Fonte: OpenWeather

    Ação social


    Técnica de enfermagem indígena é voluntária na luta contra a Covid-19

    No Dia do Enfermeiro, indígena trabalha como voluntária para rastrear casos de coronavírus em tribo de Manaus e arrecada doações para ajudar moradores durante a pandemia

    Vanderlecia Ortega atende diariamente aos moradores de Parque das Tribos, na periferia da capital amazonense
    Vanderlecia Ortega atende diariamente aos moradores de Parque das Tribos, na periferia da capital amazonense | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Durante o período de pandemia que o Amazonas enfrenta, os profissionais de enfermagem que atuam na linha de frente no combate ao vírus têm conquistado o reconhecimento pelo seu trabalho, mas a missão de salvar vidas não se resume apenas ao ambiente hospitalar. É o caso da técnica em enfermagem Vanderlecia Ortega, indígena da étnica Witoto que têm realizado o monitoramento da saúde de 40 indígenas e não indígenas que residem no Parque das Tribos, no bairro Tarumã, Zona Norte da capital e apresentam sintomas do novo Coronavírus.

    Falta de alimentos

    A iniciativa de Vanderlecia começou ainda no início da pandemia com uma campanha de arrecadação de recursos financeiros para a compra de itens de higiene, limpeza, proteção individual e alimentos para os indígenas da comunidade, considerada um dos pontos vulneráveis durante a pandemia da Covid-19, devido à falta de água tratada, encanada e rede de esgoto. A campanha arrecadou R$ 10 mil e vai ajudar os moradores da comunidade que vivem no mercado informal, que hoje se encontra com as atividades suspensas. Após a arrecadação, muitos moradores da comunidade passaram a apresentar sintomas compatíveis aos dos vírus e a técnica em enfermagem realizou o tratamento com medicamentos caseiros produzido no Parque das Tribos.

    “Desde o primeiro caso confirmado na capital eu passei a fazer orientações aos moradores explicando as formas de prevenção contra o vírus. Duas semanas após a campanha, alguns moradores começaram a apresentar sintomas como febre, dor de cabeça e dor no corpo. Na comunidade nós não possuímos unidades de saúde nem o atendimento necessário que deveria ter feito pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Então, diante da necessidade, eu passei a realizar o monitoramento desses moradores. Verifiquei a possibilidade de comprar medicamentos para eles e atualmente são monitorados 30 indígenas e 10 não indígenas, a maioria sendo idosos”, explicou Vanderlecia.

    Vanda visita pacientes
    Vanda visita pacientes | Foto: Lucas Silva

    Doação

    A técnica em enfermagem também atua na Fundação Alfredo da Mata e recebeu a doação de equipamentos de proteção individual (EPI’s) dos colegas de trabalho para realizar o atendimento aos pacientes com a proteção necessária para que não fosse infectada. Diariamente, Vanderlecia medica seus pacientes com remédios básicos, fornecendo orientações sobre como limitar o contágio. Ela faz as visitas em domicílio usando avental, luvas e máscara como proteção, às vezes com um cocar tradicional feito de penas de arara.

    Apesar do Parque das Tribos ainda não possuir nenhum caso confirmado da Covid-19, Wanda afirma que cinco moradores apresentaram sintomas graves e precisaram ser levados a UPA para receber atendimento adequado, dentre eles o cacique geral da comunidade que se encontra em estado grave na UTI com sintomas do vírus, o mesmo testou negativo para o vírus. No início do monitoramento, apenas seis pessoas apresentavam sintomas e com o passar dos dias o número cresceu. Segundo Vanderlecia, a principal dificuldade que a comunidade enfrenta durante a pandemia é conseguir que os pacientes sejam atendidos nas unidades de saúde.

    Vanda em atendimento
    Vanda em atendimento | Foto: Lucas Silva

    Dificuldades

    “A nossa comunidade fica afastada da cidade e a única unidade hospitalar mais próxima que atende a gente é a UBS Lindalva Damasceno, então quando alguma dessas pessoas está passando mal é muito difícil consegui levá-las até um atendimento adequado. Nós tivemos cinco pessoas com sintomas graves que precisaram ser levadas na UPA Campo Sales, a primeira foi uma idosa indígena da etnia Tuiúca que não conseguia levantar da rede devido a dor no peito e como ela estava passando muito mal o melhor seria levá-la em uma ambulância, mas quando eu liguei para o Samu, no primeiro momento, informaram que a responsabilidade de atender aos indígenas é da Sesai, eu expliquei que a secretaria não assistia a comunidade, posteriormente eles pediram um ponto de referência da comunidade onde eu informei o 'Balneário do Maia' e a estrada do Vivenda Verde, mas eles disseram que os pontos não eram registrados no sistema do Samu e por isso o atendimento não poderia ser realizado. Então eu a levei também na UPA Campo Sales em um carro comum”, declarou Vanderlecia.

    Técnica em enfermagem Vanda atua como voluntária em comunidade indígena de Manaus
    Técnica em enfermagem Vanda atua como voluntária em comunidade indígena de Manaus | Foto: Lucas Silva

    Na última sexta-feira (8), a comunidade recebeu a presença do médico generalista da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Guilherme César, que acompanhou o monitoramento diário e realizou as medidas necessárias aos pacientes.

    “A previsão é que a Semsa continue assistindo a comunidade semanalmente por ser um local onde os moradores têm dificuldade de acesso aos atendimentos hospitalares. Já aos pacientes que tiveram sintomas graves da Covid e aqueles que estão com a suspeita, a orientação é que elas permaneçam em casa, façam o uso de máscaras, evitar o compartilhamento dos utensílios domésticos e procurar retirar os outros familiares da casa já que muitas residências possuem apenas um cômodo, mas ainda sim precisa ser feito o isolamento e realizar o uso dos medicamentos receitados”, orientou.

    Voluntária sente na pele a dor dos moradores
    Voluntária sente na pele a dor dos moradores | Foto: Lucas Silva

    Esclarecimento

    Procurados para esclarecer os casos informados pela técnica, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) responsável pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) esclareceu , por meio de assessoria, que a Central de Regulação envia a ambulância para os casos classificados como urgência e emergência, de acordo com os parâmetros norteadores do serviço. 

    Parque das Tribos, na Zona Leste de Manaus
    Parque das Tribos, na Zona Leste de Manaus | Foto: Lucas Silva

    "Vale ressaltar que a ligação para o 192 já caracteriza atendimento, porque é feito um levantamento da situação do paciente e, dependendo das condições, não havendo quadro de urgência ou emergência, são repassadas orientações médicas de acordo com o caso", informou a nota.

    A Secretaria municipal assegurou que o Samu atende a todos os chamados, independentemente de endereço. 

    A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), até o fechamento desta matéria, não se pronunciou sobre os problemas relatados pelos moradores. 

    Prevenção

    Costureiras confeccionam máscaras para doar para a comunidade
    Costureiras confeccionam máscaras para doar para a comunidade | Foto: Lucas Silva

    Vanderlecia também iniciou um atelier de costura na casa de sua mãe para confeccionar máscaras e doar aos moradores da comunidade como forma de ser prevenirem do vírus. Inicialmente o atelier contava apenas com uma máquina de costura, porém com a campanha feita pela técnica em enfermagem, foram doadas duas máquinas, linhas e panos, o que possibilitou o aumento na confecção dos itens de proteção. Atualmente são confeccionadas 50 máscaras por dia por um trio de costureiras indígenas que também residem na comunidade, a confecção é feita todos os dias a partir de 9h até ás 16h.

    Segundo a costureira Brazileia Martiniano, inicialmente elas faziam máscaras de TNT. “Recebemos a orientação de que o tecido não era apropriado para a confecção e com a doação dos tecidos agora as máscaras são confeccionadas da forma correta e a cada dia usamos nossa criatividade para que fiquem melhores e protejam ainda mais todos nós”, explicou.

    Costureiras voluntárias no atelier
    Costureiras voluntárias no atelier | Foto: Lucas Silva

    A artesã indígena Luciana Vasconcelos conta que no início não sabia confeccionar as máscaras e nunca havia trabalhado com costura, mas devido à necessidade que a comunidade enfrenta não mediu esforços para aprender.

    “Nós fazemos as doações para moradores da nossa comunidade e para as comunidades vizinhas, pois muitos não têm condições de comprar máscaras e a gente vê a necessidade das pessoas, elas querem se proteger e se sentirem seguras, mas infelizmente não têm condições. Então realizamos doações para que todos possam ficar segurados e assegurarem suas famílias, não queremos perder ninguém para essa doença”, revela.

    Confecção das máscaras
    Confecção das máscaras | Foto: Lucas Silva

    De acordo com a professora indígena e artesã, Natalina Martins, depois que a comunidade recebe as máscaras é realizada as orientações de como elas devem ser usadas e higienizadas para que os moradores sejam cientes e realizem o uso sem pôr em risco a saúde.

    “Depois de confeccionadas nós passamos o ferro quente nas máscaras e orientamos os moradores a higienizarem antes e depois de usar, deixando de molho 10 minutos na água com sabão e seguida colocar para secar em um lugar fresco”, diz  Natalina.