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    Pandemia


    Na pandemia, Bolsa Família vira vetor de coronavírus no interior

    Beneficiários enfrentam filas e aglomerações para tentar receber o auxílio do governo. Em algumas cidades, nem sequer têm agências bancárias para sacar o benefício

    Pessoas têm enfrentado lotação para sacar o benefício do governo | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Uma das principais características do novo coronavírus é a sua transmissão  por meio de secreções que podem ser expelidas pelo corpo durante espirros e tosse ou até na fala. Dada essa realidade, há pelo menos quatro meses o mundo se isolou para evitar o contágio da Covid-19 em aglomerações, mas nem todos podem cumprir essa forma de prevenção. No interior do Amazonas, as agências da Caixa ficaram lotadas para atender à população que solicitou e precisa sacar os benefícios governamentais, como o Bolsa Família e o auxílio emergencial de R$ 600. 

    Andreia, 32, é dona de casa e mora no município Careiro, na região metropolitana de Manaus. Ela preferiu não informar o sobrenome por medo de alguma represália, mas diz saber muito bem como é a realidade de quem precisa sacar o Bolsa Família na pandemia.

    "Minha única dificuldade para receber [o benefício] é que não tem banco aqui onde moro. Tenho que ir em Manaus  ou na cidade mais próxima [Careiro]", diz ela.

    A amazonense afirma que as agências que frequenta costumam estar sempre lotadas, mesmo durante a pandemia. Além disso, Andreia reclama da demora no atendimento e diz que no mês passado foi pela manhã, mas só conseguiu ser atendida à tarde.

    "Até tem uma prevenção, mas falha bastante. Dentro da agência eles separam as pessoas uma das outras, mas fora, enquanto estamos na fila, fica uma aglomeração, sim", relata a dona de casa.

    Saque do Bolsa Família afeta indígenas 

    A lotação nas agências e lotéricas também é relatada por Nildo Fontes, vice-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Ele mora em São Gabriel da Cachoeira (distante 862 km de Manaus). O município nem sequer tem agência da Caixa Econômica Federal.

    Nildo Fontes é ativista pelos direitos dos indígenas
    Nildo Fontes é ativista pelos direitos dos indígenas | Foto: Divulgação

    "Muitos indígenas precisam sair das aldeias para conseguir sacar o Bolsa Família. E isso tem feito muitos se infectarem, digo para você. A aglomeração nas agências é grande e infelizmente eles precisam passar por isso para ter algum dinheiro para sobreviver", relata Nildo.

    O vice-presidente da Foirn retrata o caso de muitos indígenas que precisam de benefícios governamentais, já que a maioria deles estão associados à pobreza e más condições de trabalho. No Brasil, um dado ainda de 2016 - mas um dos mais 'atuais' sobre o assunto - aponta que quase metade dos indígenas (49%) vive na classe E, considerada mais pobre. Do total de indígenas no País, que é de cerca de 869,9 mil, 18% (156 mil) vivem na extrema pobreza. O dado sobre a quantidade de indígenas é da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o econômico é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Posição do governo federal

    Durante a pandemia, o Ministério da Cidadania, responsável por pagar o Bolsa Família, lançou uma cartilha informacional para os beneficiários. Além de tratar de temas como quem pode receber o auxílio e quais documentos são necessários, o documento trata também das pessoas que moram em áreas distantes ou com dificuldade de internet.

    Beneficiários precisam se dirigir a lotéricas ou agências da Caixa para sacar o benefício
    Beneficiários precisam se dirigir a lotéricas ou agências da Caixa para sacar o benefício | Foto: Lucas Silva

    A cartilha foi enviada ao EM TEMPO, quando este solicitou do governo federal uma posição sobre quais medidas estavam sendo tomadas para ajudar ribeirinhos, indígenas e pessoas que moram em áreas de difícil acesso. O documento trata tanto do Bolsa Família quanto do Auxílio Emergencial da pandemia.

    Para quem tem dificuldade de acesso à internet na hora de solicitar algum dos benefícios, o Ministério da Cidadania aconselha que espere para ir resolver a situação em uma cidade mais próxima. O mesmo vale para quem já solicitou o benefício e necessita de outros tipos de atendimento e não pode fazer pelo celular.

    A pasta não dá outras opções além da possibilidade de as pessoas esperarem para tentar requerer os auxílios em uma cidade mais próxima, o que dificulta a realidade de quem já está parado em casa, em quarentena e precisa buscar alternativas de renda.

    O Ministério da Cidadania não respondeu o EM TEMPO sobre as lotações nas agências bancárias e o que pode ser feito para minimizar o problema.

    Aglomeração tornou interior o pico da pandemia no AM

    No Amazonas, após a capital reduzir o número de mortes e infectados, a impressão que ficou no ar é que o pior tinha passado. No entanto, o interior do Estado ainda sofre com a doença e tem enterrado amazonenses todos os dias.

    Protesto com pedido de ajuda ocorrido em São Gabriel da Cachoeira, em maio
    Protesto com pedido de ajuda ocorrido em São Gabriel da Cachoeira, em maio | Foto: Paulo Desana/Amazônia Real

    Além disso, a aglomeração no interior não se resume às agências bancárias ou ao Bolsa Família. Embora os municípios estejam vendo os casos de Covid-19 e as mortes aumentarem, parte deles ainda vive uma realidade onde 'não existe pandemia'. Dados coletados por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas mostram como a maioria das cidades interioranas aderiu - ou não - às medidas de distanciamento social.

    Por decretos de prefeitos, dos 59 'municípios infectados' com a doença', apenas uma cidade restringiu a circulação de crianças e idosos. Também deste total, apenas 39 decretaram a suspensão de serviços não essenciais. Por último, apenas oito municípios proibiram eventos públicos. 

    Além de Manaus, o TOP cinco de cidades com mais infectados é preenchido por Coari (3.767); Manacapuru (3.134); Tefé (2.784); São Gabriel da Cachoeira (2.703); Parintins (2.550). ¨61 dos 62 municípios do Amazonas registraram casos da doença. Envira é a única exceção.

    Já as mortes ocorreram em 55 municípios. Na lista dos maiores números de óbitos estão Manacapuru (125); Coari (84); Tefé (79); Parintins (78); Tabatinga (74). Os dois dados são os registrados pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) até esta terça-feira (30).

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