Fonte: OpenWeather

    Pandemia


    Doações de sangue e órgãos no AM têm queda de 60% durante pandemia

    Pelo menos 862 pacientes amazonenses estão esperando por um transplante

    Com o medo do contágio as pessoas optam por não frequentarem ambientes ligados a saúde | Foto: DIVULGAÇÃO/HEMOAM

    Manaus - A pandemia ocasionado pelo novo coronavírus tem impactado o sistema de saúde de todo o país. E uma das áreas afetadas é a doação de sangue e órgãos. No Amazonas, desde o início da pandemia, está cada vez mais difícil achar doadores. O fator ocorre devido ao isolamento social.

    Antes da pandemia, a média diária de comparecimento a Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam) para realização de doações de sangue chegava até 260 doadores. Com o início da pandemia, as doações caíram 60%, chegando a 95 doadores por dia.

    Alerta para o tipo sanguíneo O+

    Com a queda, o estoque de sangue da Fundação tem ficado crítico para todos os tipos sanguíneos, mas o alerta é ainda maior para o tipo sanguíneo O+
    Com a queda, o estoque de sangue da Fundação tem ficado crítico para todos os tipos sanguíneos, mas o alerta é ainda maior para o tipo sanguíneo O+ | Foto: DIVULGAÇÃO/HEMOAM

    Com a queda, o estoque de sangue da Fundação tem ficado crítico para todos os tipos sanguíneos, mas o alerta é ainda maior para o tipo sanguíneo O+, que corresponde a maior parte da demanda diário no hemocentro. A preocupação da Dra. Socorro Viga, responsável pelo setor de Ciclo Sangue, é de que com o avanço da pandemia o estoque fique totalmente prejudicado e não seja possível atender as demandas necessárias ou de urgência. 

    “Se as pessoas não comparecerem para doar, pode ser que em breve o Hemoam não consiga mais atender boa parte da demanda, pensando nisso pedimos que as cirurgias eletivas, ou seja, aquelas que podem esperar não sejam realizadas agora, estamos priorizando casos de urgência justamente pelo estoque de bolsas está crítico. Em relação ao O+ temos apenas 46 bolsas, nas duas últimas semanas não conseguimos coletar 100 bolsas que é considerado o ideal”, ressaltou. 

    Atualmente, uma média de 137 pessoas fazem transfusões de sangue por dia, no mês de abril, o Hemoam distribuiu 5.356 hemocomponentes (plaqueta, hemácia, plasma e crioprecipitado), o material atendeu 27 unidades de saúde na capital e mais de 43 cidades do interior. O hemocentro abastece redes públicas e privadas de todo o estado e mesmo com a pandemia a demanda ainda está presente. 

    O hemocentro abastece redes públicas e privadas de todo o estado
    O hemocentro abastece redes públicas e privadas de todo o estado | Foto: DIVULGAÇÃO/HEMOAM

    “Apesar da pandemia, as pessoas que tomavam sangue continuam precisando. Então com a queda nas doações e a baixa quantidade em estoque nós ficamos impossibilitados de atender alguns pedidos, como acidentes e doenças hematológicas. Além de bastecer toda capital amazonense o Hemoam também envia bolsas de sangue aos municípios do interior do Amazonas. A demanda de urgência permanece a mesma e com a queda muitas vezes é preciso diminuir o número de hemocomponentes distribuídos para a rede pública e privada”, explicou Socorro. 

    Causas 

    Uma das principais causas para a diminuição da doação no Hemoam tem sido isolamento, com isso amplia o medo do contágio pela Covid-19 que tem aumentado a distância entre doadores e hemocentros.

    Para driblar as dificuldades e continuar recebendo doações a Fundação Hemoam está incentivando os doadores cadastrados para que agendem a visita ao hemocentro e realizem a coleta. Outra medida adotada foram as coletas externas que devem ser iniciadas nos grandes condomínios da capital. 

    “A pandemia também tem implicado muito nas nossas condutas de doações, atualmente as coletas externas são feitas com apenas dois profissionais por isso a demanda precisa ser maior para que mais bolsas sejam coletadas. Após a procura de moradores dos grandes condomínios para realizar doações, a Fundação decidiu realizar uma ação externa em condomínios que possuem mais de 60 moradores. Antes da doação, a equipe realiza palestras para informar quem pode doar e assim seguir com a doação”, informou a responsável. 

    Como doar?

    Para agendar a doação, o doador precisa ter cadastro no Hemoam e entrar em contato pelos números (92) 3655-0270 ou 3655-0271, ou ainda pelo site do hemocentro (www.hemoam.am.gov.br), clicando na aba “Agende sua doação”. 

    Também foi adotada pela Fundação medidas de segurança para evitar a aproximação de pessoas, para isso foi criado um ambiente de espera na área externa. Na triagem, as cadeiras estão organizadas com avisos pedindo que os doadores mantenham uma distância mínima de um metro, a área do lanche também está organizada para evitar aglomerações, também são oferecidos dispensadores de álcool em gel e recomendações que as doações sejam feitas em grupos menores. 

    Quem pode doar?

    Devido a Covid-19 o hemocentro estabeleceu novas restrição para as doações, quem viajou recentemente para lugares com casos de Covid-19 fica impedido de doar por 30 dias, assim como pessoas que tiveram febre ou gripe. Doadores que forem infectados por coronavírus ficam sem doar por 90 dias e profissionais de saúde só poderão doar após o fim da pandemia. 

    Para as pessoas que não se encaixam nas novas restrições e gostariam de doar, é preciso ter entre 16 e 60 anos, pesar mais de 50 quilos e estar com boa saúde. Menores de 18 anos só podem doar com a presença dos pais ou responsável legal. É preciso estar bem alimentado e portar documento de identidade com foto.

    As doações podem ser realizadas de segunda a sábado, das 7h às 18h, na sede da Fundação Hemoam, na avenida Constantino Nery, 4.397, Chapada, região Centro-Sul da capital. Devido a pandemia, a unidade de coleta da Maternidade Ana Braga, localizada na Zona Leste está temporariamente fechada. 

     862 pacientes à espera de órgão

    O Amazonas realiza somente transplante de córnea (tecido que envolve os olhos)
    O Amazonas realiza somente transplante de córnea (tecido que envolve os olhos) | Foto: Divulgação AC

    Em 2019, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), foram realizados 6.283 transplantes de rim, 2.245 de fígado, 378 de coração, 173 de pâncreas e 104 de pulmão. A taxa de doadores efetivo cresceu 6,5% em comparação a 2018. Mas até primeiro trimestre de 2020, a doação de órgãos para transplantes voltou a cair, registrando uma queda de 70%.

    O Amazonas realiza somente transplante de córnea (tecido que envolve os olhos). Em 2019, segundo informou a Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas (Susam), foram realizados 153 transplantes de córnea. Neste ano devido a pandemia, o Centro Estadual de Transplante (CET) não registrou nenhuma doação de órgãos, totalizando queda de 100% nas doações. E apesar da fila zero para pacientes que precisem do transplante de córnea, há uma estimativa de que 862 pacientes amazonenses estão esperando por transplante em outros estados: 500 pacientes para transplante de rins, 350 para fígado, 10 para coração e dois para pulmão.

    Até primeiro trimestre de 2020, a doação de órgãos para transplantes voltou a cair, registrando uma queda de 70%
    Até primeiro trimestre de 2020, a doação de órgãos para transplantes voltou a cair, registrando uma queda de 70% | Foto: Divulgação AC

    Segundo o coordenado do CET e médico cirurgião de fígado, Marcos Lins, as causas para a queda nas doações são multifatoriais, uma vez que o isolamento social atinge as fontes dessas doações.

    “As doações são feitas por pacientes que se encontram em UTI com quadro de morte encefálica. Com a pandemia, esses pacientes passaram a ter contato com outros que estavam contaminados pelo vírus e precisaram ocupar as UTI’s devido complicações. Nesses casos a doação não pode ser feita, uma vez que o paciente doador é infectado. Outro ponto que ocasionou a queda é a diminuição nos acidentes trânsito que causam trauma crânio cefálico”, explicou. 

    Os atendimentos para transplante de córnea foram suspensos, como forma de preservar a saúde dos profissionais para que não fosse contraído o vírus in loco. Atualmente o CET possuiu um estoque de 20 córneas que está abastecido pelos próximos quatro meses e poderão ser usadas somente em casos de urgência durante a pandemia.  

    Após fechado protocolo de morte encefálica, ocorre uma entrevista com o familiar e seguida a oportunidade da doação. Se a família aceitar, são realizados exames de compatibilidade, os órgãos são ofertados para estados interessados, a equipe de captação de órgãos é acionada e após a captação, os órgãos são enviados para os estados que aceitaram a doação.

    Segundo o coordenador, a principal campanha feita pelo CET é que as pessoas que tenham interesse em realizar a doações de órgãos avisem seus familiares em vidas, devido umas das dificuldades das doações é o aceite da família. 

    “As secretarias de saúde sempre realizam campanhas de incentivo a doação de órgão e uma das formas do ato se tornar mais simples é que a pessoa que deseja ser um doador comunique sua família para que em casos de morte cefálica seja autorizada a doação dos órgãos”, finalizou.