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    Coronavírus


    Sem medicamento e tratamento: medo de soropositivos na era da Covid-19

    Preocupações estão relacionadas ao novo coronavírus e problemas com medicamentos, principalmente, no interior do Amazonas

    Amazonas apareceu com a segunda maior taxa de mortalidade por HIV/AIDS | Foto: divulgação

    Manaus – Até o momento, não há fortes evidências de que pessoas vivendo com HIV/AIDS (PVHIVA) corram um risco especialmente maior de contrair a Covid-19. Contudo infecções oportunistas que causam insuficiência respiratória e diabetes, por exemplo, podem levar essas pessoas a fazerem parte do grupo de risco. No Amazonas, soropositivos revelam que estão sem medicamentos e com tratamentos interrompidos.

    Segundo o Boletim Epidemiológico de 2018, divulgado pelo Ministério da Saúde (MS), o Amazonas apareceu com a segunda maior taxa de mortalidade por HIV/AIDS. Já a capital amazonense, em 2019, apareceu na quinta posição do ranking de capitais do país com mais diagnósticos de novos casos de HIV. Segundo a Fundação Medicina Tropical, mais de 330 casos foram diagnosticados nos primeiros sete meses de 2019, neste período, 124 pacientes soropositivos morreram.

    Evalcilene Santos, 42 anos, é coordenadora do Fórum Amazonas de OSC IST HIV AIDS, Hepatites Virais e Tuberculose, e explica que nesse momento o atendimento de PVHIVA não está acontecendo. “Por conta da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, as consultas de rotina foram canceladas ou então transferidas para outras datas, que ainda não nos foram informadas”, revela.

    Segundo ela, o fornecimento de medicamentos antirretrovirais ainda está ocorrendo em Manaus, mas para os municípios do interior do Amazonas a situação fica mais complicada com o passar dos dias.

    “Aqui na capital eles estão distribuindo medicamentos para três meses, ou seja, 90 dias. Contudo, PVHIVA que moram no interior do estado têm dificuldades de acesso aos antirretrovirais, pois além dos decretos do governo em relação ao transporte urbano e fluvial, ainda existem os riscos de não respeitar o isolamento”, esclarece Evalcilene.

    Reunião com os membros do Fórum Amazonas de OSC IST HIV AIDS, Hepatites Virais e Tuberculose
    Reunião com os membros do Fórum Amazonas de OSC IST HIV AIDS, Hepatites Virais e Tuberculose | Foto: Divulgação

    A coordenadora do Fórum ainda ressalta que -  mesmo sabendo que não existem evidências científicas que comprovem que PVHIVA estejam no grupo de risco – ela se sente preocupada, pois sabe que existem infecções oportunistas. “Há outras doenças, como insuficiência cardíaca e respiratória, diabetes e tuberculose. Com a falta de tratamentos e de leitos no sistema de saúde, temos outro complicador. A descontinuidade desses tratamentos é muito preocupante para nós”, afirma.

    Outra participante do Fórum, que solicitou que seu nome não fosse divulgado, tem 47 anos, vive no município de Manacapuru e é uma mulher vivendo com HIV/AIDS há 20 anos. Ela revela que sente muito medo do novo coronavírus e que teme a vulnerabilidade de outras pessoas do grupo.

    “Mesmo com as informações científicas disponíveis, sabemos que o vírus não é bom para ninguém e muito menos para os colegas que tem alguma doença oportunista. Aliás, essas pessoas não estão recebendo medicamento gratuito para as doenças em questão, o que dificulta ainda mais. Além disso, o atendimento que recebemos aqui no interior não é dos melhores. Muitos estão até desistindo do tratamento, porque encontram muitas barreiras para continuar”, desabafa.

    O preconceito ainda é um grande problema para as PVHIVA
    O preconceito ainda é um grande problema para as PVHIVA | Foto: Fernando Frazão

    Além disso, ela relata que o preconceito ainda é um grande problema para as PVHIVA, uma vez que ainda existem muitos estigmas ligados à doença e essas pessoas precisavam divulgar a sorologia para conseguir tratamento e medicamentos.

    “Sofremos muita discriminação e sabemos que o governo trabalha nas campanhas de prevenção, mas não dá atenção para nós que já temos o vírus. Nós, que somos do interior, temos menos visibilidade ainda. Nós precisamos nos alimentar bem para tomar essas medicações, por exemplo, mas como vamos fazer isso se não temos dinheiro o suficiente e ninguém nos fornece auxílio?”, questiona.

    Ela e Evalcilene descrevem que estão seguindo todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde (MS) para permanecerem seguras em relação à Covid-19.

    A Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) informou ao EM TEMPO que, na intenção de evitar aglomerações e reduzir a circulação de pacientes, viabilizou a dispensação de medicamentos para três meses aos pacientes que fazem uso de medicamentos específicos, para que possam ficar em casa e ter o tratamento necessário.

    A FMT ressalta ainda que continua com os atendimentos a pacientes de primeira vez, bem como serviços de urgência e emergência. Orienta ainda, no caso de pacientes do interior, que esses encaminhem um representante autorizado por uma carta, de próprio punho, assinada, com a foto de um documento de identificação do paciente.

    Estudos e recomendações

    O infectologista Vinícius Borges, mais conhecido como Doutor Maravilha nas redes sociais, fez um post explicando as dúvidas de pacientes soropositivos preocupados com a pandemia.

    Segundo ele, até o momento, não há evidências de que pessoas vivendo com HIV corram maior risco de infecção pela Covid-19 ou mesmo que apresentem uma forma mais grave da doença. Borges afirma que os principais fatores de risco para mortalidade são a idade avançada e comorbidades, incluindo doenças renais e diabetes.

    Infectologista Vinícius Borges
    Infectologista Vinícius Borges | Foto: Reprodução/Internet

    O Ministério da Saúde, por meio do Departamento das Doenças de Condições Crônicas e infecções Sexualmente Transmissíveis (DCCI), enviou às coordenações estaduais e municipais dos programas de HIV/Aids o Oficio Circular nº 8, em que orienta o cuidado das PVHIVA no contexto da pandemia.

    Segundo o ofício, as recomendações são as mesmas medidas já indicadas pelo MS: higiene frequente das mãos com água e sabão ou álcool gel (70º); evitar o toque das mãos no nariz, boca e olhos; evitar contato com pessoas doentes; cobrir a boca e nariz ao espirrar, com o cotovelo flexionado ou um lenço descartável; ficar em casa e evitar contato com pessoas quando estiver doente; limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência.

    Preconceito e discriminação

    A maioria das PVHIVA no Brasil já passou por pelo menos alguma situação de discriminação ao longo de suas vidas. É o que indica um estudo feito com 1.784 pessoas, em sete capitais brasileiras, entre abril e agosto de 2019. Os dados fazem parte do Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS – Brasil, realizado pela primeira vez no país.

    Ato pede o fim do preconceito contra as pessoas com HIV/aids no Rio de Janeiro
    Ato pede o fim do preconceito contra as pessoas com HIV/aids no Rio de Janeiro | Foto: Fernando Frazão

    De acordo com a pesquisa, 64,1% das pessoas entrevistadas já́ sofreram alguma forma de estigma ou discriminação pelo fato de viverem com HIV/AIDS. Comentários discriminatórios ou especulativos já afetaram 46,3% delas, enquanto 41% do grupo diz ter sido alvo de comentários feitos por membros da própria família.

    O levantamento também evidencia que muitas destas pessoas já passaram por outras situações de discriminação, incluindo assédio verbal (25,3%), perda de fonte de renda ou emprego (19,6%) e até mesmo agressões físicas (6,0%).