Meio Ambiente


Desmatamento pode aumentar casos de doença de chagas no Amazonas

Riscos são principalmente para possíveis surtos de novas doenças infecciosas

| Foto: divulgação

Manaus - O ambientalista e geógrafo WCS Brasil, Carlos Durigan, diz que o desmatamento na Floresta Amazônica pode aumentar a população de barbeiros (Triatoma infestans), o inseto transmissor da doença de Chagas, no Amazonas. Ele explica a relação entre o desmatamento e a enfermidade. No ano de 2019, dez casos de Doenças de Chagas foram confirmados no município de Barreirinha (512 quilômetros de Manaus), anunciou a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS).

“A doença de Chagas existe inclusive em Manaus. Ele é o barbeiro e um inseto que gosta de ficar em base de palmeiras, troncos. E em vegetação degradada, ele acaba encontrando abrigo também e isso quando está associado à frente de um desmatamento, a proximidade com a casa das pessoas e acaba dando um ambiente propício para existência do barbeiro. Então, há um risco em potencial", explica Durigan.

A doença de Chagas (tripanossomíase americana), é uma condição infecciosa aguda causada pelo parasita encontrada em fezes de insetos, transmitida principalmente pelo contato do ser humano com o ciclo do inseto, como as picadas que acontecem em zonas florestais, e a transmissão pela ingestão de alimentos contaminados, no Amazonas em principal o suco de açaí ou cana-de-açúcar.

Entre janeiro e agosto de 2019 no estado do Pará, foram registrados 130 casos da doença. No mesmo período deste ano o número foi de 103 casos confirmados. Na cidade de Rondônia até setembro de 2020, foram investigados e notificados 20 casos suspeitos da doença de chagas de acordo com Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), nos últimos quatro anos, as taxas do desmatamento no Pará estão em alta. Em 2018, o aumento foi 16,7% em relação ao período de agosto a julho do ano passado.

A maior preocupação era com a espécie de barbeiro Panstrogylus megistus, que é facilmente encontrado em espaços domésticos e matas. Esse tipo de barbeiro se infecta ao se alimentar do sangue de animais que abrigam sem desenvolver a doença, como por exemplo em: gambás, cães, gatos, preguiças e pacas. O inseto é facilmente atraído pela luz, podendo adentrar em casas com portas e janelas abertas.

A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), por meio da Diretoria de Vigilância em Saúde e o Departamento de Controle de Endemias, fez um alerta para a população que fornece e consome o fruto do açaí.

Desastres ambientais e a influência para doenças

A doença de Chagas (tripanossomíase americana), é uma condição infecciosa aguda causada pelo parasita encontrada em fezes de insetos
A doença de Chagas (tripanossomíase americana), é uma condição infecciosa aguda causada pelo parasita encontrada em fezes de insetos | Foto: Cássio Vasconcellos/ Agência Brasil

Em 2015, com o rompimento da barragem de mineração em Mariana, Minas Gerais, que matou 19 pessoas e causou uma avalanche, foi motivo para um surto da febre amarela.

Segundo a bióloga Márcia Chame da Fiocruz, os números de casos de febre amarela em 2016 e 2017 em Minas Gerais, foram em parte devido ao desastre.

“Uma mudança abrupta no ambiente tem um impacto sobre os animais, inclusive nos macacos. Com o estresse do desastre e a falta de alimento, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, entre elas a febre amarela”, comenta.

De acordo com estudo feito na Universidade de Stanford, foi detectado que o desmatamento na Bacia Amazônia contribuiu para o aumento da incidência da malária. Em 2008, com o aumento de 10% no desmatamento resultou em um crescimento de 3,3% na transmissão da doença, totalizando 9.980 casos na região

Neste ano, de acordo com carta publicada na revista científica The Lancet, é alto o risco de surgimeno para novas doenças no Brasil. O documento que conta com dez pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), demonstra que devido a expansão do desmatamento e o consumo de animais silvestres como recurso alimentar são os principais fatores para possíveis surtos de doenças infecciosas.

“Todas essas ações representam um grande retrocesso nas políticas socioambientais, o que abre novas portas para o surgimento de zoonoses e impacta negativamente tanto a biodiversidade como a saúde pública, colocando milhões de pessoas em risco”, afirmam os autores.

Segundo o Inpe, do governo federal, entre agosto de 2018 e julho de 2019, foram desmatados 9.762 km². Totalizando quase um milhão e quatrocentos mil campos de futebol.

Sintomas da doença de Chagas

Caso a pessoa apresente sintomas é necessário a realização do exame, existem dois tipos: o parasitológico – aquele em que o parasita é observado diretamente em uma lâmina pelo analista, e o exame sorológico, que é complementar, caso a doença seja detectada a presença da infecção, feita em casos suspeitos.

Entre os sintomas da doença estão: febre, mal-estar, inchaço nos olhos, vermelhidão no local da picada do inseto, fadiga, irritação sobre a pele, dores no corpo, dor de cabeça, náusea, diarreia, vômito, surgimento de nódulos e aumento do tamanho do fígado e do baço.

Possíveis soluções

Neste ano, foi produzida pela doutora em Ciências Gabrielly Conrado uma pesquisa que analisou o uso da planta “quebra-pedra” no combate a doenças. O estudo avaliou compostos isolados nas folhas das plantas que apresentam ação contra a doença de chagas e a leishmaniose cutânea.  

Em 2019, o doutorando Éder dos Santos Souza, estava desenvolvendo uma caneta para  identificar espécies de barbeiros, proliferadores da doença de chagas. A ferramenta é feita por polímero na impressora 3D, com uma espécie de biosensor que irá produzir os resultados diretamente para um software instalado no telefone celular de quem fizer o teste para identificar o Trypanosoma cruzi no açaí antes do consumo do produto.

Em 2006, o Brasil recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) certificação internacional por ter praticamente eliminado o barbeiro Triatoma infestans, a principal espécie transmissora da doença, hoje restrita a regiões da Bahia e do Rio Grande do Sul.

Prevenção

Segundo a Coordenadoria Estadual do Programa de Vigilância, é necessário para evitar a doença, tapar buracos e rachaduras nas paredes, manter higiene de lugares que podem servir de refúgio para o barbeiro. Cuidar da alimentação evitando alimentos crus, caldo de cana e suco de açaí em locais desconhecidos, e evitar animais dentro de casa que podem servir de fonte alimentar dos barbeiros, como cães, gatos e roedores.

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