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    Perigo


    Tragédia anunciada: o perigo que as pipas e o cerol trazem, no AM

    Em Manaus, mulher morreu após ter pescoço cortado por linha de cerol

    Bombeiros do AM alertam sobre os perigos causados pela linha de cerol e chilena | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Seja colorida, neon, listrada ou improvisada a pipa é uma das brincadeiras mais populares e antigas no Amazonas. Seja crianças ou adultos, os pipeiros, como são chamadas as pessoas que praticam a brincadeira, passam horas a fio empinando os papagaios. Para eles não importa o quão quente está o dia, o importante é se divertir. No entanto, a brincadeira apresenta diversos riscos para as pessoas ao redor devido ao cerol utilizado nas linhas das pipas, um composto feito com pedaços de vidro e cola que pode provocar vários acidentes nos âmbitos da brincadeira. 

    No último mês, a brincadeira resultou na morte da frentista Marta Cristina Souza da Silva, 38, que teve o pescoço cortado por uma linha de cerol enquanto pilotava sua motocicleta na Rua Margarita, bairro Cidade de Deus, Zona Norte. A vítima foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) , no Hospital e Pronto-Socorro (HPS) Platão Araujo e faleceu na última sexta-feira (29). A linha perigosa também provocou ferimentos graves no motociclista Douglas Duarte, que dirigia próximo ao Posto do São Raimundo, bairro Centro, Zona Sul da capital, a vítima teve o nariz cortado e precisou levar seis pontos na região.

    No último mês, a brincadeira resultou na morte da frentista Marta Cristina Souza da Silva
    No último mês, a brincadeira resultou na morte da frentista Marta Cristina Souza da Silva | Foto: Lucas Silva

    "Foi comigo, mas poderia ser com qualquer outra pessoa. Imagina se uma linha de cerol atinge uma pessoa que passa pela rua ou crianças? É muito perigoso, algum órgão responsável deveria fiscalizar e orientar as pessoas a não usar a linha de cerol," ressaltou Douglas.

    A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) não identificou nenhuma ocorrência referente a acidentes envolvendo pipas. Isso deve ocorrer porque, dependendo da ocorrência, as vítimas de cerol podem ser enquadradas em crimes de lesão corporal ou lesão corporal seguido de morte.

    A Polícia Civil enfatiza também que não é crime soltar papagaios, mas há consequências para os casos em que a prática ocasionar lesões em outras pessoas.

    Venda e uso de cerol em Manaus

    A Lei 1.968/2015 proíbe a venda e o uso de cerol nas linhas dos papagaios em Manaus
    A Lei 1.968/2015 proíbe a venda e o uso de cerol nas linhas dos papagaios em Manaus | Foto: Lucas Silva

    A Lei 1.968/2015 proíbe a venda e o uso de cerol nas linhas dos papagaios em Manaus, o valor atual da multa para cada conjunto de material apreendido, pode chegar até R$ 418,90. Pela legislação fica proibida a venda, o armazenamento, o transporte e a distribuição de cerol ou qualquer material cortante utilizado para empinar pipa de papel. Quando se tratar de infrações praticadas por menores, os pais ou responsáveis assumirão as consequências dos seus atos.

    De acordo com a Lei Estadual  nº 5.082, de 08 de janeiro de 2020 a soltura de pipa na capital amazonense é considerada modalidade esportiva desde que os pipeiros não utilizem linhas de cerol na prática. Segundo o deputado estadual João Luiz (PRB), relator da legislação ,  a lei é uma forma de impor regras e mais segurança aos praticantes e a população. 

    “A legislação tornou o ato de soltar pipa mais seguro para a população e aos praticantes, uma vez que estabelece que a soltura de pipa deva ocorrer em local aberto, distante de redes elétricas e de telefonia”, destacou o deputado. 

    Além de reconhecer a soltura de pipa como modalidade esportiva, a lei estadual estabelece algumas regras como o impedimento de invadir casas para resgatar as pipas. 

    Responsabilidade

    Muitos pipeiros são conscientes e evitam realizar a brincadeira em vias com grande movimento
    Muitos pipeiros são conscientes e evitam realizar a brincadeira em vias com grande movimento | Foto: Lucas Silva

    Muitos pipeiros são conscientes e evitam realizar a brincadeira em vias com grande movimento na cidade. É o caso do assistente de almoxarifado Jony Corrêa (43), que solta pipa desde criança na praça do Amarelinho, no bairro Educandos.

    “Eu sempre brinco quando o vento está voltado para a área do rio, pois aqui temos uma área aberta e não corre o risco de a linha pegar em ninguém. Sabemos do risco que ela causa, então estamos sempre atentos”, afirmou. 

    As orientações também são feitas para as crianças que participam da brincadeira no local. E as regras são seguidas à risca como conta Lucas Santos, 12, que solta papagaios desde os sete anos.

    “Todos sabem que não pode soltar pipa para o lado que passa carro, moto e pessoas, pois a linha pode causar acidentes graves. Se não seguir as regras eles não deixam mais a gente brincar, então tem que fazer o correto e só empinar quando é seguro”, comentou.

    A linha também provoca cortes nas mãos de quem brinca e mesmo que isso não impeça a prática de acontecer, o estudante, Henrique Moraes destaca que é precisa saber fazer uso consciente do papagaio. 

    “Estamos sempre prestando atenção nas pessoas que passam aqui para não acertar ninguém, a linha é fina e muitas pessoas não veem o que resulta nos acidentes, então também é responsabilidade não atingir ninguém”, analisou.

    Henrique destacou ainda que o cerol é utilizado nas linhas, pois durante a brincadeira a intenção é 'cortar' o papagaio dos outros pipeiros, fazendo com que a ação vire disputa entre os adeptos.

    Cuidados

    Principal orientação de segurança é feita aos pipeiros para que os adeptos não façam uso da substância cortante
    Principal orientação de segurança é feita aos pipeiros para que os adeptos não façam uso da substância cortante | Foto: Lucas Silva

    Segundo o sargento do Corpo de Bombeiros de Manaus, Denis Ferreira, a principal orientação de segurança é feita aos pipeiros para que os adeptos não façam uso da substância cortante na linha de papagaio, tanto pelos riscos de lesão e também elétrico. 

    "A substância é feita de vidro que é um dos principais condutores de energia, quando o cerol é usado nas pipas, a pessoa que está brincando pode facilmente ser eletrocutada caso a brincadeira esteja sendo feita em áreas que possuem fios elétricos, então é mais um motivo para que o uso do cerol seja descartado", orientou. 

     O sargento destacou ainda que o corpo de Bombeiros não proíbe a brincadeira mas orienta que a melhor prevenção é o bom senso e responsabilidade. 

    "Os pipeiros precisam ser conscientes que o risco do cerol traz tanto para eles como para a população, não há problema brincar desde que ela seja feita de maneira saudável não expondo riscos a ninguém", finalizou Denis. 

    Brincadeira Perigosa

    Já para a dona de casa Ariane Leal, a brincadeira deveria ser exercida em locais apropriados, segundo ela a filha de apenas dois anos já foi atingida pela linha de papagaio ao brincar na praça do Amarelinho.

    “Foi algo muito rápido, ela se soltou da minha mãe para correr e acabou passando perto da linha que não chegou a atingir o olho dela, mas deixou um pequeno corte do cantinho do rosto. Desde esse momento eu fiquei com medo e não passei mais com ela pela praça”, contou.

    Em 2013, um projeto de lei foi aprovado pela Câmara Municipal de Manaus para a construção de pipódromos em todas as zonas da capital
    Em 2013, um projeto de lei foi aprovado pela Câmara Municipal de Manaus para a construção de pipódromos em todas as zonas da capital | Foto: Lucas Silva

    A Associação Manaus Pipa divulgou uma nota em suas redes sociais onde afirma repudiar qualquer forma de brincadeira de pipas e papagaios em locais indevidos na cidade e que apresentem riscos a população. 

    Em 2013, um projeto de lei foi aprovado pela Câmara Municipal de Manaus para a construção de pipódromos em todas as zonas da capital. Após a aprovação na Câmara o projeto seguiu para a aprovação da prefeitura. Os espaços nunca chegaram a ser construídos para que a brincadeira fosse realizada de maneira segura, a Prefeitura de Manaus também não se posicionou sobre a construção.

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