventilação mecânica e o pulmão é muito acometido. São coisas assim que nós não estávamos acostumados a ver com quadros de pneumonias e doenças respiratórias. O que a gente percebe é que muitos morrem pela gravidade da doença. Todos os pacientes com o Coronavírus demoram para se recuperar e é bem difícil”, disse.

    O médico relembra também todo o esforço das equipes que trabalham direto com os contaminados. Embora haja a pesquisa com tratamento da Cloroquina em pacientes no Amazonas, ainda é cedo saber como serão os próximos dias em busca de um tratamento eficaz contra a doença. 

    O médico tem contato direto com pacientes mais graves da doença
    O médico tem contato direto com pacientes mais graves da doença | Foto: reprodução

    “Equipes médicas e de enfermagem têm muito trabalho, pois o acompanhamento é constante. A gente tenta dar todo o suporte, mas passam muito tempo internado e consequentemente o quadro pode agravar com o passar do tempo. Ainda restam muitas dúvidas sobre o tratamento, mas nenhum, que já ouvimos ou lemos, foi tão eficaz. Estamos numa fase muito inicial da doença. É muito complexo e atrapalha bastante o nosso trabalho. O que a gente faz é dar as medicações, de acordo com as orientações que temos. O que nos deixa preocupados são os perfis desses pacientes mais graves e que demoram a melhorar”, enfatizou Felipe. 

    Família e profissão 

    Dr. Felipe tem esposa e um filho de três anos. Ele conta que o momento de trabalho é intenso, mas a preocupação também está na família. A rotina é de cuidados com o contato durante os plantões médicos e quando chega em casa diariamente. 

    O médico explica que toma todos os cuidados nos plantões para proteger a família
    O médico explica que toma todos os cuidados nos plantões para proteger a família | Foto: Arquivo pessoal

    “É complicado porque eu tenho que ir para o hospital. Não existe essa de escolher. Eu tenho que ir. Lá tem pessoas que precisam de mim e eu preciso oferecer minha ajuda nessa pandemia. ‘Não ir’ não é uma opção para mim. Eu volto para casa e tenho todo cuidado porque por conta da minha família. Uso os materiais de proteção, até porque tenho o contato direto com pacientes gravíssimos. O que fizemos ultimamente foi evitar o contato com os meus pais e os dos da minha espoca, que são idosos, explicou Felipe.

    Colegas de profissão que se foram 

    O que mais marcou as últimas semanas na rotina do médico foram as notícias de mortes de colegas na saúde. Conforme dados da Fundação de Vigilância e Saúde (FVS), até o dia 18 de abril, 376 profissionais testaram positivo, entre eles estão 56 médicos, 69 enfermeiros e 154 técnicos. Ao todo foram 983 afastamentos. 

    “O que me marcou mais não foram os casos que tive contato, mas saber das mortes de colegas de profissão mexe muito com a gente. São óbitos que poderiam ser evitadas caso não estivéssemos  vivendo essa situação tão grave. Pode ser que muitos tivessem sido contaminados em casa ou nas unidades, não sabemos, mas isso nos deixa tristes e comovidos, pois são colegas de profissão. Isso nos preocupa, não estamos acostumados,  não é uma notícia comum", disse o médico consternado. 

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