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Fumaça das queimadas encobre Manaus e interior do Amazonas

Fumaça durante a pandemia é ameaça à saúde pública e pode agravar doenças respiratórias

Entre os dias 1º a 8 de setembro de 2020, foram registrados no Amazonas 2.002 focos de queimadas | Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real

Manaus - Uma extensa nuvem de fumaça de queimadas encobre alguns municípios do Amazonas, desde o início de setembro, vinda de diferentes pontos da Amazônia. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), entre os dias 1º a  8 de setembro de 2020, foram registrados no Amazonas 2.002 focos de queimadas, número superior ao mesmo período de 2019, que foi contabilizado 742.  Fumaça de queimadas pode agravar doenças respiratórias.

Pelos registros do Inpe e outras instituições consultadas, Amazônia Real, detectou concentração de queimadas nos municípios de Novo Progresso, São Félix do Xingu e Altamira, no Pará, e Lábrea, Apuí e Boca do Acre, no Amazonas.

Para o ambientalista e diretor da WCS Brasil, Carlos Durigan, o aumento do número de queimadas é resultado de diversos fatores como a temporada de seca e a ação humana, que devem ser criadas estratégias juntamente com produtores rurais para não ser algo gradativo. 

“Nos últimos anos há um aumento expressivo de queimadas, pois além de estarmos sofrendo consequências da mudança climática global, ainda existe um aumento do desmatamento por meio de ações ilegais de ocupação de terras, o que contribui para o aumento das queimadas. É importante fazer um trabalho de prevenção junto a produtores rurais e ao mesmo tempo, estabelecer um trabalho de monitoramento e combate, quando os incêndios surgem” afirma.

Entre os estados nortistas no ranking de queimadas contabilizados pelo Inpe, o Pará lidera com 9.967. Em seguida, o Amazonas aparece com 4.121, Tocantins tendo 3.661, Rondônia com 3.659, Acre tem 3.251, Amapá registra 58 e, por último, Roraima apresenta quadro com 38.

Riscos à saúde

No ano de 2020, além da preocupação com a constante diminuição da floresta devido à queimadas e ações humanas, a pandemia da Covid-19 também vem aumentando, ambas as situações podendo vir a fragilizar a população. Embora não sejam vistas, as consequências para o corpo humano vão desde as sequelas no sistema imunológico, até a dificuldade respiratória. 

Para Jéssica Santiago, que viajou de Manaus para os municípios de Beruri e Anamã, o cheiro de fumaça durante o percurso era muito intenso, além de notar que o clima alto permanecia do ponto de partida até o local.

“Eu fiquei impressionada como o cheiro estava insuportável. O vento que a velocidade da lancha promovia, na tentativa de chegar em Manaus, não resolvia. Além disso, percebi que no município de Beruri, local de saída para Manaus, estava muito quente, pior do que Manaus, com toda certeza. Será se as queimadas interferiram? Talvez sim”, comenta.

Para Gelcimar Rodrigues, morador do munícipio de Itacoatiara, dependendo do horário, a fumaça pode ficar constante e até se alastrar em outros locais.

“Pela manhã é mais forte [a fumaça]. Depende muito de como está o vento no dia. Mas como está chovendo agora no momento não tem cheiro. Essa fumaça e mais lá pra perto do lixão, próximo aos bairros Jauary  1 e 2, Bairro da Paz, Jardim Lorena” afirma.

As queimadas na Amazônia não resultam apenas em prejuízos para o clima, como também contribuem para o agravante de problemas respiratórios da população. A poluição do ar pode provocar problemas crônicos, e em casos de pacientes já debilitados pela Covid -19 podendo levar a morte.

Para o pediatra, imunologista e alergista, Guilherme Pulici, a ligação entre indivíduos com dificuldades respiratórias que estão em contato não apenas com a fumaça das queimadas, como também a Covid-19, os riscos podem ser inúmeros, prejudicando os pulmões, vias respiratórias, em alguns casos podendo agravar em morte.

“A fumaça das queimadas da Amazônia costuma afetar principalmente as crianças, ainda que tenha impacto também na saúde de idosos — que são grupo de risco para a covid-19. Embora em um primeiro momento outros órgãos não pareçam ser afetados, já sabemos que, de forma direta ou não, a fumaça tem relação com o aumento da prevalência de infarto, AVC, maior risco de câncer e até doenças crônicas", conta Pulici, em entrevista para UOL.

População Indígena

Segundo levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), a temporada de queimadas criminosas na Amazônia coincide com aumento de 25% das internações por problemas respiratórios de moradores locais, o estudo ainda afirma que, populações indígenas são as pessoas mais vulneráveis em relação às queimadas.

De acordo com Rogério Fonseca, ambientalista e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), incêndios florestais e queimadas na Amazônia podem gerar problemas não apenas para a sociedade como moradores locais, como indígenas.

“Durante as últimas três décadas o governo tem falhado e muito no meio rural brasileiro, sobre reforma agrária, pessoas que produzem alimentos dentro de unidades de conservação, pessoas dentro de terras indígenas que merecem apoio rural, da mesma forma que um proprietário privado. Além da criação de projetos, devemos trazer para o estado, o corpo de bombeiros do Amazonas deve ser maior, não apenas centralizado na capital”, comenta.

Ações do Governo

Entre as implementações estão as políticas ambientais pela Sema como em ações imediatas de fiscalização pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam)
Entre as implementações estão as políticas ambientais pela Sema como em ações imediatas de fiscalização pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) | Foto: Divulgação

 

O Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), informou que tem trabalhado com ações de combate às queimadas e desmatamento juntamente com órgãos ambientais estaduais.

No mês de junho, foi deflagrada a Operação Curuquetê 2, articulada entre órgãos ambientais e de Segurança Pública, para combater o desmatamento ilegal e queimadas não autorizadas, com foco na região Sul do Amazonas.

Desde o dia 16 de junho, as equipes de combate estão em campo, com suporte de efetivos do Batalhão Ambiental da Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC-AM), além de equipes do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo) e do 54º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS).

No mesmo mês, foi lançado o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas (PPCDQ-AM), para orientar a governança ambiental do Amazonas até 2022, incluindo também ações de ordenamento territorial e incentivo à bioeconomia. Com o  objetivo de promover soluções estratégicas para antigos gargalos diretamente associados às dinâmicas de desmatamento e queimadas na região. 

Ao todo, foram destinados R$ 56.186.267 para ações do programa, que prevê, até 2022, a regularização fundiária de 16.040 lotes em 15 municípios, a implantação de 200 hectares de sistemas agroflorestais no Sul do estado, a modernização dos escritórios locais do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam), além da manutenção da Operação Curuquetê 2 até novembro, entre outras entregas.

“O planejamento feito pelo Governo do Estado, de unir as ações de comando e controle, produção rural, ordenamento de territórios e bioeconomia, com foco prioritário na defesa do meio ambiente, é o caminho para avançarmos na agenda do desenvolvimento sustentável. É o que propõe o Programa Amazonas Mais Verde, que já está em curso e direcionou mais de R$56 milhões para investimentos nessas áreas”, afirma Secretário de Estado do Meio Ambiente, Eduardo Taveira.

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