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    Saúde Mental


    Transtornos mentais aumentam 90% entre brasileiros durante isolamento

    Amazonenses relatam como a pandemia afetou a saúde mental

    O medo do contágio, de perder um parente ou o emprego foram os principais fatores que colaboram para que as pessoas desencadeiem transtornos nesse período | Foto: Lucas Silva

    Manaus -  Ansiedade, medo, insegurança e estresse são as principais sensações que atingiram os brasileiros durante o isolamento social. As incertezas sobre o cenário em que o mundo enfrenta fez com que os índices de transtornos mentais aumentassem significativamente, preocupando especialistas sobre a saúde mental da população.

    O medo do contágio, de perder um parente ou o emprego foram os principais fatores que colaboram para que as pessoas desencadeiem transtornos nesse período. A Organização Mundial de Saúde (OMS) apontou que com a pandemia no país, aproximadamente 18,6 milhões de brasileiros, 9,3% da população, passou a apresentar sintomas de ansiedade, já os casos de depressão aumentaram 90% desde o início da crise sanitária no pais, segundo um estudo feito pela Universidade do Estado do Rio (Uerj).

    Os índices fazem com que o Brasil tenha a população que mais sofre devido a pandemia, segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Ipso. Os dados preocupam diversos psicólogos e psiquiatras que temem que os transtornos possam acompanhar os brasileiros mesmo em um cenário pós –pandemia, pensando nisso pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), realizam um estudo com mais de 3,6 mil pessoas que serão acompanhadas por seis meses para que os quadros de transtornos sejam acompanhados.

    A pandemia acabou mudando a rotina de muitas pessoas que precisaram se adaptar com os novos hábitos de prevenção, assim como preocupações pessoais e profissionais que acabaram tirando a sanidade de muitos brasileiros. Este foi o caso da acadêmica de direito, que não quis se identificar, e durante o isolamento desenvolveu crises de ansiedade.

    "É desesperador não ter controle das próprias emoções"

    Com o isolamento, o medo do contágio tomou conta da vida das pessoas
    Com o isolamento, o medo do contágio tomou conta da vida das pessoas | Foto: Lucas Silva

    “Devido à pandemia, passei a trabalhar em home office e no início achei que seria tranquilo, pois não tenho problemas em casa. Com o passar dos dias, eu desenvolvi um medo constante de não está sendo suficiente no trabalho. E sempre acho que vou ser demitida a qualquer momento, começa com uma falta de ar, dor no peito e por fim entro em pânico e começo a chorar sem parar, é desesperador não ter controle das próprias emoções”, lamentou.

    A acadêmica contou ainda que devido à grande quantidade de afazeres, não conseguiu encontrar um espaço de conforto dentro da sua própria casa.

    “Eu estudo e trabalho no meu quarto e isso se tornou horrível, pois eu perdi meu espaço de conforto e não consigo mais pensar em outras coisas a não ser minhas obrigações. Sem falar na equipe de professores que devido ao isolamento dobraram as atividade e trabalhos sem pensar no contexto que o aluno está enfrentando. Estamos em casa, mas sempre com afazeres”, ressaltou.

    "Fico muito apreensivo com o futuro e os impactos que a pandemia trouxe"

    O aumento dos índices de transtornos mentais preocupa os especialistas
    O aumento dos índices de transtornos mentais preocupa os especialistas | Foto: Lucas Silva

    O mesmo problema também atingiu o acadêmico de relações públicas, de identidade não revelada, que já tinha histórico de ansiedade, mas durante a quarentena desencadeou sintomas da síndrome do impostor, quando a pessoa não acredita em conquistas futuras e passa a achar que será sabotada a todo momento.

    “A ansiedade me acompanha há muitos anos, mas recentemente venho apresentando sintomas da síndrome do impostor, creio que desenvolvi o transtorno por estar no fim da faculdade e as expectativas para o futuro profissional terem se tornando angustiantes. Tenho medo de que os quatro anos de estudo não valham a pena, não conseguir um emprego bom ou não ser capaz de conquistar o meu lugar, é frustrante”, analisou.

    O acadêmico afirmou que por passar muito tempo em casa, passou a desenvolver sentimentos de medo e receio quanto ao futuro. “Fico muito apreensivo com o futuro e os impactos que a pandemia trouxe para o mundo, sempre estou pensando o que vai acontecer na minha vida e na realidade das pessoas ao meu redor. Pensamentos como esses pioram a ansiedade, mas são inevitáveis”, destacou. 

    Ansiedade, medo, insegurança e estresse são as principais sensações que atingiram os brasileiros durante o isolamento
    Ansiedade, medo, insegurança e estresse são as principais sensações que atingiram os brasileiros durante o isolamento | Foto: Lucas Silva

    Medo

    O medo é um dos sentimentos que mais provoca mudanças emocionais e mentais nos seres humanos, é por meio dele que somos levados ao pico de adrenalina e onde somos dominados por diversas sensações em pequenos segundos.

    Em alguns casos, o medo é um mecanismo que nos permite alcançar novos desafios e superar situações inesperadas, no entanto, durante o isolamento a sensação passou a provocar pânico e impedir as pessoas de realizarem atividades básicas, como conversar com outros indivíduos.

    A profissional de relações públicas, que terá a identidade preservada, passou a desenvolver transtorno de ansiedade e depressão logo no início da pandemia.

    “Começou quando a cada dia os números de infectados subiam e eu passei a ter crises de ansiedade, acordava com febre e muito calafrio. A falta de visão do futuro e sem saber o dia de amanhã foram situações que colaboraram para que a depressão aparecesse, tinha semana que eu não conseguia levantar de tanto medo e muitas dores, comecei a me trancar no quarto, não queria falar com ninguém, fugia das situações e de pessoas”, contou.

    A profissional também destacou que uma as sensações pioraram quando o trabalho presencial foi retomado. “Na primeira semana eu fiquei com muito medo, mas logo pensei que o contato com as pessoas me faria bem e eu conseguiria retomar a rotina. No decorrer dos dias senti muitas dores, suor e minha visão ficou embranquecida. Sempre fui uma pessoa focada e não conseguia mais me organizar, tinha uma constante preocupação, meu coração acelerava, tive enjoos, náusea e até disenteria”, relembrou.

    Tratamento

    Manaus atende pessoas que apresentem sintomas de transtornos mentais durante a pandemia. A base de atendimento on-line conta com um grupo de 30 psicólogos e funciona todos os dias na Escola Superior de Ciências da Saúde da UEA, Zona Sul de Manaus.

    Os pacientes que desejam realizar consulta podem acessar o aplicativo Sasi, utilizar o código “JUNTO” e ao selecionar a opção “Quero falar sobre minhas emoções” será direcionado a uma ligação com o profissional de saúde, cada ligação dura aproximadamente 30 minutos.

    Além do tratamento on-line, também é possível amenizar o quadro de transtornos com pequenos hábitos em casa. Para a psicóloga e psicoterapeuta individual Fernanda Melo, o primeiro passo para o tratamento é identificar como os transtornos reagem no nosso corpo e suas causas.

    “Precisamos aceitar que o medo e a ansiedade são mecanismos do nosso corpo que aparecem para nos alertar sobre um risco, então é comum ter essas sensações em um momento delicado como esse. Identifique como esses sentimentos reagem na sua mente e no seu corpo, entenda que você precisa tratá-los e não eliminar de uma hora para outra”, explicou.

    Fernanda destacou ainda que após o processo de aceitação das alterações emocionais é preciso encontrar formas de combatê-las de maneira natural, em pequenos hábitos.

    “Depois que nós aceitamos e entendemos onde a ansiedade domina o nosso corpo e as sensações que ela traz, fica mais fácil tratá-la. No processo de tratamento, vou encontrar mecanismos que eu acredito que vão me curar, seja a fé, meditações, técnicas de relaxamento ou até mesmo o uso de chás e controle da respiração podem eliminar os transtornos de forma gradativa”, finalizou a psicoterapeuta. 

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