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    Abuso Sexual


    Fora da escola, crianças estão mais vulneráveis a sofrer abuso sexual

    Amazonas registrou 98 casos de estupro de vulnerável entre janeiro e maio deste ano

    | Foto: Divulgação

    Manaus - Crianças e adolescentes fazem parte de um grupo dos que sofrem com todos os tipos de violência, inclusive a sexual diante do isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus. E longe da escola elas perdem um grande aliado, o professor, que tem um papel importante na identificação e no combate a esse e de outros tipos de ataques à infância.

    Resultado disso, é que a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) registrou 98 casos de estupro de vulnerável entre janeiro e maio deste ano. Apesar de não divulgar por mês, parte dos crimes ocorreu durante o confinamento social que ocorre no Amazonas desde março, quando a pandemia do novo coronavírus chegou ao Estado. Especialistas alertam para o risco de abuso sexual ao confinar crianças com amigos e até mesmo familiares. 

    Entre janeiro e maio do ano passado, o Amazonas registrou 129 casos de estupro de vulnerável, também segundo a SSP-AM. O número é maior que o deste ano, mas sem considerar os subnotificados, ou seja, vítimas que não denunciaram. 

    O risco global é que crianças sofram violência sexual durante a quarentena imposta por causa da pandemia. Um relatório da World Vision, uma organização não governamental, estima que 85 milhões de crianças e adolescentes (2 a 17 anos) poderão sofrer agressões físicas, emocionais ou sexuais. O dado, se concretizado, representa um aumento de 20% a 32% na média anual desses casos.

    No documento, Andrey Morley, presidente da World Vision, fala sobre como menores ficam mais desprotegidos durante a pandemia. A fala foi divulgada na Agência Senado. 

    Morley é ativista pelos direitos humanos
    Morley é ativista pelos direitos humanos | Foto: Reprodução

    “À medida que o coronavírus progride, milhões de pessoas se refugiam em suas casas para se proteger. Infelizmente, a casa não é um lugar seguro para todos, pois muitos membros da família precisam compartilhar esse espaço com a pessoa que os abusa. Escolas e centros comunitários não podem proteger as crianças como costumavam nessas circunstâncias. Como resultado, nosso relatório mostra um aumento alarmante nos casos de abuso infantil a partir das medidas de isolamento social”, disse ele, no documento. 

    E em Manaus, os abusadores da vítima estão dentro de casa. São padrastos, tios, avós e até mesmo os próprios pais. Em abril deste ano, um homem identificado Clicio Soares da Silva foi preso na rua Eliete Silveira, bairro Santa Etelvina, Zona Norte de Manaus, por estupro de vulnerável. A vítima era a própria filha de 10 anos, que sofria os abusos desde que tinha três anos. Estupro foi intensificado quando a criança estava sem ir à escola.

    Outro caso, também em abril, um motorista que é funcionário público municipal, de 44 anos, foi preso, em flagrante, por estupro de vulnerável, que teve como vítima a sobrinha dele, uma criança de oito anos. O crime aconteceu em Borba (distante 151 quilômetros em linha reta de Manaus).

    Em maio deste ano, outro caso ocorreu sendo o pai o abusador da própria filha. Um homem de 39 anos foi preso após ser denunciado pela filha, uma adolescente de 13 anos por estupro e lesão corporal. O crime ocorreu na rua Careiro, bairro São José, Zona Leste de Manaus. 

    E neste mês, um padrasto de 23 anos foi preso após abusar sexualmente de enteada de quatro anos, em Parintins. Segundo a delegada Alessandra Trigueiro, a mãe da criança estava dando banho na menina, momento em que a mesma começou a chorar reclamando de dor. Ela contou à genitora que o padrasto tocou em suas partes íntimas e ele dizia que era o ‘bicho papão’, por isso, ela não podia contar a ninguém. 

    Estupradores estão em todo lugar

    Camila Araújo (nome fictício para proteção da vítima) tem 20 anos e é estudante. A jovem tem um passado que pouco comenta. Aos nove anos, ela foi assediada sexualmente por um 'amigo' da família. Á época, a mãe trabalhava. Em uma tarde, o homem ficou responsável por buscá-la na escola como um favor. Foi quando tudo aconteceu.

    "Ao todo, fui assediada três vezes na infância. Cheguei a contar para a minha mãe e meu avô, mas eles não acreditaram inicialmente. Só aconteceu algo quando contei para a minha professora da escola. Ela me ouviu, acreditou e chamou meu pai na escola", conta a jovem.

    Mas até chegar na professora também não foi fácil. Camila diz que seria aula de natação, mas ela não quis ir e mostrou muito medo de precisar trocar de roupa. A professora dela percebeu que havia algo de errado e a estudante contou para a professora.

    "Ela me levou para a sala dela e perguntou o que estava acontecendo. Eu disse que meu tio havia tentado tirar minha roupa. Depois ela me levou para a psicóloga da escola e eu só fui para casa quando meu pai me buscou e elas conversaram com ele", conta Camila.

    O impacto da escola no combate à violência sexual

    Não faltam relatos de violências sexuais descobertas por professores e outros profissionais que atuam em escolas.  Janira Moraes é psicóloga e atua na Secretaria de Educação (Seduc-AM). Ela diz que inúmeras crianças já relataram, em terapias, casos de abuso.

    "Um caso que chamou atenção foi de uma aluna, de 12 anos, que apresentou humor deprimido e inicialmente dizia sofrer bullyng. Ela tem uma deficiência física em uma das pernas. A professora estabeleceu um vínculo e acabou descobrindo o abuso cometido por um vizinho, ocorrido quando a aluna tinha por volta de seis anos. O caso chegou a mim por uma via diferente. A professora que também tinha sido vítima de violência na infância e estava saindo de um tratamento para depressão, acabou se envolvendo pessoalmente com o caso e precisou de ajuda", conta a profissional.

    Janira é psicóloga clinica e educacional, especialista em terapia comportamental e cognitiva
    Janira é psicóloga clinica e educacional, especialista em terapia comportamental e cognitiva | Foto: Divulgação

    Outro caso, segundo Janira, foi o de uma adolescente de 15 anos estuprada por um vizinho da família. A estudante chamou a atenção da pedagoga da escola após ser vista com marcas de automutilação. 

    "Ela relatou que estava grávida e não sabia o que fazer, porque morava com a irmã e os pais não sabiam. A vítima me contou que foi estuprada por um vizinho da família quando foi passar uns dias em um sítio e o vizinho foi até o local quando o pai saiu pra pescar. O agressor viu que ela estava sozinha, a ameaçou com uma faca e consumou o ato. Chamei a família e fomos à delegacia especializada registrar o fato", diz Janira.

    A psicóloga defende que o papel do professor é importante na identificação da violência sexual infantil porque há muitas situações em que ela pode ocorrer dentro da própria casa da criança ou do adolescente. Segundo ela, sempre os educadores precisam estar preparados e capacitados por profissionais qualificados para que possam atuar diante dessas situações.

    "A principal forma de ajudar é acolher, escutar o aluno sem questionar e servir como apoio emocional e ponto de segurança para essa criança e adolescente", diz ela.

    Comportamentos suspeitos

    A psicóloga cita ainda comportamentos de crianças e adolescentes que podem indicar histórico de violência sexual. Segundo ela, os sinais mais comuns são mudanças bruscas na forma de agir e sem causa aparente. 

    "Por exemplo, começam a ter medo de adultos, a urinar na cama, passam a ficar muito tristes ou parecendo estar em depressão. Algumas delas se isolam, conversam menos com as pessoas e se tornam menos participativas", afirma a profissional.

    Ir mal na escola pode indicar violência se somado a outros fatores
    Ir mal na escola pode indicar violência se somado a outros fatores | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    Além destes, outros sinais podem ser perda de apetite, atitudes agressivas, baixa autoestima, insegurança, comportamento sexual inadequado para a idade (se tocar com frequência) e se isolar.

    "Queda de rendimento na escola ou vontade de abandonar os estudos também podem ser sinais. Lesões ou hematomas sem explicação e distúrbios do sono são outros comportamentos", diz ela.

    Denúncias

    Caso seja criança ou adolescente e sofra violência sexual, ou conhece quem seja vítima, pode denunciar para a Delegacia Especializada em Crimes Contra Crianças e Adolescentes (Depca). Os relatos são recebidos por meio do disque 100, que é o disque-denúncia nacional de direitos humanos para todas as categorias de violências. Também é possível denunciar ao 181, o disque-denúncia da SSP, e diretamente na Depca, localizada na avenida Via-Láctea, bairro Aleixo, Zona Centro-Sul de Manaus.

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