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    Coronavírus


    Comunidades ribeirinhas se protegem como podem da Covid-19

    Maior problema relatado pelos moradores é a falta de atendimento de saúde de qualidade e a distância que precisam percorrer para chegar aos postos

    Ribeirinhos enfrentam dificuldades para receber atendimento médico | Foto: Adriana de Lima

    Manaus – De acordo com o cenário nacional, o Amazonas é o estado que mais está sendo afetado pelo novo coronavírus, desde a chegada da doença ao Brasil. A região conta com diversas comunidades ribeirinhas, locais onde o acesso à atendimentos de saúde já é difícil e agora se tornam ainda mais com a rede pública de saúde em colapso no estado.

    No painel nacional, o Amazonas aparece com uma taxa de mortalidade de 92, a maior entre todos os Estados da Federação, e com uma taxa de incidência de 1158, a segunda maior do Brasil, atrás apenas do Amapá.

    Ane Rodrigues mora no Cacau Pirêra, distrito pertencente ao município de Iranduba. Ela faz parte de um grupo chamado Amigos do Cacau Pirêra, responsável por realizar doações as comunidades do distrito. “A última que ajudamos foi a comunidade Águas Claras. Distribuímos cestas básicas doadas por meio de uma das lives da Marília Mendonça”, explica.

    O grupo Amigos do Cacau Pirêra faz doações as comunidades do distrito
    O grupo Amigos do Cacau Pirêra faz doações as comunidades do distrito | Foto: Adriana de Lima

    Ela conta que na parte onde se localiza essa comunidade e algumas outras, ainda não há casos confirmados de coronavírus. No entanto, os moradores estão preocupados com a doença. “Eles moram em casas de madeira que, muitas vezes, só tem um cômodo. Ficam ali até dez pessoas morando juntas. Eles sabem que se for acometido, todos serão”, revela.

    Ane relata ainda que outro risco que os moradores de Águas Claras correm é o de pegar a Covid-19 e não ter os atendimentos de saúde que necessitam. “Tem um posto de saúde próximo à comunidade, o Vitória Paz, mas lá dentro não há nada. Não tem medicamentos, nem vacinas e, às vezes, nem médicos”, denuncia.

    Ane conta como vivem os moradores e revela suas preocupações
    Ane conta como vivem os moradores e revela suas preocupações | Foto: Adriana de Lima

    Segundo Ane, a Prefeitura do município não procura auxiliar os moradores do distrito e nem da comunidade. Ela diz que os moradores da região estão mais preocupados com a falta de emprego do que com a doença, por isso, em outras áreas do distrito Cacau Pirêra, já houveram até mesmo óbitos por Covid-19.

    Josi Marques e Ney Custodio são moradores da Marina do Davi, comunidade localizada no bairro Tarumã, Zona Oeste de Manaus. Eles relatam que, até o momento, nenhum caso de coronavírus foi confirmado na localidade e que eles estão conseguindo manter o isolamento como podem.

    Marques afirma que todos em sua casa têm receio por conta da doença. “Estamos tomando todas as medidas de prevenção cabíveis e só saímos para ir ao supermercado. Nosso maior medo é o fato de não termos postos de saúde, nem médicos, próximos daqui. Quando precisamos de atendimento temos que nos locomover até outra comunidade, há uns 10 quilômetros daqui”, descreve.

    Marina do Davi, localizada no bairro Tarumã
    Marina do Davi, localizada no bairro Tarumã | Foto: Reprodução/Internet

    Ney, cunhado de Josi, mora em outra casa na mesma região e revela que, além de sair para ir ao mercado, ele também faz alguns serviços de carpinteiro nas proximidades da área. “Aqui ninguém pegou esse vírus ainda, mas alguns conhecidos que já vieram trabalhar por aqui há uns tempos atrás, já estão até morrendo por conta da doença. Isso nos faz ter medo de sair de casa”, salienta.

    Isabel Barsé, moradora e Gestora de Saúde da comunidade e vila Céu do Mapiá, situada nas cabeceiras do Igarapé Mapiá, dentro do município Pauiní, a 30 quilômetros do Rio Purus. Em 1990, a vila se tornou uma espécie de capital da Floresta Nacional Purus.

    A gestora declara que a localidade não conta com nenhum caso de coronavírus, até então. Segundo ela, os moradores contam somente com uma enfermeira, que é paga pela própria comunidade, e com um agende de saúde, pago pela Prefeitura do município.

    Comunidade e vila Céu do Mapiá, situada no município Pauiní
    Comunidade e vila Céu do Mapiá, situada no município Pauiní | Foto: Divulgação

    Isabel declara ainda que, como todos vivem em uma região de mata fechada, estão realmente isolados. Além disso, a comunidade optou por fechar tudo e só permitir a entrada de pessoas que vivem na região. “Estamos mantendo o distanciamento social, usando máscaras e tentando ao máximo seguir as recomendações da Organização de Saúde (OMS). As prevenções e cuidados estão sendo organizados pela própria comunidade” explica.

    "Fluxo específico para o transporte"

    De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SUSAM), o interior do Estado, atendendo média complexidade, conta com 61 unidades de saúde hospitalares, sendo uma em cada município. Em nota, a secretaria informou que criou um fluxo específico para o transporte de suspeitos e de pacientes graves de Covid-19 do interior para capital.

    “Foi montado um serviço de UTI aérea, disponibilizando três aeronaves exclusivas para o transporte de pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e por Covid- 19. As UTIs áreas dispõem de equipe médica intensivista e equipamento completo de suporte à vida, sendo uma aeronave de propulsão a jato, outra aeronave bimotor turbo hélice e uma aeronave monomotor anfíbio (operação água e pista)”, afirmam em nota.

    A medida envolve transporte aéreo, rodoviário e fluvial, segundo a Susam
    A medida envolve transporte aéreo, rodoviário e fluvial, segundo a Susam | Foto: Divulgação

    Em relação as comunidades ribeirinhas, a Susam salienta que o atendimento dessas populações é realizado nas sedes dos municípios, que contam ainda com Unidades Básicas de Saúde (UBS) e postos de saúde, geridas pelas prefeituras e secretarias de saúde municipais. 

    A secretaria informa que o Governo do Amazonas também tem recebido importantes doações da iniciativa privada de EPIs e insumos que estão ajudando no abastecimento das unidades de saúde da capital e do interior do Estado. 

    Doações

    Uma das líderes globais no mercado de carne bovina, a Marfrig anunciou a doação de R$ 1 milhão para a Associação e Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, mantida pela ordem dos franciscanos. A entidade mantém, desde 2019, o Barco Hospital Papa Francisco, que presta atendimento de saúde a mais de mil comunidades ribeirinhas do Pará e do Amazonas.

    Os recursos doados pela Marfrig atenderão mais de mil comunidades ribeirinhas
    Os recursos doados pela Marfrig atenderão mais de mil comunidades ribeirinhas | Foto: Arquivo EM TEMPO

    "O trabalho do Barco Hospital Papa Francisco é fundamental para atender uma população que, infelizmente, é muito carente em serviços de saúde e que está vulnerável à pandemia do novo coronavírus", diz Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig.

    Os recursos doados pela Marfrig serão destinados ao reforço no atendimento e nos demais custos necessários para manter em atividade o barco da entidade, para subsidiar a compra de alimentos enlatados que serão distribuídos a população atendida e a compra de 2.000 testes rápidos para detecção de casos de Covid-19 nessas comunidades.