SÉRIE AMAZÔNIA


Palafitas: desigualdade urbana e expressão da identidade nortista

Se por um lado as casas de madeira são lidas como um exemplo de como é morar na Amazônia, por outro mais profundo, elas escancaram a realidade de desigualdade habitacional nessa região

Palafitas se erguem como muralhas por cima dos igarapés de Manaus | Foto: Arquivo EM TEMPO

Manaus - Quando se fala em arquitetura, pensar em certas localidades pode gerar imagens automáticas na mente. Egito? Pirâmides. Japão? Templos. No caso da Amazônia, uma dessas representações poderia ser as palafitas, casas de madeira suspensas, construídas para serem adaptadas à cheia e seca dos rios. Mas, se por um lado, essas moradias são colocadas como identidade de uma região, do outro, são marcas da desigualdade que impera naquele lugar.

A banda manauara Tucumanus tem uma música que descreve bem a realidade desses espaços. "Vem cá anunciar a venda de uma casa, ô sinhá/ Sem porta e sem janela/ Sem grades e sem telas/ Com catitas pra espantar/ Quem quer comprar/ Palafitas de frente pro rio/ Quem quer comprar/ Com os perigos das chuvas de abril".

Parte do bairro Educandos, Zona Sul de Manaus, é composto por palafitas nos mesmos moldes da canção acima. As casas suspensas chegam a alcançar quatro metros de altura com facilidade. Para subir, só de escada. Elas são altas assim, porque, quando o rio enche, ele fica embaixo delas. Para se locomover da residência até a terra firme, só com canoa. 

Altura das palafitas no bairro Educandos, em Manaus
Altura das palafitas no bairro Educandos, em Manaus | Foto: Arquivo EM TEMPO

Assim vive Alessandra dos Santos, 43, dona de casa. Ela mora há oito anos em uma palafita no Educandos, e todos os seus anos são compostos apenas por duas estações: o período de seca, quando há muito lixo e poeira ao redor de casa; e a cheia, quando a água se espalha por todo lugar e a obriga a andar por pontes dentro da sua própria residência. 

"Ponto positivo de morar aqui? Não, não tem. Não é bom morar assim, a gente passa muita dificuldade, problemas, porque nem sempre a gente está com condições de ajeitar as coisas. E quando já vai chegar o período das cheias, eu preciso me preparar, comprar madeira pra ajeitar a casa e também fazer umas pequenas pontes para eu poder andar da sala pra cozinha, do quarto para o banheiro. É muito ruim morar assim", comenta ela. 

Alessandra preferiu não mostrar o rosto, embora tenha topado conversar com a reportagem
Alessandra preferiu não mostrar o rosto, embora tenha topado conversar com a reportagem | Foto: Arquivo EM TEMPO

Na região Centro-Oeste de Manaus, bairro São Jorge, a cena se repete. Lili Jones, 48, é dona de casa em uma palafita que fica na beira do Igarapé da Cachoeira Grande. A residência dela possui sala, quarto, cozinha e um banheiro e já alagou muitas vezes.

"Eu quero continuar morando aqui, porque foi esse lugar que meus pais deixaram para mim. Eu só queria que fizessem uma barreira aí nesse igarapé pra água não entrar mais em casa. É muito ruim, já perdi geladeira, estragou meu antigo banheiro. Só queria que nos ajudassem", desabafa ela.

 Lili diz querer continuar na casa que herdou dos pais
Lili diz querer continuar na casa que herdou dos pais | Foto: Arquivo EM TEMPO

Marca da desigualdade

A reportagem conversou com sete moradores de palafitas. Todos afirmaram, cada um à sua maneira, que não gostam de viver nessa situação, mas que não têm condições de sair disso. Não há estudos concretos que deem a dimensão geral da relação entre pobreza e as palafitas, mas não é difícil perceber como elas estão interligadas há muito tempo.

"Manaus, infelizmente, teve uma relação histórica muito danosa com a natureza. A cidade se expandiu no Período da Borracha (1879-1912) e Período da Zona Franca (entre anos 70 e 90), o que acabou afetando os feixes de água que cortam a capital", explica Marcos Castro, doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP). 

Márcio faz uma análise da geografia do Amazonas, e detalha o processo de urbanização do lugar
Márcio faz uma análise da geografia do Amazonas, e detalha o processo de urbanização do lugar | Foto: Brayan Riker

Quando chegavam a Manaus à espera de uma melhora na qualidade de vida, emigrantes encontravam pouca ou nenhuma assistência habitacional. Por causa disso, até pelo costume amazônico de construir casas à beira do rio, os novos moradores iam para as margens dos igarapés. 

"Nós olhamos muito essa ocupação irregular, e esquecemos de observar o problema estrutural. Há muita desigualdade de renda e desemprego, e a terra, como é uma mercadoria, tem preço. Logo, algumas pessoas não têm condições de comprar, e sem política habitacional, elas acabam indo morar na beira dos igarapés. Elas não pensam que estão desmatando, porque só querem alcançar o direito fundamental da moradia", comenta o geógrafo. 

Palafita como identidade de uma região

Em 2019, cenários de palafitas foram erguidas como símbolo amazônida no Passo a Paço, considerado o maior evento multicultural da Amazônia, e que ocorre todos os anos em Manaus. O espaço foi construído para render boas fotos dos visitantes, mas logo foi problematizado, já que, se ali as casas de madeira estavam bonitas, a realidade era bem diferente.

"Parabéns a todos que fizeram o Passo a Paço, exceto pra quem teve a ideia de montar o cenário com as palafitas. Todos estão de parabéns, menos você", escreveu um usuário no Twitter, à época.

Para além da tese de expressar a desigualdade habitacional da região amazônica, as palafitas são projetos arquitetônicos históricos. É possível ter dimensão dessa realidade no artigo 'Palafitas, estivas e sua imagética na contemporaneidade urbano rural da Pan-Amazônia', escrito por Ligia T. L. Simonian.

A saúde e saneamento nas palafitas são pontos críticos
A saúde e saneamento nas palafitas são pontos críticos | Foto: Arquivo EM TEMPO

"A produção de habitações estilo palafita tem uma conexão muito estreita com as condições fisico-ambientais do espaço ou local onde são construídas e com as tradições arquitetônicas da região pan amazônica, o mesmo ocorrendo em relação às vias de acesso, as estivas", relata a autora.

No estudo, Ligia aponta ainda que o modelo de palafitas tem inspiração ainda na cultura dos indígenas, esses que habitam a Amazônia há séculos.

"[...] esta relação tem uma afinidade profunda com a cultura indígena de adaptação aos ecossistemas e às condições de produções arquitetônicas nestes contextos e possivelmente desde milênios, pois muitas vezes áreas altas são encontradas nas proximidades, mas são desconsideradas como áreas de moradia [...] De fato, isto (uma palafita) é bastante encontrável nas margens dos rios da bacia amazônica, onde se constituem os denominados beiradões, e em áreas alagáveis, as baixadas", escreve a autora.

E é nessa realidade amazônida que as palafitas seguem como a expressão de um modo de vida tropical, mas também de uma enorme desigualdade. 

Assista à reportagem especial do EM TEMPO sobre os igarapés e palafitas de Manaus:

Assista à reportagem | Autor: Em Tempo