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    Ecoturismo


    Aldeias indígenas promovem turismo sustentável no Amazonas

    Algumas aldeias dependem inteiramente do turismo, pois a caça e a pesca são difíceis na região

    A equipe do EM TEMPO visitou a aldeia Yukura, etnia original de Pari Cachoeira, no Alto Rio Negro. Na aldeia, localizada no Parque Ecológico do Lago Janauari | Foto: Brayan Riker

    Manaus - Durante os últimos meses, muitas aldeias indígenas no Brasil tiveram que se preocupar com a contaminação do coronavírus, que alcançou mais de 23 mil indígenas, e com a parada da única fonte de renda de muitas aldeias: o ecoturismo. Há muitos povos que promovem desde o montanhismo até a pesca esportiva, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai). Na região do Médio Rio Negro, são cerca de 15 etnias, que se misturam, promovendo o ecoturismo.

    A equipe do EM TEMPO visitou a aldeia Yukura, etnia original de Pari Cachoeira, no Alto Rio Negro. Na aldeia, localizada no Parque Ecológico do Lago Janauari, vivem cinco etnias diferentes: Tukano, Tuyuka, Bará, Piratapuya e Makuna, que unem o turismo com a natureza. A visita é oferecida por muitas agências de turismo, que levam os visitantes até o local que, ao chegar, são recepcionados pelas crianças e pelo porta-voz, Daniel Tukano.

    Daniel apresenta a cerimônia de recepção aos visitantes
    Daniel apresenta a cerimônia de recepção aos visitantes | Foto: Deborah Arruda

    O artesanato é uma das formas de garantir a economia dos indígenas. Os produtos, feitos pelas mulheres e homens da aldeia, são oferecidos aos visitantes e, conforme explica Daniel, eles dependem inteiramente do turismo, pois a caça e a pesca são difíceis na região. Além disso, eles falam o português e a língua de origem, e Daniel afirma que mistura de etnias ocorre porque eles não casam com membros da mesma, por acreditarem que são irmãos.

    "A gente depende 100% do turismo e desse trabalho [artesanato], porque é difícil a caça, pesca. Aqui nós somos 11 famílias, com 38 pessoas. Alguns trabalhos são feitos pelas mulheres, outros pelos homens. Quando eles [turistas] chegam aqui, já pagam na hora. A gente não recebe nenhum outro tipo de ajuda", afirma o porta-voz.

    A pintura facial é uma das formas de garantir a renda dos originários
    A pintura facial é uma das formas de garantir a renda dos originários | Foto: James Shaolin

    Daniel explica ainda como funciona a cerimônia de recepção, um ritual com danças e cantorias, realizada dentro da oca principal. A cerimônia, que antes durava um dia inteiro, foi encurtada para que os visitantes possam ter um contato direto com a cultura local. Além disso, as mulheres indígenas também realizam pinturas faciais, com um custo a mais e significados diferentes, e mostram aos visitantes um pouco da natureza local e animais, como o bicho preguiça. 

    "Para começar a gente usa esse instrumento [tubo de flauta] e canta a música recepção de boas-vindas [...]. Quando chega a época de muita fruta, a gente reúne um grupo grande para entrar na selva para colher diversos tipos de frutas. Depois de colhidas, a gente traz para o centro da oca e começa a tocar com esse instrumento [ uma espécie de berrante ], isso que vai simbolizar o som de jurupari", afirma o indígena.

    | Autor: Deborah Arruda
     

    Artesanato é muito mais que economia

    A Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN) existe há mais de 30 anos e tem importância notável no posicionamento da mulher indígena na cidade de Manaus. Uma de suas formas de adquirirem renda é com o artesanato. Os objetos, que vão desde cestos a bolsas e chapéus, são feitos pelas quase 60 mulheres que fazem parte da Associação.

    Um dos maiores símbolos de resistência indígena e feminina é feito de fibra, sementes, caroços, tinta e palhas. O artesanato feito em mãos calejadas de anciãs é passado de geração em geração como símbolo de identidade cultural, resistência e luta. Danielle, trabalha com a venda de artesanato, que é algo presente na família desde sua criação. “Sempre eu trabalhei com artesanato, aprendi com minha avó e minha mãe, desde 12 anos. Vim para Manaus na década de 90, com meu marido e dois filhos, e essa foi uma das formas que encontrei para manter nossa raíz viva”.

    O artesanato é um retrato da cultura das mulheres do Alto Rio Negro
    O artesanato é um retrato da cultura das mulheres do Alto Rio Negro | Foto: Clara Toledo

    Yanomami e o Parque Nacional do Pico da Neblina

    No ano passado, os indígenas da etnia Yanomami receberam a carta de anuência da Funai para a reabertura do Pico da Neblina para visitação. A iniciativa foi tomada pelos próprios originários, que prezam pela realização de atividades de forma sustentável, que promova a conservação da biodiversidade e o combate às atividades ilegais. Serão beneficiados mais de 2,9 mil indígenas das seis comunidades envolvidas, de acordo com a Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA) e da Associação de Mulheres Indígenas Kumirayoma.

    "Por enquanto, aqui no Parque Nacional está fechado para a entrada de turistas e não tem previsão para reabrir, mas nós estamos tentando abrir ainda no final desse ano. Nós não fazemos artesanato, os turistas vêm visitar a montanha e nessa visita é gerada uma renda para a Associação e para as pessoas que trabalham no Projeto Yaripo", explica o originário José Goes, da aldeia Maturacá.

    Normas e diretrizes

    Em junho de 2015, a Funai publicou a Instrução Normativa (IN) nº02/2015, que dispõe de normas, diretrizes, procedimentos e instrumentos para a visitações turísticas em terras indígenas, estabelecendo o o protagonismo destes povos. De acordo com o órgão, os indígenas, pelos seus próprios meios, apoiados pela Funai e até mesmo associados a seus parceiros, podem desenvolver a atividade de visitação em suas terras, nas diversas modalidades de turismo, a partir de seu Plano de Visitação (Art. 5° da IN 03/2015), instrumento de gestão territorial e ambiental que estabelece os detalhes de funcionamento dessa atividade. 

    É o Plano de Visitação que institui o quantitativo de benefício econômico a ser recebido pelos indígenas, muitos representados por associações. No caso dos indígenas, as receitas obtidas são alocadas em melhorias da própria atividade turística, bem como das condições de vida nas aldeias, tudo a partir de decisão dos próprios indígenas. Entre as atividades de interesse praticadas estão: pesca esportiva, montanhismo, trilha, canoagem, passeios de caiaque e degustação da culinária local.

    Crianças brincam na beira do rio e recepcionam os barcos que chegam
    Crianças brincam na beira do rio e recepcionam os barcos que chegam | Foto: Daniel Boechat

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