Fonte: OpenWeather

    Pandemia


    Isolamento social agrava violência doméstica no Amazonas

    Mais de 6,7 mil mulheres já sofreram algum tipo de violência doméstica de janeiro a abril de 2020. O número já é maior do que o mesmo período do ano passado

    Érica Rodrigues, atriz, realizou ensaio artístico para denunciar o problema (@dolorespalhaca) | Foto: Arquivo Pessoal

    Manaus - Na pandemia do novo coronavírus, em que não há cura ou ou remédio eficaz, uma das principais medidas de prevenção é o distanciamento social. A indicação de ficar em casa e o fechamento do comércio não essencial ajudam a resolver um problema, mas por outro lado, criam outro. De janeiro a abril de 2020, quarentena começou em março, foram registrados 6.716 casos de violência doméstica contra mulheres no Amazonas. Foram 1,7 mil casos a mais do que o mesmo período do ano passado, quando o número foi de 5 mil, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM).

    Dentre os principais registros estão injúria (31,7%), ameaça (28,5%) e lesão corporal (13,1%). Ou seja, só deste último delito, foram 878 mulheres agredidas fisicamente nos primeiros quatros meses do ano no Amazonas. Sem contar os outros tipos de violência, como a psicológica e moral.

    Desde o dia 23 de março, por força de decreto estadual, o Amazonas está com as atividades não essenciais suspensas. Os trabalhadores que podem realizar suas atividades em casa, também estão com a nova rotina de home office. 

    Ainda há dificuldade para encontrar mulheres que falem abertamente sobre o assunto. Por vezes, essas vítimas, quando têm força, procuram grupos de apoio, como o 'Fênix'. O projeto é dirigido por Jacqueline Suriadakis, auditora fiscal, e que já foi vítima de violência.

    Jacqueline Suriadakis sofreu violência por anos e agora ajuda vítimas
    Jacqueline Suriadakis sofreu violência por anos e agora ajuda vítimas | Foto: Divulgação

    Em dois anos, o projeto já ajudou mais de 200 mulheres, em Manaus, segundo a coordenadora. E agora, durante a pandemia do coronavírus, ela afirma que a procura por ajuda aumentou em pelo menos 50%.

    "Eu resolvi fundar o grupo depois de ter vivido um relacionamento abusivo com meu ex-companheiro. Foram quase duas décadas em que eu não conseguia me libertar da violência psicológica", comenta ela.

    Grupo Fênix já ajudou mais de 200 mulheres
    Grupo Fênix já ajudou mais de 200 mulheres | Foto: Divulgação

    Jacqueline diz que quando venceu a violência, muitas mulheres a procuraram para pedir ajuda para saber como ela havia conseguido. Foi então que a graduanda em Segurança Pública passou a oferecer ajuda com orientação jurídica gratuita. Mas não tardou para ela formar parcerias e passar a dar apoio psicológico por meio de outros profissionais. 

    O projeto ainda oferece ajuda com 20 profissionais das mais diversas áreas, como advogadas, psicólogas, assistentes Sociais, economistas, sociólogas, administradoras, contadoras, pedagogas entre outras que compõem o grupo Fênix. O projeto está no Instagram, no @projetofenixamazonas.

    Vítimas encurraladas

    É no contexto de pandemia que Débora Mafra, ex-titular da Delegacia da Mulher, comenta como a nova rotina pode potencializar a violência doméstica contra mulheres. 

    "A quarentena pode sim fazer aumentar essa violência. Isso acontece devido ao aumento de tensões em casa por vários fatores que estão ocorrendo, como a falta de dinheiro, de emprego, dentre outros. O próprio isolamento das mulheres faz com que elas fiquem encurraladas", comenta Mafra.

    O clico da violência ocorre mais vezes durante a quarentena
    O clico da violência ocorre mais vezes durante a quarentena | Foto: Alexandre Sanches/Em Tempo

    Ela explica que, ao passar mais tempo juntos em casa, vítima e agressor passam por mais tempo no ciclo da violência. É denominado assim o processo que entra uma mulher ao se relacionar com alguém que tem comportamentos abusivos e violentos.

    Debora Mafra deixou a Delegacia da Mulher e se filiou ao Partido Social Cristão (PSC)
    Debora Mafra deixou a Delegacia da Mulher e se filiou ao Partido Social Cristão (PSC) | Foto: Divulgação

    "Há probabilidade de o ciclo da violência ocorrer mais vezes e isso acontece devido ao tempo e o estresse que tendem a se chocar mais vezes na quarentena. Durante a convivência em casa, ainda tem o perigo da vítima 'se acostumar' com o comportamento do agressor, o que é mais um fator de risco. É preciso não ignorar atitudes agressivas", afirma Mafra.

    Você não está sozinha

    A Lei Maria da Penha aponta cinco tipos de violência contra a mulher. São elas: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Segundo especialistas, é comum que a vítima sofra mais de um tipo de agressão no relacionamento abusivo.

    Uma das profissionais que apontam a incidência dessas violências é Valéria Marques, socióloga. Ela, além de ser ativista pelo direito das mulheres, estuda Políticas Públicas para Mulheres pela Universidade Federal do Amazonas.

    Valéria Marques faz parte da Articulação de Mulheres do Amazonas (AMA)
    Valéria Marques faz parte da Articulação de Mulheres do Amazonas (AMA) | Foto: Divulgação

    "O lar, onde deveria ser um espaço de afeto e segurança para as mulheres, muitas vezes se torna um lugar de terror. Sempre foi nesse espaço que aconteceram as piores violências. Em alguns casos, até resultando em morte", comenta a socióloga, com a voz embargada. 

    Ela lembra de recentes casos de feminicídio em Manaus, como o da perita Lorena Baptista. Ela foi assassinada pelo próprio marido, após uma discussão sobre pensão dos filhos. Valéria também aponta o mais recente crime que chocou a cidade. O da modelo Kimberly Mota, que foi morta e teve o corpo encontrado no apartamento do ex-namorado. Ele é o principal suspeito e segue foragido. 

    Em briga de marido e mulher, meta a colher

    "Os casos não param de ocorrer e nós vivemos nessa sociedade que coloca o homem como dono de tudo, mas ele não é. É aí que está o problema, porque ele acaba achando que tem o direito de tirar a liberdade dessas mulheres. O direito delas de viver a própria vida", comenta a socióloga. 

    Ela diz que a sociedade, muitas vezes, se nega a ajudar as vítimas. E lembra do bordão brasileiro "em briga de marido e mulher, não se mete a colher". A socióloga ressalta que não "meter a colher" é ser cúmplice do assassinato de muitas vítimas.

    "Precisamos ajudar essas mulheres. Elas se sentem sozinhas, acham que não podem ser ouvidas e ajudadas. E temos que mostrar que estamos presentes, que estamos ouvindo. Estamos no século XXI e as mulheres não devem se submeter a essas violências. E as que ainda sofrem isso, que nós possamos ajudar a se libertarem", afirma Valéria.

    Busque ajuda e denuncie

    Caso queira denunciar ou procurar ajuda, pode ligar para os números 180, 181 e 190. O atendimento também pode acontecer na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (Deccm), localizada no bairro Parque 10, zona Centro-Sul. Caso precise de um endereço alternativo, a mesma delegacia tem uma unidade especializada situada no bairro Cidade de Deus, zona Norte, atrás do 13º Distrito Integrado de Polícia (DIP). 

    Além da denúncia, o apoio psicológico pode ser feito no Serviço Assistencial e Psicológico Emergencial às Vítimas de Violência (Sapem) ou no Centro de Referência de Amparo à Mulher (Cream), da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc).

    Uma outra opção é procurar grupos de apoio, como o Projeto Fênix Amazonas, o qual foi apresentado nesta reportagem. As profissionais apoiam, gratuitamente, mulheres vítimas de violência doméstica e oferecem diversos tipos de apoio, como psicológico e jurídico. O perfil no Instagram é @projetofenixamazonas e o telefone para contato é o (92) 99149-6259 (Jacqueline Suriadakis - coordenadora geral).