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    Pandemia


    A rotina tensa dos coveiros em tempos de coronavírus

    Eles acompanham de perto o sofrimento de quem nem conhecem, relatam que o sentimento está mais intenso e que nunca imaginavam viver uma pandemia

    "Meu trabalho é essencial nesse momento, não posso ficar em casa ou trabalhar de casa", relatou o coveiro Jorge.
    "Meu trabalho é essencial nesse momento, não posso ficar em casa ou trabalhar de casa", relatou o coveiro Jorge. | Foto: Lucas Silva/Em Tempo

    Manaus- “Tudo mudou na minha vida, eu nunca imaginei viver isso”, essa é a declaração do coveiro Jorge Gomes, que atua na profissão há 12 anos. Ele relatou o que já viu e o que esta presenciando nesse período de pandemia. Para ele, são dias tristes e inimagináveis. Atualmente, o profissional trabalha no cemitério Santa Helena, localizado na avenida Padre Agostinho Caballero, bairro São Raimundo (Zona Oeste).

    Jorge é casado e tem um filho de seis anos e para ele a rotina diária não é mais a mesma. Com intuito de proteger a si mesmo e a família, eles adotaram métodos de higiene mais rigorosos em casa. São anos de trabalho árduo cavando covas de todos os tamanhos, ouvindo histórias, observando o sofrimento e dor das pessoas mas nunca pensou viver um momento de pandemia.

    “Chego em casa e tomo banho do lado de fora. Tenho sabonete diferente, minha toalha é reservada, tudo limpo e organizado. Minha roupa eu tiro e coloco em um saco para lavar, a mesma coisa faço com os sapatos. Tenho medo que minha família pegue, por conta do meu trabalho, mas tenho tomado cuidado. Meu trabalho é essencial nesse momento, não posso ficar em casa ou trabalhar de casa. Respeito as medidas de higiene, faço minhas orações e venho trabalhar”, relatou Jorge.

    O coveiro explicou como tem funcionado o dia-a-dia no cemitério, a questão da segurança no trabalho. Além de usarem materiais descartáveis, tudo que vai para o lixo é bem lacrado e Jorge explicou o motivo.

    “Precisamos lacrar bem os sacos de lixos, é uma maneira de proteger a equipe de coleta de lixo e também os moradores de rua que buscam comida na lixeira. Sem contar os catadores de latas que na maioria das vezes mexem nas lixeiras. Estamos tomando todo o cuidado, trabalhando com luvas, máscaras, macacões e usando álcool em gel”, contou o coveiro.

    No maior cemitério de Manaus

    "São anos de trabalho árduo cavando covas de todos os tamanhos, ouvindo histórias, observando o sofrimento e dor das pessoas", relata o coveiro Genésio
    "São anos de trabalho árduo cavando covas de todos os tamanhos, ouvindo histórias, observando o sofrimento e dor das pessoas", relata o coveiro Genésio | Foto: Lucas Silva

    Genésio Filho atua na profissão de coveiro há 15 anos. Casado, pai e padrasto, o coveiro falou da dinâmica do trabalho e sobre a importância da fé nesse momento. Afirmou que antes de sair de casa para ir trabalhar, ele e esposa oram por dias melhores.

    “Trabalhamos uma semana e na outra folgamos. Faça chuva ou faça sol estamos no serviço. Por mim, essa pandemia acabava hoje, agora. Mas como não tenho esse poder me resta orar e acreditar na proteção divina. Minha esposa é evangélica, uma mulher de oração. Ela e as irmãs da igreja onde congrega estão intercedendo por mim e eu me sinto protegido por Deus”, declarou Genésio.

    O coveiro é funcionário do Cemitério Parque Tarumã, situado na avenida do Turismo, bairro Tarumã (Zona Norte). De acordo com Genésio, no Tarumã todos as medidas de segurança também estão sendo obedecidas. Dono de um bom humor, ele explicou que nesse momento é preciso ter calma e paciência.

    “Quando vamos enterrar alguém com a Covid-19, usamos todos os equipamentos necessários, inclusive óculos. As luvas são indispensáveis na hora de tocar no caixão. As escavadeiras estão ajudando muito, pois, assim não precisamos mais estar cavando as covas. Tudo aqui é triste, muitas famílias em luto. Mas quando eu saio daqui procuro esquecer o que presencio. Na minha folga, faço um churrasco, bebo uma cerveja e fico em casa”, explicou o profissional.

    Sobre mortes

    No boletim da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) divulgado na última sexta-feira (24), Manaus está com 2.481 infectados e confirmou-se 207 mortes. O interior soma 713 infectados com 48 mortes. Contabilizando 255 mortes por coronavírus no Amazonas. De acordo com Rosemary Pinto, gestora da FVS, esse número tende a crescer nos próximos dias.

    “Não é uma boa notícia, não gostaríamos de dizer que as pessoas estão morrendo. Mas nas próximas semana será ainda mais difícil. A instrução é ficar em casa. Não sabemos quem tem a doença, qualquer um pode estar contaminado. O vírus é invisível, qualquer pessoas pode transmitir. A única alternativa é ficar em casa, lavar sempre as mãos, utilizar da etiqueta respiratória na hora de espirrar (colocar o rosto na curva do braço)”, explicou a diretora-presidente.