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    PROJETO AMAZÔNIA


    Protagonismo e dor de mulheres nas periferias da Amazônia

    No Estado que tem seu nome em homenagem a uma tribo de mulheres guerreiras, mães de todas as idades contam a luta para criar seus filhos em áreas de periferia

    | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Quando perguntada sobre a possibilidade de já terem passado fome, a amazonense e dona de casa Rosa Cardoso, de 66 anos, respira fundo. O som das cigarras do lado de fora da casa de madeira parece ficar mais alto. Com uma voz trêmula, ela responde: "Já faltou comida, sim". A idosa é mãe adotiva de uma adolescente e avó de duas crianças que ajuda a criar. 

    Rosa Cardoso, 66 anos, do lar
    Rosa Cardoso, 66 anos, do lar | Foto: Lucas Silva

    Todos moram no bairro Compensa - 89,6 mil habitantes - na Zona Oeste de Manaus. Em um dos muitos becos da área, fica a casinha de três cômodos (apenas um quarto e uma cama de casal) que abriga seis pessoas. 

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    Manaus ocupa a 850ª posição entre os 5.565 municípios brasileiros, no Índice de Desenvolvimento Humano. O IDH representa a 'qualidade de vida' da população "

    Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, Fonte: IBGE

    "Aqui ninguém trabalha. Eu não consegui minha aposentadoria ainda. Só meu marido que recebe o benefício da aposentadoria e faz uns bicos como pedreiro. O restante da nossa renda vem de um benefício por invalidez que a minha filha Elivane recebe", conta a idosa.

    Na foto, da esquerda para a direta, Adriel, Brenda, a bebê e Rosa
    Na foto, da esquerda para a direta, Adriel, Brenda, a bebê e Rosa | Foto: Lucas Silva

    A renda da família, que não passa de dois salários mínimos, vai quase toda para pagar o aluguel de R$ 300 e comprar os quase R$ 900 em remédios e fraldas de Elivane Vieira, 37. Ela é filha biológica de Rosa e tem uma doença que dificulta a locomoção.

    Com pouco mais de R$ 46 por dia, ou seja, R$ 7 por pessoa, a família tenta sobreviver. 

    "Às vezes a gente janta ovo, porque não tem outra coisa pra comer. Compra aquele miojo que as crianças gostam, ou então [carne em] conserva", diz ela, olhando para fora da janela da cozinha, como se esperasse por algo que não vai vir. 

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    Segundo o IBGE, a última pesquisa de 2013 revelou que mais de 7 milhões de brasileiros viviam em insegurança alimentar grave, o que podia representar fome em boa parte dos casos "

    Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Fome no Brasil

    Mesmo com todas as dificuldades, Rosa lembra que sempre foi muito mãe. Ela cuidou de quatro filhos biológicos, hoje adultos, e atualmente ajuda na criação dos dois netos.

    Brenda cuida da neném como se fosse sua filha, outra mãe solo, mesmo jovem
    Brenda cuida da neném como se fosse sua filha, outra mãe solo, mesmo jovem | Foto: Lucas Silva

    "Eles me chamam de mãe [os netos]. Até minha filha adotiva, Brenda, na verdade, é minha neta. Mas ela não gosta que eu fale isso, diz para eu dizer que sou mesmo mãe dela, porque foi eu que criei", conta Rosa, com um sorriso no rosto.

    Durante a entrevista, a filha dela, Elivane, estava na igreja. Só estava em casa a idosa, com a filha adotiva e os dois netos. A cena representa a criação dessas crianças na periferia, geralmente compartilhada com outros familiares. 

    Periferia: condições precárias e violência

    Sentada na mesa da cozinha da casa de madeira, Rosa diz que morar naquelas redondezas é tranquilo, mas, para quem vê de fora, pode ser impactante. O bairro Compensa é considerado como uma área vermelha do tráfico na capital do Amazonas, mas a violência parece ter se tornado apenas uma paisagem. 

    Depois de pensar um pouco sobre a realidade em que vive, Rosa muda de resposta.

    "Ninguém mexe com a gente, mas é perigoso. Um dia desses mataram um aí na esquina. Eu não saio muito, mas minhas filhas sim. Eu até falo para elas evitarem, porque tenho medo que aconteça alguma coisa", diz a idosa.

    Por tanto tempo em casa, da cozinha para a sala, da sala para o quarto, Rosa confessa se sentir presa. Ela diz que tem vontade de sair, mas não o faz.

    Rosa chora durante a entrevista. Ela perdeu a irmã recentemente para a Covid-19
    Rosa chora durante a entrevista. Ela perdeu a irmã recentemente para a Covid-19 | Foto: Lucas Silva

    "Eu me sinto, sei lá. Me sinto presa mesmo. Vou para a igreja dois dias na semana, e antes eu também ia para a casa da minha irmã, que é aqui perto. Mas ela pegou uma gripe recente, foi para o hospital e lá pegou esse tal de coronavírus. Eu sinto muita falta da minha irmã", desabafa ela. O assunto se mostra delicado, e a idosa não consegue evitar derramar lágrimas.  A irmã faleceu no dia 6 de abril de 2020, em Manaus, vítima da pandemia.

    De acordo com Rosa, água não costuma faltar, nem luz. O esgoto, assim como muitas áreas da periferia de Manaus, não existe. "O esgoto daqui é o igarapé que passa aí atrás. Tem esgoto aqui em casa não". 

    Sonhos projetados nos filhos

    Ser mãe se mostra o forte da personalidade dela. Até quando perguntada sobre seus sonhos, a idosa menciona os filhos. Depois de abrir um grande sorriso por causa da pergunta, ela diz querer só uma coisa.

    Rosa abre um sorriso ao falar de seus sonhos
    Rosa abre um sorriso ao falar de seus sonhos | Foto: Lucas Silva

    "Meu sonho é que meus filhos tenham amparo. Eu digo sempre para Deus isso. Quero cada qual na sua casa, bem de vida, eu espero. Peço a Deus", comenta ela. 

    Quem são essas mulheres da periferia?

    A socióloga Valéria Marques comenta sobre as mulheres, chefes de família, que vivem nos lares brasileiros. Elas estão em todo lugar, e você provavelmente conhece, ou foi criado por alguma.

    "Essas mulheres são autônomas, dos serviços gerais, merendeiras, atendentes, vendedoras de catálogo, catadoras, feirantes, motoristas, dentre outras", afirma ela.

    Valéria faz questão de citar quem são as mulheres amazônicas da periferia
    Valéria faz questão de citar quem são as mulheres amazônicas da periferia | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    A cor das mulheres também é conhecida. De acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil, com base no IBGE, 7,8 milhões de famílias são chefiadas por mulheres pretas. Já as casas chefiadas por brancas são 3,6 milhões. 

    "Essas mulheres vivem em condições precárias. Muitas vezes sofrem pela falta de serviços básicos, como água encanada regular e saneamento. Vivem em áreas com grande violência, exposição e domínio do tráfico. É nesse ambiente que elas precisam criar os filhos", ressalta a socióloga.

    Chefe de família e indígena

    Na sala de sua casa, Valéria deixa um pouco de lado a análise das mulheres da periferia para revelar que, na verdade, já foi uma delas. A socióloga é mãe solo, mas com um diferencial, é indígena do povo Baniwa, de uma região próxima à São Gabriel da Cachoeira (AM), município distante 865 km de Manaus.

    "Eu fui criada pela minha mãe, e temos uma história de dor. Ela foi escravizada, teve o nome indígena trocado, mas conseguiu vencer isso tudo. Ela se mudou da nossa terra para Manaus, conseguiu um trabalho no Distrito, no auge da Zona Franca, nos anos 80", revela a socióloga.

    Criada pela mãe, Valéria se formou como socióloga e hoje mora com a filha em um apartamento na Zona Centro-Sul de Manaus. Ela  conta, feliz, que a filha hoje cursa Letras, na Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

    Na foto de baixo, vestida de branco, a mãe de Valéria
    Na foto de baixo, vestida de branco, a mãe de Valéria | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "A história da minha mãe, a minha história e a da minha filha é a mesma de muitas mulheres amazônidas. Viemos da periferia, fomos criadas assim e conseguimos nos empoderar", comenta ela.

    Valéria faz uma pausa e respira. Enquanto olha para o lado, como se procurasse por algo, ela diz "é uma história de dor". A socióloga ainda tenta evitar, mas o peso das lágrimas faz com que elas escorram pelo seu rosto.

    Valéria se emociona ao falar da mãe, que sofreu para criar os filhos
    Valéria se emociona ao falar da mãe, que sofreu para criar os filhos | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    Amazonas: um estado com nome de mulher 

    Em um estado que ganhou o nome em homenagem a uma tribo de mulheres guerreiras, as Amazonas, surge a pergunta. Seria a Amazônia uma 'sociedade' matriarcal? 

    Para responder à questão, Valéria retoma seu lado sociológico e sua experiência enquanto mulher indígena. Ela diz basear sua resposta em autores do pensamento social na Amazônia, e cita os nomes 'Marilene Corrêa, Iraildes Caldas e Heloísa Lara'. 

    Valéria tem muitos livros sobre o pensamento social na Amazônia e estuda o tema
    Valéria tem muitos livros sobre o pensamento social na Amazônia e estuda o tema | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

    "Existe a chefe de família da Amazônia, mas ela é invisibilizada por essa cultura patriarcal. A escritora Heloísa Lara fala até que vivemos em Manaus, não o patriarcado, mas relações patriarcais. Ou seja, eu penso que existe uma sociedade matriarcal amazônica, mas ela é silenciada muitas vezes", afirma a socióloga.

    Valéria descreve cenas comumente vistas no interior e que ajudam a reforçar a ideia do poder da mulher dentro da própria casa, em como essa amazônida chefia o espaço em que vive, ainda que esteja debaixo da sombra patriarcal. 

    "No interior do Amazonas, as mulheres trabalham na roça, fazem a coivara, colhem, pescam, tratam o peixe e, principalmente, têm muita relação com a água. Enquanto o marido está provendo a comida, essa mulher amazônica passa o dia na beira do rio, lavando, buscando água para comida e cuidando dos filhos. E elas são chefes de família porque coordenam a relação com os filhos, com o marido e a casa", analisa a especialista.

     Mãe adolescente e solo 

    A estudante Monik Martins, 18, mora no bairro Lírio do Vale (25,4 mil habitantes), na zona Centro-Oeste de Manaus. Durante o ensino médio, aos 15 anos, ela engravidou do primeiro namorado. A jovem é uma dentre 20 mil que engravidam com menos de 15 anos, todos os anos, no Brasil. A informação é do Ministério da Saúde. 

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    No Brasil, em 2018, 21.154 bebês nasceram de mães com menos de 15 anos de idade. Apesar do número estar caindo, essa redução só começou a ocorrer a partir de 2015, quando foram registrados 26.701 nascimentos. De lá para cá, a queda é de 27%, enquanto que na faixa etária de mães entre 15 e 19 anos a queda ocorre desde o ano 2000, chegando a uma redução de 40% (passando de 721,6 mil para 434,6 mil). "

    Ministério da Saúde, Assessoria

    "Eu tive o meu primeiro namoro aos 13 anos, então não sabia muito sobre o que seria relação sexual. Infelizmente, minha família não conversava comigo ou me orientava. Aos 15 anos, eu e meu namorado tentamos transar e eu tive uma alergia forte ao preservativo. Decidir não tentar novamente. Eu nem desconfiei, até que meus exames se alteraram", conta a jovem, ao completar que foi diagnosticada com anemia profunda e gastrite e descobriu a gravidez aos sete meses.

    Jornada tripla aos 17 e 18 anos

    Depois de ter o neném, a jovem voltou a estudar. Ela terminou o relacionamento com o namorado e pai da criança, e diz que os motivos para a decisão se acumularam.

    Monik atualmente tem 18 anos e é estudante de enfermagem na Universidade Federal do Amazonas
    Monik atualmente tem 18 anos e é estudante de enfermagem na Universidade Federal do Amazonas | Foto: Arquivo pessoal

    "Desde a gravidez, eu decidi que não iria casar, queria terminar os estudos. Depois de um tempo eu percebi que a responsabilidade do meu filho estava apenas sob mim, os gastos, o cuidado. Ele ( pai da criança) já não era mais presente. Fui à Defensoria Pública e pedi pensão e o pai quis tirar a guarda. Decidi desistir do processo e continuar a vida como estava, sem o pai",  conta ela.

    O parto foi normal e a família de Monik sempre deu todo o suporte, o que ela agradece e considera ser uma coisa muito boa. Assim que teve a criança, voltou a estudar e passou a dividir o tempo entre estudo e a maternidade.

    As dificuldades vieram por causa da nova rotina, em especial, em 2019, quando Monik voltou para terminar seu terceiro ano do ensino médio. Foi no mesmo período em que o filho entrou na creche. "Em menos de uma semana, ele teve bronquite, eu não pude ir para a escola. Passei um mês cuidando dele. Quando ele era mais novo, adoecia frequentemente, e eu, como mãe, a responsabilidade de cuidar era minha", conta a jovem.

    Entre fraldas e livros, Monik teve dificuldade até para estudar para as provas, mas conseguiu passar no vestibular e hoje cursa enfermagem na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).  Ela lembra que não costuma ter tempo para sair com amigos "e essas coisas". E ressalta que o filho sempre é a prioridade.

    "A maior dificuldade, para mim, é conciliar a maternidade com o trabalho e os estudos", desabafa a mãe jovem.

    Renda e família

    Ela mora com seu filho, sua mãe e os avós, no bairro Lírio do Vale. Todos são autônomos, mas em espaços diferentes. Monik e a mãe trabalham em um salão da família que fica ao lado da casa, e o avô dela tem uma empresa de refrigeração. 

    "Em relação ao financeiro, apesar de termos uma condição razoável,  uma criança é um gasto maior por eu ser 'sozinha. Eu me privei de muitas coisas para dar o melhor para ele", diz a jovem de 18 anos e muita maturidade.

    20 milhões de mães solos

    Um dos dados mais atualizados sobre maternidade no Brasil aponta que o País conta com 67 milhões de mães. Destas, 37% são solos. Ou seja, 20 milhões de mulheres cuidam dos filhos 'sozinhas', assim como Monik. O dado é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 

    No Amazonas, de 33.376 famílias, 15.241 (41%) eram sustentadas por chefes de família mulheres. A informação se refere ao último censo do IBGE, feito em 2010. 

    Os dados escancaram também o problema da vulnerabilidade social. Das 15,2 mil famílias, 860 delas são sustentadas por mulheres sem fundamental, com grande possibilidade de estarem em trabalho informal.

    Conheça o Projeto Amazônia

    O "Projeto Amazônia", da Rede EM TEMPO de Comunicação, com sede em Manaus, Amazonas, Região Norte do Brasil, tem a finalidade de dar visibilidade às populações da região, como ribeirinhos, povos indígenas, moradores da periferia das grande cidades, bem como destacar a riqueza da biodiversidade da Floresta Amazônica e a defesa de seu ecossistema. Não é possível falar de Amazônia sem falar sobre as características peculiares dos povos que a habitam, na convivência com essa natureza selvagem e, ao mesmo tempo, fantástica. Ciente da importância da Amazônia para o planeta, a empresa de comunicação, em parceria com a Google, tem a satisfação de apresentar ao mundo uma série de conteúdos multimídia sobre esse espaço da América do Sul e esse continente de superlativos. Conheça mais aqui.