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    Coronavírus


    Quarentena aumenta volume de lixo em igarapés de Manaus

    Aumento na quantidade de resíduos descartados nos igarapés causa prejuízos aos moradores que residem próximo das águas poluídas

    Moradores que moram perto de igarapés vivenciam na pele o odor do lixo presente nas águas | Foto: Lucas Silva

    Manaus – O isolamento social e a prática do trabalho em casa elevaram o volume de lixo doméstico produzidos nas residências. No primeiro trimestre de 2020 foram coletadas mais de 2,6 mil toneladas de resíduos presente nos igarapés, rios e esgotos de Manaus. Moradores que moram perto de igarapés vivenciam na pele o odor do lixo presente nas águas.

    Nos últimos meses, Manaus sofreu com fortes chuvas que deixaram estragos por toda cidade, entre eles estão desabamento de casa, alagações e deslizamentos de barrancos, um dos fatores que contribuem para que isso aconteça é a quantidade significativa no aumento de lixo presente nas ruas e águas da cidade. A dona de casa Ramona Marinho reside há 17 anos nas margens do igarapé dos Bilhares, localizado no bairro São José. Ela afirma que durante esse período a poluição no local cresce a cada ano, devido ao mau hábito dos demais moradores do local.

    “Quando eu vim morar aqui esse igarapé era limpo, ninguém jogava lixo aqui, porém com o passar dos anos as pessoas foram perdendo os bons modos e tudo passou a ser descartado no igarapé. Hoje jogam de tudo, colchões, pneus e eletrodomésticos, fora o descarte diário de restos de alimentos e lixo doméstico. A eliminação de lixo no igarapé é ainda maior quando chove, parece que quando começa a chover todos jogam os pertences que não são mais usados na água”, explicou a moradora.

    Com o descarte incorreto do lixo o igarapé dos bilhares tem ficado cada vez mais poluído
    Com o descarte incorreto do lixo o igarapé dos bilhares tem ficado cada vez mais poluído | Foto: Lucas Silva

    Ramona reside ao lado esquerdo do igarapé, onde não existe uma barreira que impeça a água poluída de atingir sua residência em dias de chuvas intensas, por isso ela sempre busca orientar os demais moradores a não descartarem resíduos nas águas.

    “Toda vez que eu vejo alguém indo jogar algo no igarapé eu chamo atenção, pois quando chove eu fico prejudicada. Toda vez que tem chuvas muito fortes alaga a minha casa e com a sujeira da água entra ratos e muito lixo, isso me preocupa por conta das crianças que moram comigo, eu sei que a água que entra em casa é suja e traz bactérias e que podem causar doenças graves”, ressaltou a moradora.

    A rua por onde o igarapé passa conta com lixeira pública e recebe a coleta dos lixos, mas segundo Ramona a maioria dos moradores não faz uso da lixeira e prefere descartar os resíduos nas águas.

    Mesmo com lixeira pública muitos moradores descartam lixo de maneira incorreta
    Mesmo com lixeira pública muitos moradores descartam lixo de maneira incorreta | Foto: Lucas Silva

    Zona Norte de Manaus

    O problema também persiste em outro ponto da cidade em um igarapé no bairro Amazonino Mendes. Nele são descartados resíduos que se acumulam e causam forte odor na área e risco aos moradores, a dona de casa Eldi Rabelo que reside nas margens do igarapé há 13 anos e conta que sua residência possui risco de desabar devido a subida do igarapé que acontece com as fortes chuvas. Para amenizar o problema, ela precisou construir uma barreira de proteção que impede as águas de atingir a base de sua residência.

    “A base da minha casa é de madeira, então toda vez que chove a base que sustenta a casa é atingida pelas águas. Por conta da correnteza e das chuvas frequentes a minha residência possui diversas rachaduras que fazem com que ela corra o risco de desabar. Na última chuva eu fiquei com medo de perder a casa e decidi construir uma barreira para que a água não levasse ela, entretanto com a falta de recurso não consegui concluir a obra, agora todo dia eu torço para não chover e que a minha casa continue segura”, relatou a Rabelo.

    A moradora teme que com a obra incompleta a casa seja levada pelo igarapé durante a próxima chuva
    A moradora teme que com a obra incompleta a casa seja levada pelo igarapé durante a próxima chuva | Foto: Lucas Silva

     “Demanda de lixo aumenta em igarapé”

    Segundo a moradora, em dias chuvosos as águas do igarapé sobem alagando todas as casas que ficam próximas, mas ela reconhece que o problema não está na natureza e sim nos moradores que constantemente descartam resíduos nas águas e a prática tem aumentado devido a quarentena.

    “Todos os dias eu vejo gente jogando diversas coisas no igarapé. Agora que a maioria das pessoas estão em casa a quantidade de lixo aumentou bastante, mesmo com a lixeira pública. Muitos que moram no início da rua, próximo da lixeira, preferem andar até o final da rua para descartar no igarapé. Além disso, o igarapé nunca recebeu ações de limpeza da prefeitura. E quando o lixo ainda era pouco, todos os moradores se juntavam para limpar, mas a situação saiu do controle e a água virou um lixão a céu aberto e quem sofre somos nós que moramos próximos”, lamentou Eldi.

    Devido a poluição elevada as águas apresentam forte odor nas redondezas
    Devido a poluição elevada as águas apresentam forte odor nas redondezas | Foto: Lucas Silva

     Desrespeito às leis

    Para o ambientalista Antônio Coutinho, o fenômeno da poluição das águas acontece devido a atitude da população em desrespeitar às leis ambientais, além da ausência da prática de coleta seletiva municipal para evitar que todos os lixos gerados sejam misturados com os que vão para o aterro sanitário.

    “Um dos principais problemas enfrentados em nossa cidade trata-se dos impactos ambientais, causado pelo descarte inadequado do lixo nas vias públicas e nos igarapés, mesmo com as ações desenvolvidas pelo órgão de limpeza pública. As atitudes das pessoas em lançar os dejetos em seu próprio ambiente trazem consequências danosas para a saúde pública, para o meio ambiente e financeiro. Em meio à pandemia, muitas pessoas estão em casa e pode ocorrer um aumento de consumo e consequentemente o descarte de mais lixos”, alertou o ambientalista

    Para o ambientalista, o problema pelo menos não deve ocorrer em vias públicas que tendem a diminuir devido ao baixo fluxo de pedestre. O mesmo acontece com as emissões de poluentes atmosféricos que são produzidos pelos veículos. 

     11 mil toneladas de lixo

    Segundo a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) todos os igarapés de Manaus recebem ações de limpeza da secretaria. Em 2019 foram mais de 11 mil toneladas de lixo coletados em igarapés, córregos, portos e orlas da capital. A Semulsp também ressaltou que as programações de limpeza dos igarapés da cidade seguem sendo realizadas normalmente mesmo com a pandemia. As ações contam com 40 trabalhadores que realizam coletas diárias em vários pontos da cidade.