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    Pandemia


    Indígenas decidem entre contrair Covid-19 ou sacar auxílio emergencial

    Sem ter acesso à internet ou telefones para baixar aplicativos, parte dos indígenas precisa decidir se corre o risco de ser contaminado pela Covid-19 ao sair da aldeia

    | Foto: Alex Pazuello/Prefeitura de Manaus

    Manaus - Durante a pandemia da Covid-19, para tentar amenizar os impactos econômicos e sociais, o governo federal anunciou o auxílio emergencial de R$ 600 para desempregados e trabalhadores informais. Dentro desses beneficiados, estão também indígenas de todo o Brasil, que para tentar solicitar e sacar o valor, precisam ir até às cidades, nas agências bancárias. No entanto, essa necessidade de deixar a aldeia tem sido apontada como uma forma de transmissão do novo coronavírus para várias aldeias indígenas.

    José Pereira é diretor da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e afluentes (Ayrca) e contou como está a situação de mais de 2,7 mil indígenas que vivem na aldeia Maturacá, próxima de São Gabriel da Cachoeira (distante 852 km de Manaus).

    José Pereira tem vivido isolado com mais três mil indígenas na aldeia Maturacá, em São gabriel da Cachoeira (AM)
    José Pereira tem vivido isolado com mais três mil indígenas na aldeia Maturacá, em São gabriel da Cachoeira (AM) | Foto: Reprodução

    A conversa precisou ser rápida, porque, assim como seus parentes, José está isolado na mesma aldeia. Para não perder o total contato com o mundo fora da floresta, de dois em dois dias ele vai até uma comunidade salesiana próxima a São Gabriel da Cachoeira, onde acessa a internet.

    Com o sinal precário e em uma rápida conversa, ele demonstrou estar abalado com o que tem visto. "Estou muito triste por causa da doença que está em China e chegou até na terra Yanomami", respondeu o indígena. 

    José cita o caso de três indígenas da comunidade Nazaré, na estrada BR-307, em São Gabriel da Cachoeira, que foram contaminados pela Covid-19.

    "Eu não sei como eles foram infectados, porque a estrada para ir até à cidade está bloqueada. Na comunidade em que vivo, que é a aldeia Maturacá, nenhum yanomami saiu para ir buscar o auxílio. Muitos precisam, mas o medo da doença nos fez ir por esse caminho", diz o indígena.

    Com medo da doença, indígenas preferem se isolar nas aldeias
    Com medo da doença, indígenas preferem se isolar nas aldeias | Foto: Agência Brasil

    Segundo José, para sobreviver com a falta de empregos e do auxílio emergencial, os indígenas da sua aldeia estão trabalhando "bastante na roça e plantação", mas cita o problema populacional. "Somos quase três mil parentes, então precisamos de muita comida", diz o líder.

    Ele cita a ajuda de instituições que têm enviado alimentos para a comunidade, como o Instituto Socioambiental (ISA), "que mandou maior parte de comida para Maturacá", segundo José.

    Ele ressalta que a sua comunidade ainda não tem casos de coronavírus, mas que já se preparam para a possibilidade. Seus parentes até mesmo têm produzido remédios naturais para minimizar efeitos da Covid-19 caso a doença dê as caras por lá.

    A entrevista foi interrompida quando, sem aviso, a internet de Mário parou de funcionar e ele não recebeu mais as mensagens da equipe de reportagem. Uma representação real do que é viver o isolamento no meio da floresta.

    Contradições no auxílio para indígenas

    Ainda no dia 18 de março, uma semana depois de a Covid-19 ter sido declarada pandemia, a Fundação Nacional do Índio (Funai) proibiu a entrada de turistas em aldeias indígenas. Além disso, orientou para que indígenas se isolassem nas aldeias para evitar o contágio pelo novo coronavírus.

    Já no início de abril, depois de muita pressão, o governo federal sancionou o auxílio emergencial de R$ 600 para auxiliar as famílias mais pobres na pandemia. Para solicitar o auxílio, as pessoas precisam baixar um aplicativo e depois se locomoverem até uma agência para sacar o benefício.

    Indígenas têm dificuldade para acessar internet e se locomover das aldeias para cidades
    Indígenas têm dificuldade para acessar internet e se locomover das aldeias para cidades | Foto: Agência Brasil

    Organizações indígenas e de proteção ao meio ambiente apontam contradições nas duas informações, já que, enquanto indígenas são orientados a ficar nas aldeias, também precisam se locomover não apenas para sacar o auxílio, mas também solicitá-lo, já que nas comunidades a internet é quase inexistente.

    "Para quem não tiver acesso à internet, porém, o governo orienta a fazer o procedimento nas agências da Caixa ou em casas lotéricas, solução que pode agravar as filas e aglomerações que já se formam em todo o país. Essa e outras recomendações não encontram sentido nas realidades específicas de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas e podem prejudicá-las ainda mais", diz uma publicação no site do Instituto Socioambiental (ISA), onde este responde o que indígenas precisam saber sobre o auxílio emergencial.

    Quase metade dos indígenas vivem na pobreza

    Enquanto encontram dificuldades, boa parte dos indígenas precisa do benefício governamental. No Brasil e no mundo, eles estão associados à pobreza e más condições de trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), por exemplo, mais de 86% da população indígena global trabalha na economia informal, geralmente associada a más condições de trabalho e à falta de proteção social. 

    No Brasil, um dado ainda de 2016 - mas um dos mais 'atuais' sobre o assunto - aponta que quase metade dos indígenas (49%) vive na classe E, considerada mais pobre. Do total de indígenas no País, que é de cerca de 869,9 mil, 18% (156 mil) vivem na extrema pobreza. O dado sobre a quantidade de indígenas é da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o econômico é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Antes das agências lotadas, o problema 'tecnologia digital'

    Mario Nicácio é vice-coordenador de um dos maiores grupos de representação indígena do Brasil, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Segundo ele, o que tem se destacado quando se trata do coronavírus nos indígenas é o medo e a incerteza na pandemia.

    "Muitos indígenas têm medo de ir para as cidades e ter de enfrentar filas enormes que podem acabar fazendo eles se contaminarem pela doença. E essa é uma realidade que já está aí, temos parentes infectados pela nova doença. Temos encarado e pedido ajuda de várias frentes dos governos federal e estadual e até mesmo do Ministério Público Federal", afirma o vice-coordenador da Coiab.

    Mario faz parte de comitês e organizações pelo direito dos indígenas
    Mario faz parte de comitês e organizações pelo direito dos indígenas | Foto: Agência Brasil

    Mario conta que os indígenas, mesmo antes da Covid-19, já tinham muitas dificuldades para acessar benefícios dos governos de diferentes esferas. E cita o Bolsa Família e a aposentadoria como exemplos.

    "Os parentes têm muita dificuldade com a estrutura e logística para ir até às cidades. É longe e é caro. Alguns simplesmente não têm condições de se locomoverem. Tem indígena que conseguiu o auxílio sim, mas muitos ainda estão sem. E temos medo que nunca consigam", afirma Nicácio.

    Ele diz que outro problema é a precariedade quando se trata de tecnologia digital. Mario explica que muitos indígenas não conseguem acessar à internet por conta do sinal ruim. E mesmo que pudessem, segundo ele, boa parte não possui celular que permita baixar aplicativos.

    "É muito comum ainda indígenas que usam tecnologia de radiofonia. Celulares mais antigos, que não são smartphones, ou seja, que não dá para baixar aplicativos. Por causa disso, eles não conseguem baixar o programa da Caixa Econômica para solicitar o auxílio emergencial", diz Nicácio.

    No dia 14 de abril, o Ministério Público Federal chegou a enviar recomendações ao Ministério da Cidadania, agências bancárias e ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), para pedir que o atendimento a indígenas tivesse diferenças de logística.

    Dentre as medidas requeridas, o MPF-AM sugeriu que o pagamento do auxílio fosse feito em locais mais próximos das aldeias e por aplicativos que pudessem possibilitar o acesso ao benefício mesmo sem conta bancária. 

    Casos de coronavírus em indíenas

    Até a quarta-feira (20), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) registrou casos de coronavírus em pelo menos 33 povos da Amazônia brasileira: Apurinã, Arapiun, Assurini do Trocará, Baniwa, Baré, Borari, Desana, Karajá, Karipuna, Karitiana, Kokama, Galibi (Kalinã), Gavião (Akrãtikatêj, Kykatejê e Parkatêjê), Guajajara, Hixkaryana, Huni Kuin, Mura, Munduruku, Macuxi, Pandereo Zoro, Palikur, Sateré-Mawé, Shanenawa, Tariano, Taurepang, Tembé, Tikuna, Tukano, Tupinambá, Xavante, Yanomami, Warao e Wapichana. 

    Coiab coleta e divulga dados de Covid-19 em indígenas diariamente. Imagem aponta também números da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai)
    Coiab coleta e divulga dados de Covid-19 em indígenas diariamente. Imagem aponta também números da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) | Foto: Divulgação

    Mortes em indígenas foram registradas entre 17 povos: Apurinã (2), Baré (3), Baniwa (2), Borari (1), Desana (1), Mura (1), Macuxi (1), Munduruku (2), Kokama (46), Palikur (1), Sateré Mawé (1), Tariano (1), Tembé (1), Tikuna (10), Tukano (4), Warao (3), Yanomami (1) e mais dez povos ainda não identificados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).