Fonte: OpenWeather

    PANDEMIA


    Para fugir da pandemia povos da floresta se protegem nas matas

    O que parece ser o isolamento perfeito se mostra um problema quando começam a faltar alimentos e as distâncias atrapalham a ajuda

    Manaus - Estima-se que, no início da colonização do Brasil por europeus,  habitavam no País cerca de cinco milhões de indígenas. Depois da chegada dos estrangeiros que trouxeram consigo uma série de doenças, o Brasil ficou com um saldo mínimo de apenas 869,9 mil indígenas, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai). E agora, os que ainda restaram, estão com medo de uma ameaça que os dizime para sempre: o novo coronavírus.

    Em todo o mundo, até a sexta-feira (8), a doença havia levado a óbito 270 mil pessoas em três meses de pandemia. É como se tivessem caído 112 mil aviões Boeing 767 - com capacidade para 242 pessoas -resultando na morte de todos os passageiros.

    E se a diferença do total de casos registrados e o número real de infectados é algo que preocupa os não indígenas, com os povos da floresta a situação é ainda pior. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) tem um boletim que é atualizado diariamente com os casos de coronavírus em indígenas.

    até a quinta (7), eram 154 casos confirmados, 14 óbitos e outros 41 indígenas com suspeita da Covid-19. No entanto, organizações dos povos da floresta divergem do dado oficial do governo. É o caso da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Segundo a sigla, na mesma data, eram, na verdade, 177 casos de coronavírus, 49 mortes e 123 casos suspeitos.

    Diariamente, a assessoria de Comunicação da Coiab posta um boletim informativo de Covid-19 em indígenas
    Diariamente, a assessoria de Comunicação da Coiab posta um boletim informativo de Covid-19 em indígenas | Foto: Assessoria/Coiab

    Etnias

    Considerada uma das maiores entidades de representação dos povos da floresta, a Coiab registrou casos de coronavírus em pelo menos 23 etnias . São elas: Apurinã, Arapiun, Baniwa, Baré, Borari, Kokama, Galibi (Kalinã), Hixkaryana, Huni Kuin, Karipuna, Mura, Munduruku, Macuxi, Zoró, Palikur, Sateré-Mawé, Tariano, Tembé, Tikuna, Tupinambá, Tukano, Yanomami e Warao.

    Já as mortes, também segundo a Coiab, foram registradas em 13 povos: Apurinã (2), Baré (1), Baniwa (2), Borari (1), Mura (1), Kokama (20), Palikur (1), Sateré Mawé (1), Tariano (1), Tikuna (8), Tukano (3), Warao (2), Yanomami (1) e mais cinco ainda não identificados pela Sesai.

    Quem explica como esses dados são obtidos é o vice-coordenador da Coiab, Mario Nicacio. Segundo ele, os monitoramentos são comuns na entidade, que já registrava a situação dos povos indígenas na cidade e também no contexto rural antes mesmo do coronavírus.

    Mario faz parte de comitês e organizações pelo direito dos indígenas
    Mario faz parte de comitês e organizações pelo direito dos indígenas | Foto: Agência Brasil

    "Nós somamos diversas parcerias que nos ajudam a obter esses dados. Tanto as governamentais, como o Ministério do Meio Ambiente, como representantes indígenas que nos ajudam a compor esses dados de mortes e infectados", comenta ele.

    O dirigente diz que os dados vêm de várias comunidades. Somam os casos de coronavírus de indígenas que vivem na cidade, mas também em aldeias e na zona rural.

    A floresta como ponto de fuga

    Mário Pereira é diretor da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e afluentes (Ayrca) e contou como está a situação de mais de 2,7 mil indígenas que vivem na aldeia Maturacá, próxima de São Gabriel da Cachoeira (distante 852 km de Manaus).

    A conversa precisou ser rápida, porque, assim como seus parentes, Mário está isolado na mesma aldeia. Para não perder o total contato com o mundo fora da floresta, de dois em dois dias ele vai até uma comunidade salesiana próxima a São Gabriel da Cachoeira, onde acessa a internet.

    Distante da cidade, a única foto que Mário pôde enviar para a reportagem foi esta
    Distante da cidade, a única foto que Mário pôde enviar para a reportagem foi esta | Foto: Reprodução

    "Estou ficando em Maturacá e estamos de quarentena. Estamos evitando muito as viagens para São Gabriel da Cachoeira porque é um município que fica já no final do Amazonas e onde já tem casos daquela doença", diz a liderança da  Ayrca. 

    Até a quinta-feira (7), o município de São Gabriel da Cachoeira estava com 141 casos confirmados de Covid-19, com o total de três óbitos.

    Com um sotaque que mostra a origem indígena de Mário, ele continua na descrição da situação de seus parentes isolados. E fala sobre a necessidade de ajuda com alimentos.

    Escola Estadual da Sagrada Família, em São Gabriel da Cachoeira
    Escola Estadual da Sagrada Família, em São Gabriel da Cachoeira | Foto: Reprodução

    "Estamos fazendo roça, plantação, mas nós somos quase três mil parentes. A gente tem ajuda de umas instituições que estão ajudando nós, principalmente ISA [Instituto Socioambiental], que mandou maior parte de comida para Maturacá. E agora nós estamos esperando resposta de Funai lá de São Gabriel da Cachoeira", afirma Mário.

    Ele ressalta que a sua comunidade ainda não tem casos de coronavírus, mas que já se preparam para a possibilidade. Seus parentes até mesmo têm produzido remédios naturais para minimizar efeitos da Covid-19 caso a doença dê as caras por lá.

    A entrevista foi interrompida quando, sem aviso, a internet de Mário parou de funcionar e ele não recebeu mais as mensagens da equipe de reportagem. Uma representação real do que é viver o isolamento no meio da floresta.

    Os problemas no isolamento indígena

    Outro grupo que representa e está ligado diretamente aos povos da floresta é a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). O vice-presidente da sigla, Nildo Fontes, relata a grande quarentena que está sendo feita por muitos indígenas durante a pandemia.

    "Boa parte das comunidades indígenas do Amazonas têm se isolado quase completamente na floresta. Eles não aceitam que saiam ou entrem da comunidade, a não ser quem vai levar algum tipo de ajuda", comenta ele.

    Nildo diz que, apesar do isolamento social dos indígenas, muitas vezes eles se veem obrigados a se expor ao vírus para receber algum tipo de ajuda. Até mesmo do governo federal.

    Nildo fontes é o vice-presidente de uma das principais organizações indígenas do Brasil
    Nildo fontes é o vice-presidente de uma das principais organizações indígenas do Brasil | Foto: Julia Radler/ISA

    "O que a Foirn tem registrado é uma grande concentração de parentes tendo que ir até as cidades para receber o bolsa família e o auxílio emergencial pago pelo governo federal. Não tem outra opção para esses indígenas receberem ajuda. Eles precisam sair da comunidade e correr o risco de pegar o vírus na cidade. Até mesmo de levar a doença para seus familiares nas aldeias", exemplifica vice-diretor da Foirn.

    Ele diz que provavelmente esse será o motivo de mais infectados e mortes em comunidades indígenas. Nildo lembra que já há casos registrados nos povos da floresta, e que eles aguardam "infelizmente", a confirmação de mais mortes nos próximos dias.

    Indígenas também registram os chamados subnotificados - pessoas com coronavírus fora da estatística oficial
    Indígenas também registram os chamados subnotificados - pessoas com coronavírus fora da estatística oficial | Foto: Agência Brasil

    O representante indígena diz que algumas comunidades com maiores parentes e mais distantes já sofrem também com a falta de alimentos. Alguns lugares, com população de 600 a 2 mil indígenas têm feito pedidos de cestas básicas para não morrerem de fome.

    "Além do problema da falta de alimentos, nós temos uma grande dificuldade de fazer chegar essa ajuda às comunidades, porque são distantes e de difícil acesso", comenta Nildo.

    Um auxílio para salvar vidas

    Ainda em março, a Secretaria Especial de Saúde Indígena, do governo federal, criou um plano de contingência nacional para os povos indígenas. O objetivo é único: ajudar os povos da floresta a sobreviverem durante a pandemia.

    No documento, o órgão reconhece que "Historicamente, observou-se maior vulnerabilidade biológica dos povos indígenas a viroses, em especial às infecções respiratórias. As epidemias e os elevados índices de mortalidade pelas doenças transmissíveis contribuíram de forma significativa na redução do número de indígenas que vivem no território brasileiro".

    Funai tem mais de R$ 13 milhões para ajudar na crise do coronavírus em indígenas
    Funai tem mais de R$ 13 milhões para ajudar na crise do coronavírus em indígenas | Foto: Agência Brasil

    O plano aponta várias medidas a serem realizadas para ajudar a controlar a crise do coronavírus no que tange aos povos da floresta. Tem indicações desde  como realizar atendimentos até a produção de material informacional em diversas línguas.

    Na quinta-feira (7), a Funai já havia somado a entrega de mais de 17 mil cestas de alimentos a indígenas de todo o Brasil. Deste número, 12 mil foram com recursos próprios e o restante por doação, segundo a Instituição.

    Desde o lançamento do plano de contingenciamento mencionado, a Funai liberou cerca de R$ 10,8 milhões, originários de suplementação orçamentária, e R$ 3 milhões de recursos próprios. Todo o dinheiro, aponta a Funai, vem sendo usado para comprar alimentos para pessoas que vivem em áreas de extrema vulnerabilidade social; o deslocamento de equipes às frentes de proteção dos povos indígenas isolados; bem como a aquisição de veículos e embarcações para viabilizar o transporte de servidores e de indígenas até as unidades de saúde.

    Apesar da movimentação, Nildo Fontes, diz que a ajuda ainda não é suficiente. 

    Liderança da Foirn com o deputado federal Marcelo Ramos (PL/AM)
    Liderança da Foirn com o deputado federal Marcelo Ramos (PL/AM) | Foto: Julia Radler/ISA

    "A participação do governo federal ainda é fraca, como sempre foi. A presença forte da Funai e da Sesai tem sido fortalecida mais pelas organizações indígenas, como a Foirn. Nós temos nos movimentado muito para conseguir doações de alimentos. Além de colocar muita pressão no governo para que ele ajude os nossos povos da floresta", comenta ele. 

    Atendimento indígena

    Atualmente, o atendimento para coronavírus aos povos da floresta é realizado através de um dos 34 Distritos Especiais de Saúde Indígena distribuídos por todo o Brasil. Eles atendem cerca de 800 mil indígenas aldeados, o que é quase toda a população indígena do País (869,9 mil), segundo a Funai.

    O problema ainda é a distância para os casos graves. O indígena que fica doente no Amazonas, por exemplo, precisa viajar, em média, mais de 400 km para receber atendimento. É a maior distância do Brasil para receber tratamento para coronavírus em estágios mais críticos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

    Isso acontece porque Manaus, a capital do Amazonas, é a única cidade do Estado a ter Unidade de Terapia Intensiva. E essas UTI's, importante lembrar, estão superlotadas há quase um mês. Só surgem vagas quando alguém recebe alta ou morre.