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    PANDEMIA


    Covid-19 pode ter matado três vezes mais, em Manaus, diz estudo

    Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz compararam número de mortes por doenças respiratórias em 2020 e nos anos anteriores para estimar subnotificação

    cientistas compararam óbitos por causas gerais, insuficiência respiratória e similares, de 2018 a 2020.
    cientistas compararam óbitos por causas gerais, insuficiência respiratória e similares, de 2018 a 2020. | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Um novo estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, aponta para os possíveis números de subnotificação (mortes fora da estatística) da Covid-19, em Manaus. Segundo os dados, até três vezes mais podem ter morrido pela doença. Para chegar ao resultado, cientistas compararam óbitos por causas gerais, insuficiência respiratória e similares, de 2018 a 2020.

    De acordo com os dados, as mortes por causas desconhecidas ou doenças respiratórias dispararam, em Manaus, entre abril e maio. A situação é incomum, se comparada aos anos anteriores. Por outro lado, no mesmo período, a média de mortes por Covid-19 foi considerada baixa. A conta não fecha.

    "De 19 a 28 de abril, a média diária de sepultamentos foi de 123, valor quatro vezes maior do que a média diária de 2019. Chama atenção que a média diária de mortes por Covid-19, reconhecida pelos serviços de saúde no mesmo período, tenha sido de apenas 14 óbitos, sugerindo ampla subnotificação", avalia o estudo.

    A diferença das mortes, também, é observada em gráficos que indicam a mortalidade geral por semana epidemiológica (Sei), em Manaus. Em 2019/2018, os óbitos nesse caso são de cerca de um, em uma escala de cinco. No entanto, quando se observa esse mesmo gráfico com a perspectiva 2020/2019, a razão dispara até 4,6, próximo do limite da escala.

    Como estudo foi feito

    Para realizar a pesquisa, os cientistas utilizaram dados da Central de Informações do Registro Civil (CRC). A plataforma contém dados sobre mortes gerais e específicas em todo o Brasil. Por causa da pandemia, o site tem sido atualizado diariamente, para possibilitar estudos e análises científicas com os números.

    Considerou-se morte por Covid-19, por síndrome respiratória aguda grave (SRAG), pneumonia, septicemia e insuficiência respiratória. Além disso, pesquisadores analisaram os números de óbitos não classificados com nenhuma das condições anteriores, os quais ficaram intitulados "demais causas". Por fim, também separaram as mortes 'indeterminadas', quando havia dúvida de causa por doença respiratória, mas sem confirmação.

    Mortes em Manaus podem ter sido muito maiores
    Mortes em Manaus podem ter sido muito maiores | Foto: Lucas Silva

    Os cientistas alertaram ainda para observações nos dados. O primeiro deles é com a plataforma CRC, que reúne mortes no Brasil. 

    "A interpretação dos resultados deste estudo deve levar em conta algumas limitações como a ausência de padronização/revisão das causas de morte [...] e um possível sub-registro de óbitos na plataforma digital da CRC Nacional, especialmente em 2019, o que poderia superestimar as razões entre o total de óbitos de 2020 e 2019, por exemplo. No entanto, a julgar pelas comparações entre o total de óbitos de 2019 e 2018, sempre próximas a 1, é possível que essa distorção seja pequena", explica um trecho do artigo.

    Importância do estudo

    Para os pesquisadores, analisar a diferença entre mortes gerais em 2020 e nos anos anteriores poderá ser "um bom e barato indicador" do quanto não se sabe sobre quantas pessoas morreram pela Covid-19 em Manaus. 

    "O objetivo deste estudo foi analisar o excesso na mortalidade geral, segundo Semanas Epidemiológicas (SE), visando a identificar mudanças no risco de morte, potencialmente associadas à epidemia.", explicam os cientistas.

    Análise adotada

    Eles ressaltam que a estratégia de análise adotada no estudo revela de forma inequívoca o elevado excesso da mortalidade em Manaus, "expondo a gravida da pandemia em contextos de grande desigualdade social, fraca efetividade de políticas públicas e fragilidade dos serviços de saúde".

    "Nesse cenário, reforços devem ser envidados rapidamente por gestores das três esferas de governo, de modo a conter ou minorar o efeito deletério da Covid-19, sobretudo em áreas mais precárias, onde o impacto da pandemia sobre a mortalidade tende a ser mais acentuado", ressaltam os pesquisadores.

    O estudo foi publicado neste mês no 'Cadernos de Saúde Pública', periódico da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca. Assinam a pesquisa os cientistas Jesem Douglas, Yamall Orellana, Geraldo Marcelo da Cunha, Lihsieh Marrero, Bernardo Lessa Horta e Iuri da Costa Leite.

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