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    PANDEMIA


    Covid-19: indígena morre enquanto esperava transferência para Manaus

    Municípios do interior não têm unidade de terapia intensiva (UTI) e doentes precisam ser transferidos para a Capital

    Raimundo faleceu esperando transferência para Manaus | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

    Manaus - Um idoso indígena de 84 anos morreu com suspeita de Covid-19 na manhã desta sexta-feira (29), enquanto aguardava transferência para Manaus. O caso aconteceu em Nova Olinda do Norte (distante 260 km de Manaus), município com 95 casos de coronavírus e sete óbitos pela doença.

    Raimundo Cardoso pertencia ao povo Munduruku e morava na Aldeia  Kwataq. No dia 14 deste mês, o idoso começou a manifestar os primeiros sintomas do novo coronavírus e foi internado no Hospital Galo Manoel Ibanez, o único de Nova Olinda do Norte.

    Como não há unidade de terapia intensiva (UTI) em nenhum dos 61 municípios do interior do Amazonas, apenas na capital, o idoso, para sobreviver, necessitava de uma transferência para Manaus. O estado dele era grave.

    Familiares foram informados, no entanto, que a transferência não poderia ser feita porque não havia vaga no hospital de campanha na capital, e também não havia avião com UTI embutida que pudesse levar o idoso.

    Nota do Governo

    A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) lamentou a morte do idoso e informou que ele era o quarto da fila para ser transferido para Manaus. A viagem para a capital estava prevista para o dia 29 de maio, às 8h, no entanto, Raimundo faleceu antes.

    "A Susam garante que a morte do idoso não foi por falta de leito no Hospital de Combate à Covid-19 [...] o pedido de transferência do paciente foi inserido no Sister [sistema que as unidades de saúde usam para pedir transferências de pacientes] na quarta-feira (27) e não foi especificado se o mesmo era indígena. O paciente era o quarto da fila do município de Nova Olinda do Norte. No dia 28, um dia após o pedido foram transferidos dois pacientes mais graves do município", diz a nota.

    Os números da Covid-19 em indígenas

    Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), até a sexta-feira (29), havia 1.252 casos confirmados do novo coronavírus em indígenas, no Brasil. Mortes eram 51.

    60% dos indígenas com coronavírus estão no Amazonas
    60% dos indígenas com coronavírus estão no Amazonas | Foto: Arquivo/ISA

    No entanto, dados de coronavírus em indígenas têm um desentendimento entre governo e indígenas. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Sesai contabilizam como indígenas apenas os que vivem em áreas rurais, quando o certo, segundo organizações socioambientais, é incluir também os indígenas de áreas urbanas. 

    A Coordenação das Organizações Indígenas na Amazônia Brasileira (Coiab) contabiliza o número de indígenas mortos tanto em aldeias, como comunidades dentro e fora do perímetro urbano.

    Só nos nove estados da Amazônia brasileira (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e Maranhão), até esta sexta-feira (29), haviam sido registradas 141 mortes de indígenas, em 51 povos diferentes.

    Atendimento indígena

    Atualmente, o atendimento para coronavírus aos povos da floresta é realizado por meio de um dos 34 Distritos Especiais de Saúde Indígena (Dsei) distribuídos por todo o Brasil. Eles atendem cerca de 800 mil indígenas aldeados, o que é quase toda a população indígena do País (869,9 mil), segundo a Funai.

    Casos graves de Covid-19 precisam ir para Manaus
    Casos graves de Covid-19 precisam ir para Manaus | Foto: Paulo Desana/Amazônia Real

    O problema ainda é a distância para os casos graves. O indígena que fica doente no Amazonas, por exemplo, precisa viajar, em média, mais de 400 km para receber atendimento. É a maior distância do Brasil para receber tratamento para coronavírus em estágios mais críticos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

    Esta semana o governo do Estado anunciou a inauguração de uma ala médica exclusiva para o tratamento de indígenas com Covid-19. A estrutura fica no hospital da Nilton Lins. São 20 leitos de alta complexidade e 33 leitos clínicos.