Violência contra mulheres


Neste ano, mais de 12 mil mulheres sofreram violência no AM

No PORTAL EM TEMPO, 11 publicações em um prazo de 24 horas, já chegaram a ser feitas sobre mulheres violentadas, inclusive com vítimas fatais

“A mulher acaba aguentando essa situação por muito tempo. Quando procura ajuda, já está mais grave", explica a delegada Ivone Azevedo.
“A mulher acaba aguentando essa situação por muito tempo. Quando procura ajuda, já está mais grave", explica a delegada Ivone Azevedo. | Foto: Chico Batata/TJAM

Manaus –  De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP/AM), 12.984 mulheres foram vítimas de violência doméstica de janeiro a julho deste ano. Já o número de casos de mulheres que sofreram lesão corporal no mesmo período, chegou a 1.697. Em relação a esse mesmo período de 2019, o número foi menor e aponta 1.258 vítimas. No total de 2019, 2.492 mulheres foram agredidas fisicamente.

Em agosto deste ano, o EM TEMPO contou vários relatos de violência e feminicídio e já chegou a publicar onze casos de mulheres violentadas, em um prazo de 24 horas, como a triste história da Miss Manicoré Kimberly Karen Mota, assassinada pelo ex-namorado. Ou mesmo, do homem que agrediu e esfaqueou a companheira, após uma discussão em Manaus.  

Diante desses dados e casos, pode-se perceber histórias que se encontram em uma realidade não tão distante. A advogada e economista Jacqueline Suriadakis é uma prova de superação. Com uma vida estruturada, começou um relacionamento. Porém, com o tempo, percebeu como essa relação desestruturou sua vida em todos os aspectos.

“Fui vítima de violência psicológica que, para mim, é a pior forma de violência porque afeta a sua alma de tão grande que é a dor. Após o fim da relação, fiz terapia. Acredito que, depois de um processo traumático de violência, todos devem fazer terapia para conseguir se equilibrar”, relata.

Na foto, Jaqueline Suriadakis contra a violência.
Na foto, Jaqueline Suriadakis contra a violência. | Foto: Divulgação

De vítima a salvadora

Após superar o abuso, Jaqueline decidiu criar um projeto para atender mulheres, vítimas de violência. “Quando consegui sair do relacionamento, sugiram amigas próximas que me pediram ajuda, porque estavam sofrendo violência. Comecei a ajudar e começaram a chegar mais pessoas e o meu telefone passou a tocar dia e noite. Foi então que resolvi criar o Fênix”, explica Jaqueline, que também é mestranda em Segurança Pública e especialista em auditoria fiscal e tributária.

O projeto Fênix Amazonas existe há dois anos e recebeu esse nome representando a luta das vítimas, mas a capacidade de renascer, fazendo uma analogia à fênix, animal mitológico grego. A iniciativa já atendeu 200 mulheres e conta com 18 profissionais de diversas áreas, como advogadas, psicólogas, assistentes sociais, pedagogas, economistas, sociólogas, contadoras, entre outros.

A idealizadora do projeto, explica como essas mulheres são ajudadas. “O nosso trabalho começa no resgate da vítima em situação de risco e vulnerabilidade. Depois ela entra em contato, através das redes sociais do Projeto Fênix Amazonas, e fazemos a identificação e o acolhimento. Damos um suporte desde a ida da vítima à Delegacia da Mulher para fazer o Boletim de Ocorrência, ao IML para o exame de corpo delito, como também nas questões de atendimento jurídico e psicológico”, detalha Jaqueline.

Na foto algumas das profissionais, parceiras do projeto Fênix.
Na foto algumas das profissionais, parceiras do projeto Fênix. | Foto: Divulgação

 Traumas e superação

Segundo a psicóloga Fernanda Koba, o impacto de qualquer tipo de abuso varia muito da estrutura de cada pessoa e a capacidade de lidar com o trauma. Porém, pode ter consequências físicas, comportamentais, sociais e na saúde mental.

“A superação é possível quando existem condições necessárias para que essas mulheres consigam seguir suas vidas de forma funcional, apesar do sofrimento vivido. Ter acesso a um atendimento médico e um bom acompanhamento psicológico e, se necessário psiquiátrico, ter uma boa rede de apoio, normalmente formada pela família e amigos próximos e amparo social, fazem bastante diferença”, explana.

Por que as mulheres se permitem continuar com o sofrimento?

Para a responsável pela Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM), a delegada Ivone Azevedo, a dependência financeira é um obstáculo para que a vítima procure ajuda. “A mulher acaba aguentando essa situação por muito tempo. Quando a mulher procura ajuda, está mais grave, porém, já passou por muito tipos de violência por essa dependência não só financeira, mas emocional”, avalia.

Sobre essa dependência, Jaqueline acredita que a culpa e outros fatores acabam influenciando para a não realização da denúncia. “Muitas vezes as mulheres não fazem a denúncia por vergonha, medo e a insegurança dos familiares. A mulher acredita que tem que permanecer sofrendo no relacionamento abusivo por se achar culpada de tudo que está acontecendo, como se ela tivesse causado aquilo para o agressor a punir”, considera.  

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Acredito que as mulheres passam pela violência porque romantizam e acreditam que o agressor não vai mais repetir a agressão "

Jaqueline Suriadakis, explicando o porquê muitas mulheres não fazem a denúncia.

Penalidade

A delegada Ivone descreve os tipos de denúncia que, geralmente, chegam à delegacia. “As injúrias, ameaças, perturbação da tranquilidade, lesão corporal, exposição da imagem, conhecido como crime da revanche: quando o relacionamento acaba e o ex-parceiro expõe a intimidade nas redes sociais, são os mais comuns.”

Para cumprir a pena, com a Lei Maria da Penha, “qualquer crime de violência doméstica não é mais aceito doações de cesta básica. A penalidade é prisão mesmo, com variação de tempo de acordo com o crime e com a decisão judicial”, esclarece a delegada.  

 Telefones úteis para denúncia:

Disque 180 – Central de atendimento à mulher

Disque 181 – Disque denúncia (garante o anonimato)

Disque 190 – Polícia Militar – (para ajuda imediata)


Confira a história da influenciadora digital Dora Figueiredo, vítima de relacionamento abusivo:

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