Relatos


História de Maria, a matriarca que perdeu 5 pessoas para a Covid-19

A história de dor, superação e esperança da matriarca da família Sinimbu, diante da pandemia do novo coronavírus no Amazonas.

Apesar da tristeza, dona Maria diz que o momento pede fé e coragem. As boas lembranças ficam
Apesar da tristeza, dona Maria diz que o momento pede fé e coragem. As boas lembranças ficam | Foto: Lucas Silva

Manaus –  A professora aposentada Maria Moitinho Nunes Sinimbu perdeu nos últimos meses cinco membros da família. Aos 76 anos, Maria viu três filhos e dois cunhados, morrerem devido a  Covid-19. Ainda em luto, ela contou o segredo de sua força em entrevista ao EM TEMPO: “Eu tenho fé em Deus”.

Dona Maria é natural de Parintins, mora há mais de 30 anos no bairro São Francisco, zona Sul de Manaus. Viúva, mãe e religiosa, Maria é devota da Nossa Senhora, e tem como padroeiro São Francisco  e sempre congregou na igreja católica. Quando a pandemia começou, ela seguia suas orações pedindo proteção a todos, até receber a notícia da morte.

“Foi tudo muito rápido. Perdi primeiro meu filho Adalberto de 58 anos, que era meu segundo filho mais velho. Depois perdi a Iolanda com 48 anos e em seguida, Thiago que tinha 47 anos. Todos morreram por conta dessa doença (Covid-19). Antes de morrerem eles fizeram um almoço aqui em casa, foi como uma despedida”, relatou a aposentada em lágrimas.

Das mortes

O primeiro filho a falecer foi Adalberto Sinimbu, ele era professor, morreu dia 05 de abril e morou toda a vida com o pais. Este filho ainda recebeu as últimas homenagens da família. Foi velado na casa dos pais e os entes queridos conseguiram realizar o enterro. Porém, essa não foi a mesma realidade na morte da segunda filha, Iolanda Sinimbu.

Representante comercial, a mulher que não fazia parte do grupo de risco, morreu no dia 13 de abril. Os familiares acreditam que ela possa ter sido contaminada durante as viagens que realizava a trabalho. Iolanda era casada e uma das quatro filhas de dona Maria e com as instruções e medidas de segurança estipuladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), não foi possível realizar o funeral tradicional. Apenas cinco pessoas puderam ir ao enterro e dona Maria, a mãe, não foi uma delas.

A matriarca religiosa, relata que tudo foi muito rápido e antes dos filhos partirem, fizeram um almoço na casa dela
A matriarca religiosa, relata que tudo foi muito rápido e antes dos filhos partirem, fizeram um almoço na casa dela | Foto: Lucas Silva

Thiago Sinimbu foi o terceiro filho a morrer com o novo coronavírus. O homem era casado, pai de três filhos, atuava como técnico em agronomia, formado pela antiga Escola Técnica do Amazonas. Thiago foi o único familiar a ser cremado. Depois de tantas perdas, a família preferiu dar adeus dessa maneira. Com oito dias a família Sinimbu perdeu dois membros, totalizando cinco parentes em menos de um mês.

Etelvina Sinimbu e Luiz Sinimbu também morreram nesse período. Maria explicou o amor que tinha por ambos. Para ela, os saudosos sempre vão estar vivos em sua memória: “Etelvina era uma pessoa que eu gostava demais. Uma cunhada excelente, nunca discutimos. Era minha comadre também. As conversas com ela eram muito boas. Luiz, meu cunhado era um homem bom”, disse.

 Covid-19 na família

A filha Milene Sinimbu, que mora em Portugal há pouco mais de um ano, empresária, falou dos casos suspeitos da doença na família.  

“Aqui em casa cogitamos que todos pegaram. Não chegamos a ir fazer as testagens e não temos exames oficiais, mas temos nossa irmã que é enfermeira e identificou os sinais. Alguns apresentaram fortes sintomas e outros leves. Mamãe também foi contaminada, mas já passou do período de transmissão. Nos cuidamos em casa. Eu voltei para o Brasil por causa da saúde da minha mãe”, explicou Milene.   

Como lidar com a dor

Não desistam da vida, pois, a vida é o presente mais bonito que ganhamos de Deus”, declarou Maria Sinimbu.
Não desistam da vida, pois, a vida é o presente mais bonito que ganhamos de Deus”, declarou Maria Sinimbu. | Foto: Lucas Silva

Nascida em 10 de novembro de 1943, a professora afirmou que se tudo der certo, no seu aniversário ela fará uma festa em celebração ao seu 77º ano. Maria disse que os filhos gostam de festas e que neste dia não pode faltar bolo, comidas e bebidas. Questionada de como está vivendo esses últimos dias, emocionada, a professora respondeu e deixou uma mensagem a todos aqueles que vivem momentos de dor.

“Isto que estou passando é um exemplo de vida e superação, é isso que quero deixar para as pessoas. Foi e está sendo muito difícil. Mas graças a Deus, estou vencendo com a ajuda dos meus filhos e de Nossa Senhora. Tenham forças, não desvaneçam. Acreditem, sigam com fé e coragem. Não desistam da vida, pois, a vida é o presente mais bonito que ganhamos de Deus”, declarou Maria Sinimbu.