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    Coronavírus


    Manaus: como será a vida pós-pandemia da cidade que chocou o mundo

    De um vírus no interior da China para uma das maiores tragédias do século no mundo e em Manaus. Mas como a realidade da pandemia pode impactar a cidade no futuro?

    | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Quando o novo coronavírus surgiu em dezembro de 2019 em uma cidade do interior da China, pouco se imaginou que ela chegaria com tanta força ao Amazonas, a Manaus. Mas agora, três meses após a doença ter desembarcado na cidade, os números de infectados e mortos são menores a cada dia. A nova pergunta é: como será a vida dos manauaras que sobreviveram a pandemia do novo coronavírus? A resposta não é fácil, mas especialistas já  têm palpites.

    Não apenas manauaras, mas o mundo se chocou com cenas registradas na capital do Amazonas. Hospitais lotados, cemitérios com recorde de enterros por dia e falta de quarentena em toda a cidade. E mesmo com tanta tragédia ao sol de 40 Cº, Manaus só cumpriu com a ideal taxa de distanciamento social para barrar o coronavírus (70%) uma única vez, em 18 de abril. Segundo relatórios do Atlas do Amazonas, a capital do Estado manteve-se, em média, entre 44% e 52%.

    Realidade urbana dificultou isolamento
    Realidade urbana dificultou isolamento | Foto: Lucas Silva

    A nova rotina da Covid-19 já começa a provocar alterações no tecido social. Cientistas da área têm se dividido em duas vertentes. Um lado acredita que as pessoas, com o trauma da pandemia, vão preferir ficar distantes umas das outras, e o outro lado aponta uma proximidade física resultante do trauma do isolamento social. 

    Crescimento desordenado e falta de saneamento básico

     Toda essa dificuldade em se ajustar à nova rotina faz parte do cotidiano de muitos manauaras. A cidade, pela forma como cresceu ao longo do tempo, pode não ser considerada o melhor lugar para se fazer isolamento social. É o que afirma Jean Faria, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU-AM).

    "No desenho de Manaus você tem várias invasões, principalmente em áreas de periferia. É essa a principal imagem urbana de Manaus. É uma cidade que 70% das áreas são resultados de invasões, ou seja, só 30% tiveram algum planejamento", diz o especialista.
    Segundo Faria, esses aspectos da Capital tornaram difícil o combate ao novo coronavírus. Ele aponta o baixo saneamento básico dessas áreas e a densidade populacional como fatores que ajudaram a Covid-19 a se proliferar.

    Faria prevê grandes mudanças no planejamento urbano e no saneamento básico
    Faria prevê grandes mudanças no planejamento urbano e no saneamento básico | Foto: Divulgação

    O urbanista diz ser difícil prever o que irá acontecer com a Manaus pós-pandemia, mas sugere que um caminho seja o planejamento da cidade. Para Faria, se isso for feito, poderá evitar grandes aglomerações, desigualdade e consequentes problemas de saúde.

    Um dos pontos essenciais, ele explica, é o saneamento básico. O especialista lembra que estudos mostram que ter acesso à água potável e esgoto encanado diminui para mais da metade a chance de surgirem doenças que matam as populações mais pobres, como a cólera.

    "Esses espaços de periferia e invasão às vezes não têm banheiro. As pessoas defecam no buraco. O cachorro mexe, as crianças brincam no terreno. Então você acaba tendo doenças que poderiam ter sido erradicadas com uma boa urbanização. Sem contar que nessas áreas você não tem um espaço de lazer como praça ou campo de futebol", diz o urbanista.

    Faria comenta ainda que os projetos de estabelecimentos também devem mudar. Segundo ele, ao planejar um novo restaurante, por exemplo, os donos vão pensar bem onde colocar o caixa, e quão distante disporão as mesas pelo espaço. Mudanças resultantes da pandemia. 

    Solidariedade e crédito à ciência

    Tiago Jacauna é sociólogo e ressalta que a forma como os indivíduos lidam com a pandemia - e os efeitos dela- podem ser diferentes a depender da comunidade ou grupo que participam. Segundo o analista, questões como ansiedade, percepção de risco e conhecimentos sobre a própria doença não são encaradas da mesma forma.

    "Além disso, as condições sociais para garantir medidas adequadas de prevenção também são diversas. Pessoas mais vulneráveis social e economicamente muitas vezes não possuem água encanada, por exemplo, o que limita as suas possibilidades de prevenção", argumenta o sociólogo.

    Sociólogo vê um futuro mais otimista do que a realidade da pandemia
    Sociólogo vê um futuro mais otimista do que a realidade da pandemia | Foto: Reprodução

    Talvez seja esta diferença de percepção que coloca Jacauna ao lado de apenas parte dos sociólogos quando olham para o futuro do mundo. O analista projeta uma nova normalidade onde diz que seria ideal permanecer o espírito solidário que ele observa ter surgido em parte de da sociedade na pandemia, quando pessoas se ajudaram com doações e outras atividades.

    Ele também projeta um fortalecimento da racionalidade, do ouvir a ciência. A sociedade pode até mesmo estar mais atenta à natureza e suas possibilidades.

    "Talvez a sociedade volte a reconhecer a autoridade da ciência e passe a escutá-la melhor. Esse pode ser um legado da pandemia, pois com ciência é possível salvar mais vidas. Essa mesma ciência já vem alertando sobre possíveis novas pandemias, principalmente associadas à degradação ambiental e às mudanças climáticas. Assim, o voltar ao normal exigirá que construamos uma normalidade outra com uma nova forma de nos relacionarmos com a natureza e isso começa pela rua que moramos até a forma como consumimos. Torna-se urgente estabelecermos um pacto com a ciência e com a natureza", aponta o sociólogo.

    Uma Manaus mais isolada, mas também o mundo

    Diferente da visão relatada por Jacauna, outros cientistas sociais projetam para Manaus -e mundo - um aprofundamento das piores experiências da pandemia, como o escancaramento da desigualdade e o isolamento. Segundo Almir Oliveira, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o futuro não será tão agradável. 

    "Acredito que a pandemia vai criar uma cultura do isolamento. E essa cultura vai ser mecanizada pelas tecnologias. Quando estou falando a cultura do isolamento, estou falando a cultura do isolamento físico. E a depender das tecnologias que serão colocadas, que já estão ocorrendo, essas relações serão cada vez mais por meios virtuais porque a pandemia ainda vai persistir como cultura do medo", diz o professor de sociologia.

    Para Oliveira, o futuro será marcado pelo aprofundamento das desigualdades e preconceitos
    Para Oliveira, o futuro será marcado pelo aprofundamento das desigualdades e preconceitos | Foto: Reprodução

     Oliveira projeta um futuro onde as desigualdades sociais estarão potencializadas após a pandemia, incluindo a realidade amazônica. Para ele, Manaus irá se isolar assim como o resto do mundo, e as cidades terão menos o sentimento de globalização, da mistura de cultura.

    "Tenho um verdadeiro temor que percamos essa ideia global de mundo em função de líderes nacionalistas, individualistas e religiosos, como Donald Trump e Bolsonaro. Cada vez mais esses líderes têm se afastado de entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde e blocos econômicos", afirma o sociólogo. 

    O professor associa ultra religiosos e os ataques às ciências de modo geral, mas principalmente com movimentos anti-vacina e  contra pesquisas científicas. Oliveira faz uma pausa e respira fundo. Em seguida diz: "olha, nem em minha maior distopia sonhei o horror do pré-iluminismo acontecendo novamente no século XXI". 

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