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    Especial Pandemia


    Coronavírus: a 2ª crise para imigrantes que buscam esperança em Manaus

    A nova doença paralisou grandes setores da economia mundial e afeta diretamente o trabalho informal, que é a principal atividade desses imigrantes no Amazonas

    A pandemia está paralisando grandes setores da economia mundial e afetando diretamente nos trabalhos informais
    A pandemia está paralisando grandes setores da economia mundial e afetando diretamente nos trabalhos informais | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Após sofrerem com desastres naturais, como a catástrofe ocorrida no Haiti - que foi afetado por um terremoto em 2010, e uma crise socioeconômica e política que afeta a Venezuela, milhares de imigrantes dessas nacionalidades buscaram em terras amazonenses o recomeço. Apesar das poucas oportunidades, a maioria dos estrangeiros luta arduamente para conseguir mudar de vida e ajudar os familiares que ficaram nos países de origem. Quando tudo parecia "entrar nos trilhos", surgiu outra ameaça: a pandemia do novo coronavírus. A nova doença paralisou grandes setores da economia mundial e afeta diretamente o trabalho informal, que é a principal atividade desses imigrantes no Amazonas.

    Após fugir das crises em seus países, os imigrantes se deparam com uma nova no Brasil. Devido ao decreto governamental, que determina que apenas estabelecimentos que prestam serviços essenciais podem funcionar nesse período de isolamento social, o movimento de consumidores despencou nas ruas de Manaus no último mês. A reportagem percorreu grandes áreas comerciais da capital e presenciou o inimaginável: uma redução considerável na movimentação de pessoas.

    Baixa movimentação

    Quinta-feira (23), o relógio marca 16h e a região da Praça da Matriz, no Centro, está completamente. Cena bem diferente do registrado há menos de dois meses. Lojas fechadas e o fluxo pequeno de pessoas era visto apenas no terminal de ônibus. Lá encontramos os venezuelanos Lerwinson Mendoza, de 26 anos, e Lisbeth Antuarez, 41, genro e sogra, respectivamente.

    Cansados, os dois aparentavam tristeza após percorrem quilômetros a pé e voltarem para casa ainda com alguns picolés nos carrinhos. A venda é a única fonte de renda deles aqui na cidade. É desse trabalho também que eles fazem economias e mandam recursos para outros familiares que continuam na Venezuela.

    "Sobrevivo primeiro comprando comida, não deu ainda para comprar máscara", relata dona Antuarez se arrisca
    "Sobrevivo primeiro comprando comida, não deu ainda para comprar máscara", relata dona Antuarez se arrisca | Foto: Lucas Silva

    Mesmo contrariando as medidas de prevenção, incluindo a recomendação de ficar em casa, e sem dinheiro para comprar ou confeccionar uma máscara para poder trabalhar de forma segura nas ruas, dona Antuarez relata que a situação em casa está crítica.

    “Todos os dias esperamos pela misericórdia de Deus. Sobrevivo para comprar comida e não deu ainda para comprar máscara. Ainda me esforço para mandar dinheiro para os meus filhos que estão longe ”, disse.

    “Vivo em Manaus há três meses, aqui já criei muitas expectativas e pretendo trazer outros familiares, mas atualmente está muito difícil. Já cheguei a vender 100 picolés em um dia, hoje não passa de 30. Cada um custa um real e, no final do dia, metade do valor adquirido fica com a empresa que fornece o produto”, contou Lisbeth.

    Lerwinson Mendoza espera por tempos melhores na capital amazonense
    Lerwinson Mendoza espera por tempos melhores na capital amazonense | Foto: Lucas Silva

    Lerwinson que chegou na capital há duas semanas e mora alugado com a sogra, esposa e o filho de dois anos, falou sobre a escassez que vem presenciando desde que percorreu a cidade de Boa Vista.

    “Lá existem muitos conterrâneos e quase não há alternativas de trabalho. Estava muito complicado. Aqui minha sogra me ajudou e estamos lutando juntos. Esperamos que venha melhorar, quando tudo isso passar. Infelizmente, vamos ter que continuar nos arriscando para sobreviver. Não dá para parar, outras pessoas dependem de nós”, enfatizou o rapaz. 

    Na despedida da nossa entrevista, dona Lisbeth informou que almeja também receber o auxílio emergencial do governo federal.

    “Quero muito me cadastrar, tenho CPF e outros documentos, mas ninguém da família aqui em Manaus possui celular”, contou.

    Auxílio

    A pastoral dos Migrantes da Arquidiocese de Manaus explicou que não há política especifica de auxílio para os migrantes e/ou refugiados, contudo, eles podem se cadastrar para receber os benefícios assistenciais que o governo. Porém, todos devem ter o CPF.

    Vendedora de picolés, a venezuelana possui CPF e tem esperança em receber auxilio do governo federal
    Vendedora de picolés, a venezuelana possui CPF e tem esperança em receber auxilio do governo federal | Foto: Lucas Silva

    Amparados pela solidariedade

    A equipe de reportagem percorreu trechos da avenida Autaz Mirim, localidade onde se concentra o comércio na Zona Leste de Manaus. No meio fio da via, avistamos a venezuelana Adriana Rodriguez, de 20 anos. Ele estava sentada ao lado da caixa de isopor, observando seu esposo, Francisco Leon, 32, que vendia água no semáforo.  

    Ela explicou que antes, a cada sinal fechado, não tinha como ela ficar parada e, junto com o companheiro, conseguia vender muitas garrafinhas de água.

    “O fluxo de carro diminuiu muito, antes não voltava nada para casa. Vendíamos aproximadamente cinco caixas de água por dia e hoje não passam de duas”, falou. 

    Vulnerável ao contágio do novo coronavírus, devido ao contato direto com clientes e dinheiro, a jovem relatou sobre as alternativas usadas para manter a higiene na rua.

    “Não temos máscaras, mas as vezes fazemos pausas e vamos até um supermercado para usar o banheiro. Lá, nós conseguimos lavar as mãos e os rostos. Tomamos muito cuidado também quando chegamos em casa. Deixamos todos os equipamentos de trabalho fora e nos limpamos antes de entrar”, disse Adriana.

    O casal Adriana Rodriguez e Francisco Leon
    O casal Adriana Rodriguez e Francisco Leon | Foto: Daniel Landazuri

    Leon contou que a família tem recebido ajuda de vizinhos e amigos que fizeram aqui em Manaus. “Nesse período que as coisas ficaram difíceis, o dono da quitinete que moramos abriu mão de cobrar o aluguel. Ele está sendo muito generoso. Os alimentos estão caros e quase não estamos tendo recursos. É com a solidariedade de outras pessoas que estamos nos mantendo”, contou.

    Contaminados

    Apesar dos riscos que os estrangeiros estão correndo ao continuarem nas ruas da capital amazonense, há apenas um registro de imigrante confirmado com a Covid-19 no Estado, conforme dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS).

    O órgão esclareceu que os refugiados recebem cidadania brasileira e entram nos registros da FVS como brasileiros e não como estrangeiros.

    De acordo com um dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), a saúde é um direito de todos os cidadãos que estiverem em território nacional, inclusive os estrangeiros, independentes de serem estudantes, turistas ou refugiados, com ou sem visto.

    Imigrantes no Estado

    Conforme dados do Ministério da Justiça, em dez anos, mais de 20 mil haitianos foram atendidos nos postos de imigração localizados em Tabatinga e Manaus. Entretanto, o órgão não apontou a quantidade de haitianos que vivem atualmente no Estado, tendo em vista que esse controle é feito pela Polícia Federal (PF).

    Em relação aos números de venezuelanos que moram no Amazonas, estima-se que o número está entre 16 mil e 20 mil, conforme dados da PF informados ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), em setembro de 2019. 

    Chegada de imigrantes venezuelanos, em Manaus, em 2018
    Chegada de imigrantes venezuelanos, em Manaus, em 2018 | Foto: Divulgação

    Abrigos

    A Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc), possui quatro espaços de acolhimento provisório, sendo dois desses implantados recentemente, como forma de reduzir a aglomeração e reforçar medidas de prevenção contra o novo coronavírus.

    Nos locais são atendidos, em parceria com as agências da Organização das Nações Unidas (ONU), 615 indígenas venezuelanos da etnia Warao. Segundo recomendações dos demais órgãos de controle e humanitários envolvidos nesse atendimento, os novos locais de acolhimento não são divulgados, a fim de evitar a exposição desse público. 

    Nos dois novos acolhimentos, a alimentação é feita pela entrega de refeições diárias prontas (café, almoço e jantar), além do reforço na higienização. Já nos abrigos do Centro e Alfredo Nascimento, os acolhidos recebem kits de alimentação semanal, pois eles mesmos preparam os alimentos. 

    Todos recebem orientações de limpeza e higiene, além dos materiais necessários para higienização dos abrigos e dos próprios indígenas. Equipes do Acnur traduziram informes e dialogam com os indígenas na língua warao, quanto à pandemia da Covid-19 e os cuidados com a higiene.