Violência sexual


Neste ano, 209 crianças já sofreram abuso sexual em Manaus

Não há dados de subregistros, mas especialistas afirmam que existem casos em que a vítima é silenciada, em sua maioria, dentro de casa, por pessoas que praticam a violência

A cada 24 horas, 320 crianças e adolescentes sofrem abuso no Brasil
A cada 24 horas, 320 crianças e adolescentes sofrem abuso no Brasil | Foto: Agência Brasil/Arquivo

Manaus - Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente (SNDCA), a cada 24 horas, 320 crianças e adolescentes sofrem abuso no Brasil. Os dados alarmantes são narrativas de vítimas reais e entre muitas histórias marcadas pela violência sexual, como a da pedagoga, Glauciane Ferreira. Ela foi vítima de abuso na infância como outras 209 crianças que entraram para as tristes estatísticas em Manaus, no primeiro semestre desta ano, conforme a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).

Em 2019, foram 576 casos de abusos sexuais, só na capital amazonense. De janeiro a junho do ano passado, foram 273 denúncias confirmadas.

Família respeitava mas os amigos, não

Ao encontrar conterrâneos, o pai de Glauciane, sempre os hospedavam em casa. Um nordestino acolhedor, com intenção de ajudar as pessoas, ele levava conhecidos, que passavam um tempo com sua família. O pai trabalhava fora e a mãe escolheu a vida doméstica para acompanhar os filhos e dar educação emocional, moral e passar os valores de uma família tradicionalmente religiosa, conta a pedagoga.

“A vigilância constante é a melhor forma de prevenir os abusos sexuais na infância”, diz psicóloga.
“A vigilância constante é a melhor forma de prevenir os abusos sexuais na infância”, diz psicóloga. | Foto: Divulgação

 “Minha infância foi bem acompanhada pelos meus pais. A gente teve uma estrutura familiar muito boa.  A parte negativa foi o abuso sexual. Um desses colegas que estava em nossa casa, começou a colocar a mão embaixo da minha saia e mexer na parte íntima”, relata Glauciane.

Hóspedes abusadores

Por volta dos 11 ou 12 anos, a pedagoga chegou a ser abusada por um hóspede, também. “Por algumas vezes, acordei com esse monstro tocando na minha vagina e nos meus seios. Eu rejeitava muito a ida dele lá em casa. Depois de tudo o que passei, achava que eu era errada, por isso, não contei nada para ninguém, por medo que as pessoas pensassem que eu era safada”, desabafa.

Durante anos, Glauciane guardou esse segredo para si e, com ele, todo o sofrimento. “Eu contei para a minha mãe quando estava adulta, pouco tempo antes de me casar. O abusador era próximo da família, vinha como viajante e ficava hospedado. Ele não foi denunciado porque deixou de frequentar a nossa casa há muito tempo.”

Traumas

Anos depois de sofrer o abuso, ela conheceu um rapaz com quem se casou. A partir dessa nova fase, problemas físicos e emocionais se acentuaram. “Tive dificuldades na relação sexual, pois, não gostava de sexo, diante de tudo o que passei. Por 9 anos tive depressão. Só depois de fazer sessões de terapia e concluir uma pós-graduação em Terapia Familiar e de Casal, entendi que a dificuldade na relação sexual e outros problemas eram, na verdade, fruto do abuso que sofri. Percebi que era vítima e não culpada”, revela Glauciane.

Desatando os “nós”

Com os traumas, ela entendeu que precisava se libertar do sentimento de culpa, após participar do projeto Quebrando o Silêncio (QS), que visa prevenir e alertar a população sobre abuso e violência. A partir desse momento, ela quebrou as algemas que a impediam de crescer. “Antes não me sentia vítima, e sim culpada. Graças a Deus, a estrutura familiar que tenho, ao projeto QS que me apoia e orienta, consegui chegar até aqui”, admite a pedagoga.

Com tudo o que sofreu, Glauciane resolveu cursar psicologia para ajudar outras pessoas a superar seus traumas. A pedagoga, que também tem pós-graduação em Docência do Ensino Superior e Terapia Familiar e de Casal, encontrou nos estudos uma porta de entrada para novas oportunidades e libertação. “Os estudos ajudaram a me reerguer! Passei a ler sobre o assunto, a estudar mesmo e a compreender tudo relacionado ao abuso para desatar os nós, a dor e os desapontamentos. Hoje compreendo que o abusador é vítima e me fez vítima. Fui vítima dele fisicamente, mas não posso permitir ser vítima dele emocionalmente também”, desprende.

Dados nacionais

Em 2019, a central de atendimento do Disque 100 recebeu mais de 86, 8 mil denúncias de abusos contra crianças e adolescentes em todo o País, segundo o relatório da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH). Ou seja, os números mostram um aumento de 14% em relação ao ano de 2018. Porém, existe uma dificuldade em obter os dados exatos do número de denúncias de crianças e adolescentes que sofreram algum tipo de abuso no Brasil. Ainda há uma estimativa de que apenas 10% das ocorrências de abusos sejam delatadas.

Com o tratamento profissional e o afastamento do abusador, que inclusive deve ser denunciado, a criança pode superar e procurar levar uma vida normal.
Com o tratamento profissional e o afastamento do abusador, que inclusive deve ser denunciado, a criança pode superar e procurar levar uma vida normal. | Foto: Divulgação

 

O que é abuso?

A titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), a delegada Joyce Coelho, explica que abuso é “ato de violação sexual não consentido pela outra parte. No caso de vulnerável, não existe a necessidade de se questionar ou não o consentimento, é crime por que assim está descrito no código penal.”

O mais conhecido é o abuso sexual, porém, existem diversos tipos e são considerados crimes. Além de detalhar os casos, a delegada alerta aos pais ou responsáveis como agir diante de uma situação de abuso.  “Alguns deles são o estupro de vulnerável, a exploração sexual comercial, o assédio sexual, a importunação sexual e a exploração sexual comercial. Ao perceber sinais ou ouvir de uma criança que está sendo vítima de abuso, a pessoa deve denunciar o caso na Depca. Não precisa se identificar. Delitos cometidos contra criança e adolescente são crimes de ação pública incondicionada e de investigação obrigatória”, esclarece.

Consequências do abuso

Segundo a psiquiatra Alessandra Pereira, o abuso traz graves consequências e até abertura para doenças emocionais. “O abuso físico, psicológico ou sexual na infância é um dos maiores fatores de risco para o desenvolvimento de transtorno mental na vida de um indivíduo. Há sequelas emocionais e cognitivas, que vão impactar a curto, médio e longo prazo, corroborando para quadros de transtornos de humor e ansiedade, aumentando a ideação suicida e influenciando no aparecimento de quadros de Transtornos de Estresse Pós-Traumático. Também desenvolvem sentimentos de medo, dificuldades de socialização e de estabelecer relacionamentos saudáveis, baixa confiança e autoestima”, descreve.

Sinais de abuso

Diante de tantos casos, a psicóloga Luenda Lira ilustra alguns tipos de comportamento que uma criança, vítima de abuso, pode demostrar. Cabe aos pais e professores estarem sob alerta. “A criança pode se isolar ou até mesmo reproduzir os atos libidinosos vivenciados com outras crianças. Esta condição pode interferir também nos estudos da criança, com o reflexo de notas baixas ou comportamento agressivo. Bem como, regressão no desenvolvimento”, destaca.

O abusador não está longe

Existe um mito de que o abusador é desconhecido e está longe do convívio familiar. Outra falsa crença é que essas situações de abusos só ocorrem em classes sociais menos favorecidas e com crianças abandonadas. Segundo o levantamento feito pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, “nos casos específicos de violência sexual, os padrastos (21%) são os principais abusadores, seguidos de pai (19%), mãe (14%), tio (9%) e vizinhos (7%)”, mostra os dados na íntegra.

Para evitar o abuso, dialogar com a criança é o primeiro passo que deve ser aderido como meio de proteção, segundo a psicóloga Luenda. “Com o diálogo, os responsáveis podem passar segurança à criança, a ponto de ela confiar em contar diante de qualquer intercorrência. Introduzir a educação sexual com a criança conforme a idade, de modo que saibam limitar quem pode tocar em seu corpo e quais são os toques permitidos também ajuda”, orienta.

Auxílio pós-abuso

De acordo com a psicóloga, levar a criança que sofreu abuso ao psicólogo é a maneira mais eficaz de ajudá-la, mesmo que a criança não demonstre sintomas graves devido ao abuso. “Desta forma, ela elaborará melhor tal vivência, prevenindo de possíveis disfunções sexuais na fase adulta. A psicoterapia pode auxiliar no processo de ressignificação deste possível trauma. ”

“Outro aspecto fundamental é não permitir mais a convivência da criança com o abusador, que geralmente é um parente ou amigo próximo”, afirma a psiquiatra Alessandra.

Com o tratamento profissional e o afastamento do abusador, que inclusive deve ser denunciado, a criança pode superar e procurar levar uma vida normal.
Com o tratamento profissional e o afastamento do abusador, que inclusive deve ser denunciado, a criança pode superar e procurar levar uma vida normal. | Foto: Getty Images

O abusador

“Os abusos sexuais praticados em crianças podem estar ligados a um possível diagnóstico de pedofilia. Na maioria das vezes, o fato da criança ser vulnerável, não ter entendimento do que é sexo tampouco abuso sexual, explica o grande número de vítimas. Nem sempre saber que é um crime é impeditivo, pois os abusadores podem se sentir acima de qualquer punição”, explica a psiquiatra.

Será que um abusador poderá se recuperar totalmente com tratamento? Sobre essa dúvida, a psicóloga Luenda diz que a solução não é tão simples assim. “É difícil falar em cura sem entendermos todo o caminho que levou essa pessoa a ser um abusador. É uma questão multifatorial e na qual é difícil se posicionar com um sim ou não. Caso o abusador seja pedófilo, por exemplo, não há cura para parafilias, contudo, há tratamento com psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico.”

Projetos de prevenção e alerta

Diante de tantos casos, a melhor estratégia em combate à violência é a prevenção. Uma dessas iniciativas existe há 18 anos. Intitulado como Quebrando o Silêncio, o projeto acontece em todos os anos em oito países da América do Sul (Peru, Argentina, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Brasil, Equador e Chile). Além da mobilização, que é feita durante o ano, o mês de agosto marca a ênfase do tema do projeto anual. São realizadas palestras em escolas, passeatas, corrida Quebrando o Silêncio com a população, palestras públicas, distribuição de panfletos e revistas para crianças, adolescentes e adultos. Todas essas atividades, além de alertar, servem de incentivo à denúncia dos abusadores. Neste ano, o tema gira em torno da violência em todos os aspectos, focando a violência doméstica e suas consequências. Por conta da pandemia, as ações habituais foram suspensas, mas será realizado um Fórum de enfrentamento à violência. 

Punição

De acordo com a delegada, a pena base para o crime de estupro de vulnerável, que é o tipo penal mais grave, é de 8 a 15 anos. No entanto, a punição depende do crime e do processo judicial. Geralmente, as denúncias recebidas na Depca chegam através da escola, do Conselho Tutelar ou de algum parente que, ao saber dos abusos, faz a denúncia. Através do Disque 100, o abuso também pode ser denunciado e sob o anonimato.

Telefones úteis:

Disque 100 – Violência sexual contra crianças e adolescentes

Disque 180 – Central de atendimento à mulher

Disque 181 – Disque denúncia (garante o anonimato)

Disque 190 – Polícia Militar – (para ajuda imediata) 


Leia mais:

Ônibus em Manaus terão Wi-Fi; testes começaram no início de agosto

Apagão deixa parte de Manaus às escuras

Uma boa opção para o AM? Israel inaugura cinema flutuante