Planejamento e Alternativas


Desafios da mobilidade urbana em Manaus

Crescimento desordenado deixa problemas para administrar no futuro. Especialistas apontam alternativas para melhorar a mobilidade em Manaus

Segundo o engenheiro de transportes Manoel Paiva, o baixo planejamento da cidade corresponde principalmente com a falta de acessibilidade de locais | Foto: Divulgação/ CMM

Manaus - Manaus enfrenta o desafio de sair da imobilidade urbana. Assim como na maioria das capitais do Brasil, a capital amazonense cresceu de forma desordenada  e com isso  sentiu a necessidade de atender demandas como a mobilidade urbana e ampliação do serviço de transporte públicos. As construções como o Complexo viário Professora Isabel Victoria, no bairro Manoa, e o Terminal de Integração 6 são intervenções que permitirão maior fluidez ao tráfego de veículos em vias estagnadas, mas ainda insuficientes para a integração da cidade, conforme especialistas.

Manaus, em relação a outras cidades do Brasil, tem um crescimento tardio e acelerado. Segundos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade possuía em 1.802.014 de população no último censo, já neste ano o estimado é de 2.219.580 habitantes. Este aumento nos índices populacionais ocorreu principalmente após a implantação do modelo econômico da Zona Franca de Manaus, 1967.

Para o engenheiro de transportes, Manoel Paiva, ex-diretor do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana de Manaus (IMMU) a cidade enfrenta diversos problemas de mobilidade urbana, principalmente em decorrência da falta de planejamento. 

“O maior problema de mobilidade da população encontra-se nas zonas mais populosas de nossa capital, abrangendo as Zonas Norte, Leste e Oeste, onde se verificam também as maiores taxas de crescimento e adensamento populacional ao longo das últimas décadas. As zonas periféricas, longe do centro histórico e de outras centralidades de nossa cidade, geram polos de tráfego e mais viagens diárias, tendo como consequência um elevado fluxo de veículos pelos principais corredores estruturais da cidade”, explica.

Segundo ele, o coletivo urbano é um dos principais utilizados pela população manauara e deve ter um investimento maior, além de melhorias de políticas sustentáveis, inclusivas e econômicas.

“Na cidade de Manaus mais de 55% da população utiliza como principal meio de transporte o modal coletivo por ônibus. Temos que criar uma agenda positiva para estabelecermos as diretrizes com metas, ações e projetos para melhorarmos a mobilidade das pessoas na cidade de Manaus, em curto, médio e longo prazos. Comprometermos e traçarmos tais diretrizes com uma política de estado, priorizando as pessoas, os meios de transportes sustentáveis, inclusivos e economicamente equilibrados. Para estabelecermos um Plano de Mobilidade Emergencial para Manaus: Transporte de passageiros, trânsito e circulação e o institucional”, comenta.

"Péssimos ônibus são as trágicas condições das vias públicas"

Para a estudante de odontologia Ádrya Maquiné, a pouca estrutura dos transportes coletivos é um dos problemas para a população. “Apesar da aquisição dos novos coletivos expressos serem um ponto, ainda temos a maioria dos coletivos interbairros em péssimas condições físicas e linhas insuficientes para suportar a população dos bairros. Exemplo disso é apenas 1 linha de ônibus que vai para a Ufam da zona Norte quase toda. E o que contribui para péssimos ônibus são as trágicas condições das vias públicas, principalmente nos bairros”, disse.

José Aírton, estudante que utiliza o carro como meio para se locomover pela cidade, comenta que a cidade possui pontos positivos e negativos e que devem ser melhorados.

“A mobilidade na cidade de Manaus possui altos e baixos, enquanto dirigimos pelas principais avenidas é visível a melhora na movimentação se comparada com as dificuldades que se tem ao andar dentro dos bairros. A largura das ruas é variada, o que faz com que as faixas que separam as fileiras de carros mudem sem avisos prévios, atrapalhando não somente a fluidez dos carros como os colocando em riscos de acidentes. Além dos buracos, algumas ruas não possuem calçadas adequadas aos pedestres, o que resulta em pessoas transitando nas ruas, colocando sua vida em risco”, relata.

Desafios para o próximo prefeito

A população de Manaus cresce acima da média das grandes cidades brasileiras. Nos próximos 25 anos, Manaus receberá mais de 600 mil novos habitantes. Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – Moradores e Domicílios 2018, divulgada pelo IBGE.

Para o gestor de obras e engenheiro civil, Hiran Estumano, as obras que visam a mobilidade urbana na cidade devem ser constantes, juntamente com o planejamento.

“O que deve ser feito primordialmente é a constante construção de obras urbanas, terminais que a prefeitura está executando, aumentar a fluidez dos corredores viários e sempre pensando nas consequências para que não altere apenas o ponto de retenção de veículos”, orienta.

Ainda para o gestor, o próximo prefeito deve criar alternativas de transportes para a cidade, não apenas focando em coletivo urbano, como também soluções para modais. “A missão do próximo prefeito é trabalhar com modais de transporte. A grande alternativa é fazer valer o transporte público, dando soluções de baldeamento com terminais, como o do Amadeu Teixeira e conjunto Santos Dumont".

Para o especialista, uma alternativa viável já proposta seria oficializar o modal aquático. "[Isso facilitaria] de forma válida o transporte por rio, deixando pontos de integração, podendo ser pelos próprios portos, mas que facilite viagens pela cidade. Fazendo com que seja descaracterizado algo sólido, com infraestrutura de paradas".

Elemento de mobilidade

A mobilidade urbana impacta principalmente na economia e na saúde e bem-estar da população manauara. Por não se restringir apenas ao transporte, é necessário o planejamento para os pedestres, em avenidas e calçadas.

Segundo, o engenheiro de transportes Manoel Paiva, o baixo planejamento da cidade corresponde principalmente com a falta de acessibilidade de locais.

“Nosso sistema de mobilidade é inacessível e excludente. A falta de acesso aos cadeirantes, pessoas de baixa mobilidade, aos idosos e aos deficientes visuais, motivado principalmente por falta de calçadas adequadas, espaços com barreiras arquitetônicas, sem mobiliário urbano adequado, sem sistemas de informações. Precisamos de um choque nas ações de projetos que melhorem a qualidade de vida dessas pessoas”, explica.

Ações de mobilidade para melhorar a mobilidade urbana e uso da bicicleta são poucas
Ações de mobilidade para melhorar a mobilidade urbana e uso da bicicleta são poucas | Foto: Divulgação Secom

Em 2018, o presidente Michel Temer sancionou lei para estimular o uso da bicicleta como meio de transporte e integrá-la ao sistema público coletivo. Em Manaus, no ano passado foram implantadas ciclovias e ciclofaixas nas avenidas Norte, Leste, Oeste e Centro-Sul, mas ainda assim as ações de mobilidade urbana para melhorar a mobilidade urbana e uso da bicicleta são poucas.

Cristiane Mota, conta que são poucos espaços para o ciclista, além do desrespeito com que utiliza.
Cristiane Mota, conta que são poucos espaços para o ciclista, além do desrespeito com que utiliza. | Foto: Arquivo Pessoal

Cristiane Mota da Silva, ciclista há quatro anos, utiliza a bicicleta como meio de transporte para trabalho e passeio, para ela a prática na cidade é problemática, por não haver respeito e maiores alternativas.

“Mobilidade em Manaus, não existe. É ruim realmente, o trânsito cada vez mais caótico. Não existe respeito com o ciclista, muitas vezes o motorista joga o carro em cima da gente. Os poucos espaços que fizeram para o ciclista, não existe respeito, o motorista utiliza esse espaço que não é dele. Diante da quarentena as pessoas passaram a utilizar mais as bikes e, até melhorou, porque poucas pessoas ficaram transitando na cidade, nesse sentido foi bem tranquilo. Mas a mobilidade que gostaríamos de ter, não existe”, comenta. 

Comemoração em obras

De acordo com a assessoria da Prefeitura de Manaus, desde o início do mês de outubro, o prefeito Arthur Virgílio Neto vem entregando obras nas áreas esportiva e de lazer, como quadras e campos, além de Centros Integrados Municipais de Ensino (Cimes), parques da Juventude e obras macro como a revitalização do hotel Cassina, que passará a se chamar “Casarão da Inovação Cassina”, após escolha de votação popular.

As inaugurações seguem com previsão de entrega, até o fim do ano, da revitalização do prédio da antiga Câmara Municipal, que vai abrigar o Centro de Arqueologia de Manaus, das construções do complexo viário Professora Isabel Victoria, no Manoa, estações de transferência Santos Dumont, Arena e Parque das Nações, novo Terminal 6, no bairro Lago Azul, a reconstrução do Terminal 1, e demais obras executadas pelo município que estão em andamento.

Leia Mais:

Especialistas sugerem soluções para a Manaus do futuro

Obra do T6 tem 80% de execução e entrega confirmada para dezembro

Prefeito garante 3 estações de transferência de passageiros em Manaus