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    História


    Ditadura Militar em Manaus fechou jornais e cassou políticos

    Assembleia Legislativa também foi invadida por militares e fechada à força, sob ameaça de tiros de metralhadora

    Edição 18.375 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 2 de abril de 1964 | Foto: Jornal do Commercio

    Manaus - Entre o dia 31 de março e 1 de abril de 1964, militares brasileiros tomaram, à força, o poder do então presidente João Goulart, em Brasília (DF). Depois desse dia, o governo militar foi, gradualmente, instaurando uma ditadura que durou 21 anos e censurou jornais, cassou políticos, torturou e matou quem discordasse do regime. Mas se relatos de repressão costumam mostrar acontecimentos no Rio de Janeiro e em São Paulo, dados históricos dão conta de que Manaus também 'foi torturada' na ditadura. 

    O aposentado Alberto de Souza Cruz, hoje com 67 anos, conta que viu os militares imporem seu poder em Manaus, naquele dia 31 de março de 1964. À época, Alberto estava com 11 anos e diz que nunca esqueceu a experiência que teve.

    "Estava na rua Emílio Moreira, bairro Praça 14 de janeiro, por volta das 16h30. De repente parou um jipe do Exército, um oficial desceu e me perguntou o que eu estava fazendo. Respondi a ele que estava indo para casa e, na hora, ele ordenou que eu voltasse para onde morava. O oficial ainda perguntou se eu não sabia de nada o que estava acontecendo e se eu não lia jornal", conta Souza Cruz.

    Foto atual de Alberto ao lado de outra dele quando jovem, no período do Regime Militar
    Foto atual de Alberto ao lado de outra dele quando jovem, no período do Regime Militar | Foto: Divulgação

    Ele diz que demorou para entender "a gravidade do regime" e só foi se dar conta do que estava acontecendo quando passou a ver "prisões de quem discordava dos militares e quando estes impuseram toque de recolher". Além disso, o aposentado se recorda do período como "severo e longo" e diz que quem acredita que não foi uma ditadura é porque esqueceu ou não viveu o período.

    Diferente de Alberto, há quem acreditasse na época - e até hoje - que o golpe militar foi, na verdade, uma 'revolução' para evitar que o comunismo fosse implantado no Brasil. 

    Notas sobre como ecoou no Amazonas a tomada do poder por militares. Edição 18.375 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 2 de abril de 1964
    Notas sobre como ecoou no Amazonas a tomada do poder por militares. Edição 18.375 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 2 de abril de 1964 | Foto: Jornal do Commercio

    Manaus se dividiu entre apoiadores e críticos

    Logo após o golpe dado pelos militares, houve a Comissão Central do Movimento de Solidarismo e Democracia, que organizou um evento na Praça de São Sebastião, no Centro de Manaus, para esclarecer e apoiar os motivos da tomada do poder pelos militares. 

    O caso é relatado pelo historiador Pedro Andes, em seu artigo 'O golpe Civil Militar de 1964: consolidação e desdobramentos políticos em Manaus'. 

    "[O comício foi] uma grande contradição, pois o golpe atacou diretamente a democracia brasileira e a consolidação do regime militar iria cometer vários crimes contra os direitos democráticos", diz um trecho do artigo.

    Manaus nos anos 60
    Manaus nos anos 60 | Foto: Reprodução/Blog Rogelio Casado

    Em outro momento de seu trabalho, Andes conta que houve ainda um protesto no dia 31 de março de 1964, no Porto de Manaus. A manifestação era contrária à tomada do poder pelo Exército, e ocorreu sob ameaça de repressão policial.

    "Dos sindicatos que estavam organizando o movimento, apenas o Sindicato dos Estivadores entrou em greve, apesar das ameaças do Comando Militar via Jornal do Commercio, onde foi publicado a matéria afirmando que os militares não iriam tolerar atos de desordem e exigiam que os estivadores voltassem ao trabalho", relata o historiador.

    Cassação do governador e de políticos contrários à ditadura

    Após tomarem o poder, os militares julgaram precisar tirar do caminho toda a ameaça de políticos que poderiam tentar impedir que o golpe avançasse. Nesse contexto, o Comando Supremo da Revolução baixou o Ato Institucional n. º 1, que permitia abolir os direitos políticos de qualquer um que discordasse do regime. O decreto foi publicado no dia 9 de abril de 1964, uma semana após os militares tomarem o País.

    O historiador César Augusto conta que, nesta onda de cassações, entrou o governador do Amazonas na época, Plínio Coelho, e parlamentares da oposição à ditadura.

    "Logo instaurou-se um clima de “caça às bruxas” e as perseguições políticas e cassações tiveram início, também atingindo nosso estado. Na primeira lista dos 102 nomes que tiveram seus direitos políticos cassados após o ato institucional n.º 1, divulgada em 10 de abril de 1964, já constavam os nomes de Gilberto Mestrinho, ex-governador do Amazonas (1958-1962), mas eleito deputado federal por Roraima, e do deputado federal Almino Monteiro Alvares Afonso, eleito pelo PTB em 1962", afirma o estudioso. 

    César é professor de História do Trabalho na Universidade Federal do Amazonas
    César é professor de História do Trabalho na Universidade Federal do Amazonas | Foto: Divulgação

    Segundo ele, no mês seguinte a essas cassações políticas, foi a vez do deputado Arlindo Porto (PTB) ter seu mandato abolido após reunião ordinária da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam), tendo sido preso logo em seguida.

    "Na Câmara Municipal de Manaus, o vereador Manoel Rodrigues da Silva, ex-dirigente do Sindicato dos Estivadores, e seu suplente Othon Mendes, além do vereador Nathanael Rodrigues, todos eleitos pelo PTB, também tiveram seus mandatos cassados", conta o historiador.

    Já no dia 14 de junho, foi a vez do governador do Amazonas à época, Plínio Coelho, ter seu mandato cassado pelos militares. Em seu lugar foi colocado Arthur Cezar Ferreira Reis, indicado pelo Marechal Humberto Castelo Branco, o primeiro presidente da Ditadura Militar.

    Embora tenha sido cassado pela Ditadura, no início, o governador chegou a apoiar o golpe e a chamar de 'revolução'
    Embora tenha sido cassado pela Ditadura, no início, o governador chegou a apoiar o golpe e a chamar de 'revolução' | Foto: Reprodução

    Assembleia Legislativa do AM fechada sob ameaça de balas 

    Um dos ápices de repressão a parlamentares do Amazonas foi o fechamento da Assembleia Legislativa pelo governador Arthur Ferreira. O caso também é relatado por Pedro Andes, em seu artigo mencionado no sétimo parágrafo desta reportagem.

    " [...] no dia 10 de agosto de 1964, o novo governador ordenou que as Forças Militares do Estado, invadissem a Assembleia Legislativa e fechasse a casa legislativa. [...] A ação do Governador Arthur Reis foi uma represália pela recusa do poder legislativo ao veto do executivo ao projeto que concedia aumento salarial para os magistrados e reajustava os próximos aumentos com base no salário mínimo nacional", diz um trecho do artigo.

    Edição 18.474 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 11 de agosto de 1964
    Edição 18.474 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 11 de agosto de 1964 | Foto: Jornal do Commercio

    No trabalho, o historiador aponta ainda uma matéria do Jornal do Commercio, à época, sobre o ocorrido. No texto jornalístico, é retratado que o edifício da Aleam foi tomado por uma tropa de choque da Polícia Militar armada com metralhadoras.

    Jornais censurados

    De volta, o historiador César Augusto conta ainda que até mesmo jornais - a maioria de fora da grande mídia - foram censurados durante o período. A prática era utilizada para evitar que os periódicos publicassem críticas à ditadura.

    "Em agosto de 1964, os jornais O Trabalhista e A Gazeta, ambos pertencentes ao grupo Difusão, foram fechados por ordem do governador Arthur Cezar Ferreira Reis e seus redatores foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Seu redator-chefe, Manoel José Antunes, foi preso e recolhido ao quartel da milícia, incurso na Lei de Segurança Nacional", conta o estudioso.

    Nota sobre censura à rádio na edição 18.375 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 2 de abril de 1964
    Nota sobre censura à rádio na edição 18.375 do Jornal do Commercio, veiculada no dia 2 de abril de 1964 | Foto: Jornal do Commercio

    César conta que, em apoio aos jornais censurados, a Associação Amazonense de Imprensa (AAI) enviou uma nota de repúdio ao governador e pediu que os periódicos ocupados pelas forças da Polícia Militar fossem autorizados a voltar a circular normalmente.

    "Anos mais tarde, em maio de 1969, a Revista Cinéfilo: revista amazonense de cinematografia, organizada pelo Grupo de Estudos Cinematográficos (GEC) tendo na figura de José Gaspar o seu grande idealizador, também foi fechada pelo período de cinco anos pela censura amazonense, nunca mais voltando a circular", conta o historiador.

    Segundo César, com base em documentos da época, o 31 de março de 1964 e seus dias posteriores foram marcados por perseguições políticas, cassações de mandatos, prisões de lideranças políticas e sindicais, fechamento de jornais, desrespeito ao judiciário, dentre outras formas de repressão.

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