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    Indústria florestal


    Produção de urnas no AM pode prejudicar preservação, diz ambientalista

    Engenheiro florestal, por outro lado, afirma que indústrias florestais para a fabricação de urnas funerárias seria uma oportunidade de alavancar o setor florestal no Amazonas

    Presidente do Sefeam afirma que importar o produto de outros estados brasileiros é muito mais barato | Foto: Reprodução/Internet

    Manaus – O sistema funerário de Manaus é um dos mais afetados pela pandemia no novo coronavírus. Atualmente, a capital amazonense tem em média 100 enterros por dia e os caixões são importados de outras regiões do Brasil. Sindicato revela que importar o produto de outros estados brasileiros é muito mais barato. Ambientalista diz que produção de urnas no Amazonas pode prejudicar preservação. E engenheiro florestal, por outro lado, afirma que indústrias florestais para a fabricação de urnas funerárias seria uma oportunidade de alavancar o setor florestal no Amazonas.

    O presidente do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Amazonas (Sefeam), Manoel Viana, afirma que está há mais de 30 anos no ramo das funerárias e que, logo no início, tentou montar uma fábrica de urnas em Manaus, mas muitos problemas impossibilitaram. “Os empecilhos são muitos, mas principalmente os tipos de madeira que são usados para esse fim", esclarece.

    Ele explica que os caixões mais antigos eram fabricados com três tipos de madeira: seringa, virola e, por vezes, copaíba, mas são madeiras de difícil trabalho em marcenaria.  “Essas madeiras da região dão muita traça. Meses depois, nós exprimíamos a madeira como se fosse uma esponja”, diz.

    Viana salienta que existe mais prós do que contras na importação dos caixões de outros estados brasileiros. “É mais barato comprar lá fora por diversos motivos. A madeira vem tratada, nesses estados existe reflorestamento, as urnas são testadas para que não haja problema com pesos e tamanhos, portanto são mais resistentes. A linha de pintura também apresenta  melhor qualidade”, descreve.

    Segundo o presidente do Sefeam, o único trabalho realizado no estado atualmente é a montagem das urnas. Os kits vêm de outros estados, como São Paulo e Mato Grosso. Chegam a Manaus para serem montados e vendidos.

    A educadora ambiental e biotecnóloga, Andressa Barroso, 27 anos, destaca que o desmatamento na Amazônia ocorreu de forma rápida e desenfreada, o que fez com que medidas de proteção mais restritivas fossem aplicadas entre os anos de 1990 e 2010. Antes, 55 milhões de hectares já haviam sido desmatados e aproximadamente 20% da mata original perdida. Esse é um dos motivos que tornam a madeira escassa e cara.

    “A partir disso foi preciso criar leis de restrição para utilização de madeira da Amazônia. Quando ocorre desmatamento, é preciso ser feito de maneira sustentável. Não é possível atender demandas de fábricas como essa, de urnas. Essa produção poderia prejudicar a preservação”, explica Andressa.

    Essa produção poderia prejudicar a preservação”, explica a educadora
    Essa produção poderia prejudicar a preservação”, explica a educadora | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    O estudante de Engenharia Florestal na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Leonan Valente, se reuniu com alguns professores do curso para discutir a questão e afirma que a implementação de Indústrias Florestais para a fabricação de urnas funerárias seria uma oportunidade de alavancar o setor florestal no Amazonas. “Temos disponibilidade de recursos naturais no estado e podemos fazer esse desenvolvimento acontecer de forma sustentável, combinando crescimento econômico com inclusão social e conservação ambiental”, enfatiza Leonan.

    Podemos fazer esse desenvolvimento acontecer de forma sustentável, diz Leonan
    Podemos fazer esse desenvolvimento acontecer de forma sustentável, diz Leonan | Foto: Divulgação

    Ele conta que nos estados do Sul e Sudeste do Brasil, as espécies de madeiras utilizadas para fabricação de urnas funerárias são do gênero Pinus (densidade 0,419 g/cm³), de florestas plantadas em áreas de reflorestamento, que levam em torno de 12 anos para crescer até a idade de corte.

    No Amazonas, onde não existe colheita florestal de florestas plantadas e sim o manejo florestal sustentável em florestas nativas, poderíamos usar madeiras de espécies nativas de baixa densidade (até 0,550 g/cm³). Contudo, seria necessária a disponibilidade de grandes estoques desse tipo de madeira em pátios de estocagem das serrarias e madeireiras.

    Madeiras do gênero Pinus são utilizadas para a fabricação de urnas
    Madeiras do gênero Pinus são utilizadas para a fabricação de urnas | Foto: Reprodução/Internet

    “Uma solução para o problema seria o investimento em Silvicultura e plantio de espécies nativas em áreas desflorestadas. Isso não irá atender com urgência a necessidade atual perante a pandemia da Covid-19, mas futuramente teremos matéria prima suficiente para atender a demanda por este produto. Nós temos, em planos de manejo florestal, espécies apropriadas para esse fim, aqui na Amazônia, contudo estas não são exploradas por falta de demanda de mercado”, acentua o estudante.

    Leonan vai mais a fundo e explica que, além da matéria-prima proveniente de exploração racional com técnicas de mínimo impacto ambiental, seria necessário um estudo de mercado e construção de políticas públicas para que este produto viesse a ser produzido na região, seja com madeiras de manejo florestal sustentável ou reflorestamento.

    A Silvicultura faz o aproveitamento e o uso racional das florestas
    A Silvicultura faz o aproveitamento e o uso racional das florestas | Foto: Luize Hess

    “O incentivo deve partir do poder público e privado.É preciso criar estratégias para a implementação desse tipo de indústrias florestais, levando em consideração medidas de segurança ambiental e social, para que deixemos de importar esse produto e fortalecemos empresas locais”, reforça Leonan.

    O estudante se apoia na legislação para esclarecer que existe ‘‘a garantia de condições estáveis e seguras que estimulem investimentos na industrialização, no manejo, na conservação e na recuperação das florestas e seus produtos e serviços”, de acordo com o artigo n° 2 inciso Vlll da lei N° 4.415, de 29 de dezembro de 2016, que dispõe sobre a gestão de florestas situadas em áreas de domínio do Estado do Amazonas para produção sustentável.

    Um quase colapso

    O Sefeam afirma que empresas chegaram a recusar clientes por falta de caixões. Segundo o sindicato, o carregamento com as urnas funerárias vem de São Paulo, em caminhões. O último trecho do transporte foi feito por balsa, até chegar em Manaus. O lote foi liberado de um porto privatizado e seguiu direto para as empresas funerárias da cidade.

    Lote com 300 urnas funerárias chegou em Manaus no dia 4 maio
    Lote com 300 urnas funerárias chegou em Manaus no dia 4 maio | Foto: Bruno Kelly/Reuters

    Atualmente, a capital amazonense tem uma média de 100 enterros por dia. Os corpos passaram a ser enterrados em valas comuns e a Prefeitura de Manaus chegou a realizar enterros de caixões empilhados, medida que foi cancelada após a revolta de familiares.