Projeto Amazônia


Artesanato indígena: subsistência, cultura e exploração

Para fugir da mão de obra análoga à escravidão, indígenas da Amazônia encontraram em sua própria cultura uma maneira de gerar renda: vender artesanato

Assista ao documentário que faz parte desta reportagem | Autor: Em Tempo

Manaus - Regina Sateré tem 46 anos e fala com orgulho que passou boa parte da vida à frente de uma mesa, produzindo artesanato. Com sementes amazônicas, linhas e tecidos, ela criou quatro filhos. A indígena do povo sateré-mawé é uma dentre 273 milhões de indígenas ao redor do mundo que trabalham informalmente, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). 

Regina Sateré é ativista pelos direitos indígenas em Manaus
Regina Sateré é ativista pelos direitos indígenas em Manaus | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

"O artesanato já deu bastante dinheiro para nós. Eu, graças a Deus criei, quatro filhos assim. Meu mais velho está se formando para engenharia e a minha filha, biologia. Agora o artesanato para gente é mostrar nossa cultura. Fazemos mais porque é a nossa identidade, um orgulho", comenta Regina.

Ela conversa com a reportagem no quintal de sua casa, no bairro Compensa, Zona Oeste de Manaus. O solo onde pisa não é apenas sua residência, mas também a sede da Associação de Mulheres Indígenas Sateré-Mawé (Amism), que funciona oficialmente desde 1995.

Sede da Amism, na Compensa
Sede da Amism, na Compensa | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

Ao redor de Regina, trabalham seus filhos, seu esposo e a nora. Todos em diferentes formas de artesanato. Para a família, aquela criação coletiva é uma forma de preservar a cultura indígena. 

"É o que eu falo para as minhas meninas. Nem que a gente não viva mais disso, mas é a nossa cultura, a nossa identidade, então vamos continuar fazendo artesanato e passando isso de filha para neta", afirma ela.

A família de Regina senta ao seu redor. No mesmo cômodo, todos fazem artesanato
A família de Regina senta ao seu redor. No mesmo cômodo, todos fazem artesanato | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

Artesanato: luz no fim de um túnel chamado exploração

Embora o artesanato se mostre como uma forma de preservar a cultura indígena, há ainda outro ponto que pode passar despercebido no meio de toda a beleza das joias e outros produtos. A prática que gera renda para a população indígena é, para muitos, uma maneira de escapar da exploração. 

No Brasil, dos cerca de 869,9 mil indígenas, 18% (156 mil) vivem na extrema pobreza. Além disso, quase metade deles (49%) pertence à classe E, considerada mais pobre. O dado sobre a quantidade de indígenas é da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o econômico é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Indígenas tecem materiais para bolsas na Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn)
Indígenas tecem materiais para bolsas na Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

Por já estarem em péssimas condições socioeconômicas, indígenas acabam por se sujeitar a trabalhos informais, esses muitas vezes propensos a más condições e exploração. Um dos mais comuns é o serviço doméstico, exercido por mulheres desde muito cedo. Um exemplo é a história contada no artigo Trabalho Doméstico e Servidão: trajetórias, gênero e identidade de mulheres indígenas em Manaus.

No trabalho, uma indígena nomeada pelas siglas M.V.M, de 29 anos, conta como saiu da casa dos patrões para a produção de artesanato.

"Eu fui babá. Fui babá quando eu tinha 11 anos. Eu trabalhei na casa do Mário Frota. Agora ele é deputado. Fui babá do filho dele, com 11 anos [...]. Depois fui babá de uma menina também, que era enfermeira ali do Santos Dumont. [Em seguida] eu fui trabalhar na casa de uma senhora que era professora. [Por último] eu comecei a fazer artesanato e saí, não trabalhei mais na casa de família", conta a entrevistada para o artigo. 

Na imagem, Deolinda Freitas, artesã e indígena há mais de 30 anos
Na imagem, Deolinda Freitas, artesã e indígena há mais de 30 anos | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

Assim como a personagem acima, Regina Sateré também trabalhou em casa de família antes de despontar com o artesanato. É possível perceber, pelos relatos, como as histórias têm pontos em comum. 

"A gente sofria muito preconceito, muita violência doméstica, porque os patrões nunca tratam a gente como queremos ser tratados. Eles só querem mesmo o serviço da gente. E no artesanato a gente pega a hora que quer, solta a hora que quer. Nós mesmos que fazemos nosso horário. Achamos melhor assim", afirma a indígena.

No artesanato, uma nova exploração

Na esperança de fugir do estigma que os coloca como 'mão de obra barata', indígenas acabam por sofrer preconceitos parecidos, mas dessa vez no próprio artesanato. 

Após produzirem suas artes, por não terem grande alcance, artesãos indígenas costumam vender suas criações para atravessadores. Esses comercializam o artesanato por valores muito mais altos que o inicial, o que faz com que eles sejam os maiores lucradores de todo o processo.

Quem explica melhor como isso ocorre, e o que fazem os indígenas para evitar, é Clarice Tukano. Ela é presidente da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn), que possui 70 associadas. Boa parte delas são artesãs. 

Clarice Tukano, presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn)
Clarice Tukano, presidente da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

"Isso acontece bastante, e quem está na frente tem que prestar bastante atenção com quem está conversando, porque o nosso empreendedorismo não pode ser o dos capitalistas. Nós indígenas temos os próprios princípios econômicos. Olhamos o lado coletivo e o comprador precisa entender isso. A nossa criação não é apenas uma peça, mas carrega nossa história, cultura e identidade", afirma Clarice. 

No artesanato indígena, cada linha conta uma história, tem um significado
No artesanato indígena, cada linha conta uma história, tem um significado | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

Enquanto ela fala, ao fundo, trabalham pelo menos dez artesãs indígenas. Em meio a risadas e palavras proferidas em seu idioma materno, elas costuram, tecem e pintam obras que contam quem elas são.

Preservação da cultura

Embora tenha suas problemáticas, o artesanato indígena ainda é uma das maneiras mais importantes de preservação da cultura da Amazônia. É o que defende Jaime Desana, do povo de mesmo nome. Ele é artesão e pinta camisas com traços de arte indígena. 

"Eu vim do Alto Rio Negro, e na nossa região, temos ritos e festas que envolvem o grafismo. Por causa disso, costumamos desenhar em cerâmicas, instrumentos musicais e nas malocas", comenta o indígena, sobre a origem da sua habilidade no desenho. 

Jaime Desana, artesão de grafismo
Jaime Desana, artesão de grafismo | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

De frente para uma camisa em que estava trabalhando durante a entrevista, Jaime pede para destacar uma crítica. Segundo ele, quando não indígenas olham as obras dos povos da floresta, geralmente se referem aquilo como 'coisa de índio', o que é uma forma de preconceito.

"A pessoa que não tem leitura da cultura indígena vai dizer 'isso aí é coisa do índio'. Nunca vão dizer 'isso aí é filosofia do índio'. Nossa arte não é apenas de sentar e começar a rabiscar, é filosofia", afirma ele.

Camisa com desenhos e pinturas indígenas feitos por Jaime Desana
Camisa com desenhos e pinturas indígenas feitos por Jaime Desana | Foto: Brayan Riker/Em Tempo

Para sustentar sua ideia, o Desana mostra as cores utilizadas na camisa que estava sendo pintada por ele. Cada cor sobre o tecido possui algum significado expressado por meio da forma indígena de ver o mundo.

"Se eu usar a tinta vermelha, eu estou trazendo para esse mundo o que corre no sangue indígena, que é o que identifica os indígenas. Se eu pintar de amarelo, para o povo Desana eu estou falando do leito do rio, como veio a canoa de transformação. E a cor branca eu estou me referindo ao universo, à chuva", explica Jaime. 

Tão forte que tem em si o sentimento de pertencimento à sua cultura, que ele até mesmo pintou o chapéu que utiliza. Quando perguntado sobre o porquê do desenho, ele diz que as cores ali presentes, vermelho e branco, são as mesmas utilizadas em rituais do seu povo. E assim como raízes de uma árvore, a cultura indígena se mistura ao mundo do 'branco', na resistência para sobreviver. 

Saiba mais no episódio sobre artesanato indígena da série 'Amazônia', de autoria do EM TEMPO:

Assista ao documentário que faz parte desta reportagem | Autor: Em Tempo

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O "Projeto Amazônia", da Rede EM TEMPO de Comunicação, com sede em Manaus, Amazonas, Região Norte do Brasil, tem a finalidade de dar visibilidade as populações da região, como ribeirinhos, povos indígenas, moradores da periferia das grandes cidades, bem como destacar a riqueza da biodiversidade da Floresta Amazônica e a defesa de seu ecossistema. Não é possível falar de Amazônia sem falar sobre as características peculiares dos povos que a habitam, na convivência com essa natureza selvagem e, ao mesmo tempo, fantástica. Ciente da importância da Amazônia para o planeta, a empresa de comunicação, em parceria com a Google, tem a satisfação de apresentar ao mundo uma série de conteúdos multimídia sobre esse espaço da América do Sul e esse continente de superlativos. 

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